Páginas

11 de junho de 2026

Lula reforça discurso da soberania em recados aos EUA

Antes do discurso, Lula apareceu ao lado de Alckmin e de ministros segurando uma placa em defesa do PIX (Foto: Ricardo Stuckert)

A poucos dias de embarcar para a reunião de cúpula do G7, que ocorrerá na França, entre os dias 15 e 17, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou, nessa quarta-feira, o discurso em defesa da soberania nacional e fez críticas a medidas adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ameaça com novas taxas a produtos brasileiros. As declarações ocorreram durante a 7ª Reunião Plenária do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável, o Conselhão, em Brasília.

Antes do discurso, Lula apareceu ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin e de ministros segurando uma placa com a inscrição "O Pix é do Brasil". Na ocasião, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, anunciou que o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) reconheceu o Pix como marca de grande renome.

No discurso, ao comentar sobre a economia do país, Lula afirmou que o Brasil não deve aceitar imposições que prejudiquem os trabalhadores e cobrou um levantamento sobre a realidade trabalhista dos Estados Unidos. Ele criticou as declarações do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que sugeriu tarifas de 25% sobre os produtos nacionais.

"É preciso que vocês me apresentem o estudo urgente do que ganha um trabalhador americano, porque essa última imputação de taxa que eles colocaram para nós, nós não temos o direito de aceitar por dignidade e respeito ao que nós fazemos aqui para os trabalhadores brasileiros", declarou.

O chefe do Executivo também questionou a alegação do relatório americano sobre desmatamento no Brasil. "Quero saber quais são os direitos que os trabalhadores americanos têm para vir um tal de diretor impor multa por conta do desmatamento. Será que eles não percebem que eles já tão careca? Será que não se dão conta de que nós, nos últimos três anos e meio, diminuímos o desmatamento em todos os biomas brasileiros?"

Segundo o presidente, o Brasil deve ser reconhecido pelos avanços obtidos na proteção ambiental e pelo compromisso assumido com o desenvolvimento sustentável.

Ao tratar da economia, Lula afirmou que os indicadores positivos precisam ser acompanhados pela distribuição de renda e pela ampliação das oportunidades para a população mais pobre. "A economia do Brasil está correta. Obviamente que eu gostaria de crescer 10%. Mas o importante não é o quanto você vai crescer. O importante é se o que vai crescer é distribuído, porque este país já cresceu 14% ao ano e não distribuiu", criticou.

Lula disse que o governo tem buscado inserir no orçamento grupos que historicamente ficaram à margem das políticas públicas. "Então o que é importante é que aos poucos a gente vai colocando a parte mais sensível e mais pobre da população dentro do orçamento do país, levando a sério a educação, a saúde, a legalização de terras indígenas, a demarcação e os quilombolas". Hoje, ele assinará decretos garantindo terras para o grupo de mulheres quilombolas. "Com a entrega que nós vamos fazer para as mulheres quilombolas, nós estaremos entregando, em três anos e 4 meses, 48% de tudo que é terra quilombola registrada nesse país", afirmou.

De acordo com Lula, a ampliação de direitos para populações historicamente excluídas ainda provoca reações de setores que se incomodam com a democratização do acesso às políticas públicas. "Cada reserva florestal que a gente faz, cada terra indígena que a gente legaliza, cada benefício que você dá, aqueles que estavam acostumados que o país fosse só deles ficam irritados", disse.

O Correio conversou com uma fonte, ligada ao presidente que informou que Lula deve embarcar para a França neste domingo à noite para participar da cúpula do G7. A mesma fonte afirmou que, até o momento, não há qualquer reunião agendada entre Lula e Trump. Segundo o relato, também não houve conversas prévias entre representantes dos dois governos para organizar um encontro, que discutiria a ameaça de novo tarifaço e a classificação das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

Faria Lima

O presidente Lula voltou a criticar a forma como parte do mercado financeiro avalia as contas públicas e citou comparações com economias desenvolvidas, mencionando os níveis de endividamento de outras nações. “A Faria Lima escreve nos jornais que, se a gente tiver um deficit de 0,20%, vai cair o mundo… Nos Estados Unidos a dívida pública externa deles é de 120% do PIB. Na Itália é quase 200%, no Japão é quase 300%”.

