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14 de janeiro de 2026

Da sombra da ditadura aos holofotes da Sétima Arte, por Marcelo Uchôa

Cartazes dos filmes premiados: "uma história na ditadura e uma história da ditadura" (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, duas histórias de tensão, duas histórias de sofrimento. Dois enredos de indignação, dois enredos de resistência. Duas famílias despedaçadas, uma tentando se reencontrar, outra buscando sobreviver. Um cerco no Nordeste, um calvário no Sudeste. Medo e coragem. Silêncio sonoro, sonoro vazio: grito engolido a seco!

A década de 70 brasileira, uma história na ditadura e uma história da ditadura. Um tempo em que não se deveria mais perseguir, mas perseguia; e outro em que a perseguição era a regra, mas jamais poderia.

Um clamor em forma de verdade, uma verdade em forma de memória. Denúncia!

Marcelo, nome de guerra de Wagner, o clandestino; era também Marcelo, o nome do clandestino, meu pai. Um nome da clandestinidade no Nordeste, que herdei na clandestinidade no Sudeste.

Um Marcelo que não foi só nome de Wagner na ficção, ou de meu pai, na realidade. Daquele que saiu foragido do Sudeste para o Recife ou do outro que saiu escondido para o Sudeste após ser preso no Recife.

É também o Marcelo do Rubens Paiva, que no Rio do Sudeste tentou sobreviver; que deu luz ao livro que virou filme, e ao filme que virou luz. É também o meu Marcelo, que nasci no Rio, porque não pude nascer no Ceará nordestino, e que assino com dignidade cada voto de reparação e justiça na Comissão de Anistia.

As vitórias de Kleber Mendonça, Wagner Moura, Tânia Maria, Hermila Guedes, Alice Carvalho, Walter Salles, Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, de todas e de todos os envolvidos nas produções, são delas e deles, mas não só deles e delas.

Quem venceu foi a resistência de um povo que não aceita mais se calar, nem teme mais ser oprimido. O apogeu de uma cultura que quase foi sufocada, mas não se deixou sufocar, porque a Sétima Arte é arte e a arte é vida. Se não é o Brasil que queremos, é o começo de um Brasil que sonhamos. Viva o cinema brasileiro. Do Nordeste ao Sudeste; do Sudeste ao Nordeste, tanto faz. Ditadura nunca mais!

Publicado originalmente no portal O Povo +

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