Páginas

8 de março de 2026

Abram alas para elas: por espaços além do 8M, por Diana Azevedo

Diana Azevedo é professora titular e vice-reitora da UFC (Foto: Fernanda Barros)

"Ô abre alas, que eu quero passar". O verso de Chiquinha Gonzaga, musicista revolucionária do século XIX, segue atual. Ao reivindicar passagem, Chiquinha antecipava - em tom de marchinha - a travessia de tantas mulheres que ainda hoje precisam romper barreiras invisíveis para existir plenamente.

A cada mês de março, o país se mobiliza em torno do Dia Internacional das Mulheres. É justo reconhecer avanços: mais meninas nas escolas, mais mulheres nas universidades, mais lideranças emergindo na ciência, na política e nas empresas. Apesar das iniciativas para corrigir desigualdades históricas, os tetos de vidro persistem. Nas áreas de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), a presença feminina não ultrapassa os 30%, sobretudo nos níveis mais altos da carreira. Pior cenário ocorre nos espaços de poder e decisão, em qualquer campo do conhecimento. Muitas entram, poucas chegam ao topo.

Há um paradoxo inquietante. Enquanto o debate sobre equidade ganha visibilidade sazonal, crescem os índices de violência de gênero - inclusive a violência política. A cada avanço, parece haver uma reação que tenta restabelecer antigas hierarquias. Romper os tetos de vidro exige vigilância permanente e mudanças estruturais na forma como educamos meninos e meninas. Que sonhos incentivamos? Que limites naturalizamos? Que lideranças (des)legitimamos?

As instituições de educação superior têm compromisso inarredável com essa agenda - promovendo inclusão, prevenindo e enfrentando todas as formas de violência de gênero e suas interseccionalidades, e formando lideranças comprometidas com a justiça social.

Acima de tudo, é fundamental que as mulheres tenham consciência do próprio poder. Reconhecer-se sujeito de direito, liderança legítima e voz autorizada é parte do processo de transformação. Preta Gil regravou a marchinha e provocou: "Quem disse que eu não tô no meu lugar?". A pergunta é também afirmação: nosso lugar é onde decidimos estar. Que o "abre alas" deixe de ser pedido e se torne prática para além do calendário. Equidade não é concessão, é condição indispensável para uma democracia plena.

Publicado originalmente no portal O Povo +

Leia também:

A violência contra a mulher e o dia das fêmeas

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Administração do Blog de Altaneira recomenda:
Leia a postagem antes de comentar;
É livre a manifestação do pensamento desde que não abuse ou desvirtuem os objetivos do Blog.