Ele criticou a utilização da palavra “gasto” para se referir a investimentos sociais. “Nesse país a gente nunca conseguiu avançar o que precisava avançar porque existe uma palavra, uma desgraça de uma palavra chamada gasto." Para Lula, políticas públicas voltadas à educação e à inclusão social costumam ser analisadas apenas pelo impacto fiscal. “Tudo que a gente quer fazer para o pobre aparece: 'não, isso gasta muito'. 'Isso gasta muito'. 'Investir na alfabetização gasta muito'. 'Investir na universidade gasta muito'. 'Investir em Instituto Federal gasta muito'”, criticou.

Democracia

O chefe do Executivo demonstrou preocupação com o avanço de movimentos de extrema direita em diversos países e defendeu atenção aos impactos políticos provocados pela desinformação e pela insatisfação social. Ele declarou que teria uma conversa, por telefone, ainda nessa quarta-feira, com a presidente do México, Claudia Sheinbaum.

Lula citou acontecimentos recentes no México e fez uma comparação com as manifestações registradas no Brasil em 2013. Segundo o presidente, movimentos inicialmente motivados por reivindicações específicas podem ser utilizados politicamente por grupos organizados. “Naquela época, uma reivindicação pelo aumento de R$ 0,20 no transporte público serviu de pretexto para que a extrema direita tomasse as ruas. R$ 0,20 não causariam uma revolução em lugar nenhum; contudo, a partir daquele movimento, surgiram grupos como os Black Blocs, gerando depredações em São Paulo”, lembrou.

O petista disse que uma das consequências foi o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a eleição do presidente Michel Temer. “E a partir dali a extrema direita tirou proveito e fez o impeachment da Dilma. E aí vocês conhecem o resultado, elegeu até um presidente da República. Então a minha conversa com a Cláudia é porque eu acho que isso está acontecendo no México agora. E eu, às vezes, acho que tem o dedo de alguém que talvez nem seja mexicano. Então nós precisamos ficar muito atento sobre essas questões”, alertou.

Lula afirmou que acompanha com atenção os acontecimentos em outros países e alertou para a necessidade de vigilância diante de possíveis processos de radicalização política. “Eu estou preocupado com o que está acontecendo no México porque me parece muito parecido com o que aconteceu no Brasil em 2013”, declarou.

Proteção ambiental

À tarde, em evento no Planalto, Lula anunciou medidas voltadas à conservação da biodiversidade, à recuperação dos biomas brasileiros, ao enfrentamento da mudança do clima e à promoção de investimentos para o desenvolvimento sustentável e a transformação ecológica do país.

Segundo ele, nenhum governo assinou em um único dia tantos decretos em prol do meio ambiente. Lula defendeu a preservação ambiental e o compromisso do país perante o restante do mundo. "É preciso os estados, os governos fazerem campanha em prol do meio ambiente para que ninguém queira matar um animal", pregou.

O petista ressaltou, ainda, que o Brasil está se preparando para enfrentar as questões climáticas ocasionadas pelo El Niño, caso o fenômeno atinja o país. "Pela primeira vez, a gente está saindo na frente, na luta para combater as possíveis queimadas que virão, porque a perspectiva é de que o El Niño vai ser muito violento, e de que a gente pode ter mais desastres climáticos", explicou.

Foram anunciados no evento cerca de R$ 2 bilhões que devem ser direcionados para ações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na bacia do Rio Doce. Também está previsto o aporte de R$ 834 milhões do Fundo Clima para projetos de restauração da vegetação nativa.

O representante do Reino Unido assinou contrato doando R$ 270 milhões ao Fundo Amazônia. A Noruega é a maior doadora do fundo, já tendo contribuído com R$ 3 bilhões. O governo também anunciou a doação de R$ 370 milhões ao programa ARPA Comunidades, destinada ao fortalecimento das cadeias da socio bioeconomia junto a comunidades extrativistas.

Publicado originalmente no portal Correio Braziliense

Leia também:

Pix ganha blindagem após ofensiva dos Estados Unidos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Administração do Blog de Altaneira recomenda:
Leia a postagem antes de comentar;
É livre a manifestação do pensamento desde que não abuse ou desvirtuem os objetivos do Blog.