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7 de abril de 2020

Camilo acertou ao corrigir o erro; resta saber por que errou

Camilo Santana: uma decisão polêmica e um recuo acertado (Foto: Reprodução/Facebook)
O governador Camilo Santana (PT) fez bem ao revogar o decreto. E o acerto se deve ao fato de que ele fez mal ao flexibilizar as regras de funcionamento para muitos setores da indústria e para alguns segmentos do comércio. A política de isolamento é custosa economicamente, socialmente, emocionalmente, educacionalmente. Mas, ela a política recomendada por todas as autoridades de referência na área, para evitar um custo muito maior em vidas. Quando as atividades começarem a ser retomadas, não será tudo de uma vez. Terá de ser gradual. Ocorre que certamente não é agora. Ontem foi o dia com mais mortes informadas no Ceará: cinco. Foi também o dia com maior número de novos casos: 189. Vamos combinar, o dia em que se bate o recorde de casos confirmados e de mortes não é a data para começar a liberar circulação, não é? 

O Ceará está ainda subindo em relação aos casos. Há de se torcer para que estejamos já perto do pico e comecemos a ter uma queda o quanto antes. Para, aí sim, começar a flexibilizar. Não faz sentido nenhum é vir com política de isolamento até aqui e, quando se chega ao maior número de novos casos confirmados e de mortes, começar a abrir. Seria ir na contramão do mundo e da lógica.

Camilo recuou de uma decisão que entendeu errada e recuou rápido. Ótimo que tenha sido assim. Disse que foi convencido pelos argumentos do Comitê de Saúde. Excelente que tenha seguido o que dizem os especialistas. O que não entendi: por que ele não deu ouvidos ao comitê antes? Eles não argumentaram antes da publicação do decreto? Eles não foram ouvidos antes da elaboração do decreto e ficaram sabendo pelo Diário Oficial? Ou o governador sabia dos argumentos antes e não ligou?

Não é usual Camilo errar por deixar de ouvir as pessoas. O governador deve se perguntar sobre o por que de ter cometido esse erro. E responder a si mesmo sobre a decisão que quase foi custosa para os cearenses.

A pressão sobre todos os governantes está intensa para autorizar a abertura de estabelecimentos. No mundo todo. No Ceará também é assim. É compreensível que empresários queiram voltar ao funcionamento o quanto antes. É legítimo, é justo. Mas, a abertura agora pode ser trágica.

O mundo está numa emergência global como esta geração não conheceu. Penso que todo mundo quer voltar a janeiro, antes de tudo isso começar. Porém, quando as coisas reabrirem não será do mesmo jeito. Ninguém se iluda. Deseja-se o retorno a uma normalidade que acabou, e não acabou por decreto de governo. A velha normalidade não é uma alternativa, infelizmente.

Vale olhar para a experiência mundial e para a história. Em outra pandemia, de características que se assemelham a esta, a gripe espanhola de 1918, o comércio fechou não por ordem do governo. Foi o caos social que assim impôs. O mesmo na epidemia de varíola de 1878. Epidemias têm esse poder, queiram os governos ou não.

E se for exagero?
A Covid-19 é nova e ainda pouco conhecida. Há quem defenda haver exagero nas restrições. É possível. Como é possível que não. Você pagaria para ver com a vida das pessoas? Entre o exagero de excesso de proteção e o risco de não fazer tudo que poderia para prevenir, o que você faria? O que você faria se fosse com sua família?

A diferença que pode fazer isolar ou não isolar
O Instituto Butantan fez uma projeção assustadora para São Paulo. Estima, para os próximos seis meses, 111 mortes naquele estado pelo novo coronavírus. Isso com as medidas já adotadas. Sem as restrições, segundo o Butantan, seriam 277 mil mortes no Estado de São Paulo nos próximos seis meses.

São 150% de mortes a mais no cenário sem as restrições, em relação ao cenário com isolamento. O que você faria se a decisão fosse sua? Adotaria a medida que representaria 150% a mais de mortes do seu povo? Apostaria que está errado um instituto com 119 anos de história? E apostaria porque você quer acreditar em algo diferente? Que tipo de governante seria você?

Publicado originalmente no portal O Povo Online

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