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23 de abril de 2020

É hora de considerar o impeachment por Plínio Bortolotti


Nunca me enganei sobre o caráter do governo de Bolsonaro, nem dele próprio, um dos mais baixos a encarnar em um ser humano. 

Falei bastante sobre o abismo no qual o País despencaria com um presidente, cujos atributos - em seus 30 anos de Parlamento - foram ofender mulheres, fazer declarações racistas e homofóbicas e defender a ditadura: seu principal gozo sempre foi exaltar um dos mais abjetos torturadores, Brilhante Ustra, que levava crianças às masmorras para verem os pais sendo torturados.

Quem achou que um sujeito dessa qualidade poderia elevar-se a um patamar minimamente civilizado ou foi muito ingênuo (raro em política) ou agiu de má-fé, em defesa de seus mesquinhos interesses. Da mesma forma que fez o "sr. Mercado", cuja religião é o lucro a qualquer preço, a ser pago pelos explorados de sempre.

Quando fazia esses comentários nos Debates do Povo (rádio O POVO/CBN), a pergunta de meus interlocutores era: "Então você já está defendendo o impeachment?". Minha resposta, com uma dose de ironia: "Não, agora é preciso tomar o copo de veneno até o fim, como forma de aprendizado".

Mas chegou a hora de considerar o impedimento. Bolsonaro já deu dezenas de motivos que justificam um pedido de impeachment, e reforçou essa necessidade ao participar do ato no domingo, pedindo um golpe militar, fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Sob um acesso de tosse seca, o homúnculo moral avisou que não vai "negociar nada" (reafirmando seu desprezo ao Congresso), pois "agora é o povo no poder". Por óbvio, o representante da suposta vontade popular seria, ele, o candidato a ditador.

Muita gente fala em "prudência", pois Bolsonaro seria uma espécie de cachorro que late, mas não pode morder, pois o Parlamento e o STF estariam cuidando de serrar-lhe os dentes. Engana-se quem pensa assim. Quanto mais espaço ele tem para agir, mais se fortalece, ganhando tempo para que os fanáticos se organizem em milícias, tipo uma SS tupiniquim.

Os recuos e juras à Constituição são movimentos táticos. Bolsonaro só não golpeia a democracia porque não tem, até agora, força suficiente. Mas o risco é grande. É preciso frear logo a alternativa autoritária.

Publicado originalmente no portal O Povo Online



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