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22 de julho de 2026

O "fantasma de Cristiano" e a "sombra de futuro" dos líderes de oposição por Luiz Carlos Azedo

Está em curso uma operação de "cristianização" do candidato Flávio Bolsonaro (Foto: Pedro França)

O mineiro Cristiano Machado (1893-1953) era advogado e diplomata quando se aventurou na política. Ex-prefeito de Belo Horizonte antes da Revolução de 1930, nas eleições de 1950 seu nome saiu da cartola dos caciques do PSD para enfrentar o candidato da UDN, Eduardo Gomes. Durante a campanha, porém, perdeu o apoio em seu próprio partido e de aliados para a candidatura de Getúlio Vargas. Essa traição recebeu um nome hoje consagrado na política brasileira: "cristianização".

Foi uma espécie de conto da carochinha. Em 15 de maio de 1950, reunidos na casa de Cirilo Júnior (presidente do partido), os caciques do PSD indicaram Cristiano à Presidência. O político mineiro ficou de procurar Getúlio Vargas (PTB) e Ademar de Barros (PSP), oferecendo a vice-presidência na chapa. O general Góis Monteiro transmitiria essa escolha ao presidente Eurico Gaspar Dutra. Vargas não fez objeção.

Entretanto, a ala getulista do PSD do Rio Grande do Sul recusou-se a aceitar a candidatura de Cristiano. Membros do PSP comunicaram que também não apoiariam o nome de Cristiano, já que a candidatura de Vargas seria apoiada por Ademar. Mesmo assim, o nome de Cristiano Machado foi aclamado no dia 9 de junho. A convenção do partido não contou com a presença da maioria dos representantes gaúchos.

Vargas venceu as eleições de 3 de outubro de 1950 com 3.849.040 votos, grande parte de redutos do PSD. Seus caciques promoveram um processo de esvaziamento eleitoral que ficou conhecido no jargão político como "cristianização". Com 1.697.193 votos, Cristiano ficou atrás de Eduardo Gomes, que teve apoio de 2.342.384 de eleitores.

Está em curso uma operação de cristianização do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que até agora se mantém como principal candidato de oposição, graças à força do bolsonarismo nas redes sociais. No mundo político e empresarial, entretanto, Flávio está sendo abandonado; em determinados segmentos evangélicos, também. A tese é de que não será capaz de vencer Lula no segundo turno, e um candidato conservador mais experiente e moderado teria o perfil ideal para derrotá-lo.

Quem pretende vestir esse figurino é o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que também corre risco de "cristianização", mas ganhou novo fôlego. A escolha do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, presidente do PSD, para vice reanimou sua candidatura, que busca o apoio do Centrão. Remanescente das eleições de 1989, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Caiado saiu do governo de Goiás com grande aprovação e sempre teve grande trânsito entre lideranças do agronegócio e da área médica mais conservadora.

Caiado agora disputa o apoio do União Brasil e do Progressistas, de Ciro Nogueira e Arthur Lira, que sempre foram contra a candidatura de Flávio, por achar que não seria páreo para Lula. Com apoio de Kassab, também costeia o alambrado do Progressistas, partido do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, aliado natural de Flávio Bolsonaro, mas que até agora não indicou a vice do candidato do PL.

Egoístas e altruístas

Para o neodarwinista Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio, somos uma "máquina de sobrevivência" de um gene cujo objetivo é a autorreplicação, isto é, a perpetuação da espécie. Ao analisar a reprodução sexuada dos animais, Dawkins buscou uma explicação para a convivência entre o egoísmo dos genes e o altruísmo das espécies. Uma espécie de "cluster" biológico garantiria a sobrevivência e replicação de ambos.

O cuco é uma das espécies mais egoístas: procria, mas não educa os filhos; põe os ovos no ninho de outras aves, aproveitando sua ausência. Quando o danado do cuco nasce, joga os demais ovos para fora do ninho, matando os filhotes legítimos para ser criado no lugar deles. Quando cresce, bate asas e vai embora. A analogia serve para muitos políticos.

Como no beisebol, na política é muito comum o sujeito achar que o bom rapaz terminará por último. O ardil, a dissimulação, a esperteza e a falta de escrúpulos parecem ser a regra do jogo. Mas a política também exige altruísmo, ou seja, a cooperação com os demais integrantes da espécie para não entrar em extinção. É aí que os bons rapazes podem virar o jogo e acabar em primeiro.

E a "sombra de futuro"? O conceito é dos militares ingleses, refere-se à estratégia de sobrevivência dos soldados ingleses, franceses e alemães no final da Primeira Guerra Mundial, quando eles começaram a cooperar tacitamente no front, em alguns casos abertamente. Esperavam os políticos e generais acabarem com a guerra. Como eram jovens, tinham uma expectativa de vida civil muito maior do que a deles. Até que ponto Tarcísio e Michelle Bolsonaro querem que Flávio ganhe as eleições? São potenciais candidatos em 2030. Caiado e Kassab estão se movimentando em busca dessa resposta.

Publicado originalmente no portal Correio Braziliense

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