Páginas

16 de setembro de 2014

Uma menina/mulher "diferente"

Reproduzimos a seguir um dos mais brilhantes relatos de história de vida. A professora Heloisa Bitu em uma simples atualização de status da rede social Facebook conseguiu resumir quase toda a sua existência nesse mundo chamado Altaneira.

Heloisa inicia seu relato falando da experiência por conta do Curso de Condutores de Trilhas que está participando em parceria Rede de Educação Cidadã – RECID e Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Turismo.

Vamos ao relato:

"Hoje foi um domingo de experiência transcendental... é verdade! Por conta do Curso de Condutores de Trilhas que estamos fazendo. Tivemos a oportunidade de experimentar uma das atividades do turismo aventura: a Escalada! Esporte muito diferente do rapel... “o rapel é para meninas” diziam os companheiros.

Eu comecei a lembrar de minha infância, adolescência e da juventude, da qual ainda considero-me nela. Depois de todo esse tempo nunca entendi porque os meninos podem e as meninas não; porquê ou isto ou aquilo para as meninas e para os meninos tudo! Sinceramente, jamais pude compreender... porque eu não podia jogar bola como os meninos, rodar pião, pescar, atirar de baladeira, soltar pipa, subir em árvores, sem ouvir um: “essa menina só quer ser um macho”????!!! Na adolescência fui rotulada de estranha... não gostava de maquiagem e batom, odiava saltos e detestava saias! Ouvia pelos cantos as pessoas resmungarem que não casaria tão cedo... quem, iria querer namorar com essa aí??? Tudo dela é com os moleques!!! Não vai pra casa de fulaninha porque ela tem irmãos... você deixa de estar com ela pra ficar com o fulaninho!!! Não vai!! Interessante é que já no ensino médio, se eles fossem “sensíveis”, tudo bem... rsrsrsrsrsrsrsrs. Cresci sem saber cozinhar, nem lavar, nem maquiar ou me arrumar, nem rebolar! Porém, não precisei ser promíscua como os rapazes, nem encher a cara, como a maioria deles fazem, nem desejar as meninas, aposta de uma cidade inteira!!! As pessoas não entendiam qual era a minha na real, então me rotulavam como queriam. Foram poucos namorados... imagino, o que eles tiveram de suportar os outros falarem à meu respeito!!! No trabalho, sempre bem humorada, ingênua, infantil ou louca, mas feliz, agora aos 18, eu poderia fazer o que quisesse! Poderia tocar violão, dançar rap com os meus alunos, ir pra capoeira, ser a única mulher numa Banda como a do saudoso Jorginho!!! Eram tantas coisas... ir para as noites de Rock da Expocrato e voltar quando desse na telha, ser meio hippie ou frequentar igreja evangélica!! E eu fiz, por que mesmo que os outros dissessem que não era para mulheres eu ia lá e fazia! Era o meu êxtase!
 E Para a surpresa de muitos eu casei... casei cedo e bem, o rapaz não era daqui! rsrsrsrsrsrsrs. Nunca me senti tão EU como quando cortei a cabeleira... aquilo sempre me incomodou!!! Jamais dava pra estar pronta na hora exata pra sair de casa. Cuidados e mais cuidados dos quais eu não estava disposta a perder meu precioso tempo! E quantas barbáries eu tive que ouvir por causa de um simples corte de cabelo!!!! Deus, até os pivetes da rua nunca sabiam se eu era homem ou mulher!!!! E quantas já se perguntaram como, o meu Fabrício pôde querer uma pessoa tão ridícula como eu, sem um pingo de feminilidade!!! Para uma sociedade tão machista como a minha... pra ser mulher com M maiúsculo não bastava ser casada! Era necessário ser mãe... e não foi fácil!!! Todos sabem como, não foi. Pela primeira vez me senti impotente de verdade... das outras vezes eu sabia que era questão de tempo... mas aqui, parecia impossível. Depois de uma experiência frustrante, não ser mãe seria a pior coisa que poderia me acontecer... perderia todo o sentido de se fazer as outras coisas impossíveis às mulheres.
 Ser MULHER é a minha essência; o que eu jamais irei compreender é porque para as outras pessoas o meu sexo poderia ser limite para os meus sonhos!!! Maya, minha bonequinha, mamãe não seria tão feliz, como imaginava, se não fosses uma garotinha!!! Você veio para me ensinar como não “educar” uma menina!! Mamãe te ama e agora tem mais um motivo para continuar seguindo fazendo aquilo que ela mais ama de verdade!!!
Meninas de todas as partes do mundo, vão em frente!!! Façam além daquilo que os outros esperam que vocês sejam capazes de fazer... mas não esqueçam de serem melhores que eu... aprendam a cozinhar, lavar e passar, por favor!!!!"


Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Administração do Blog de Altaneira recomenda:
Leia a postagem antes de comentar;
É livre a manifestação do pensamento desde que não abuse ou desvirtuem os objetivos do Blog.