Hoje,
17 de setembro de 2026, transcorre o primeiro centenário de seu nascimento. Cem
anos nos separam daquele dia, quando, no Sítio Várzea, território do antigo
Quixará, hoje município de Farias Brito, nascia Venceslau Rodrigues da Silva,
filho de Antônio Rodrigues da Silva e Maria Leandro da Silva.
Sua
infância e juventude transcorreram em um Brasil ainda predominantemente rural e
marcado por profundas transformações políticas, econômicas e sociais. Foi desse
chão sertanejo, entre os costumes simples das comunidades interioranas e os
valores próprios de uma geração forjada no trabalho, que emergiu o homem
público que, décadas mais tarde, teria seu nome associado a importantes
acontecimentos da vida política regional.
Aos
18 anos, em 1944, Venceslau serviu ao Exército Brasileiro, alcançando a
graduação de cabo. Era um momento singular da história: o Brasil participava da
Segunda Guerra Mundial e, naquele mesmo ano, os primeiros contingentes da Força
Expedicionária Brasileira seguiram para a Itália. Assim, enquanto o país
mobilizava seus jovens em meio às incertezas do maior conflito bélico do século
XX, o jovem quixaraense ingressava na vida militar, experiência que
contribuiria para a formação de sua disciplina e de seu senso de
responsabilidade.
Ao
final de 1948, retornou ao torrão natal, ao qual se referia afetuosamente como
sua “amada Quixará”. O retorno não significou recolhimento à vida privada.
Sensível às necessidades de sua gente, passou a lecionar voluntariamente para
familiares e amigos, tanto no Sítio Várzea quanto no Sítio Barreiro, atual Nova
Betânia. Antes, portanto, de ocupar tribunas ou cargos públicos, sua atuação
comunitária manifestou-se pela educação, um gesto de particular significado
para a época em que o acesso ao ensino no meio rural era bastante limitado.
Em
24 de outubro de 1949, casou-se com Cirila Rodrigues Maia, filha de Manoel da
Silva Pereira Maia e Francisca Isidora Maia. Dessa união constituiu-se uma
família numerosa, marcada também pelas alegrias e pelas dores próprias da
existência. Foram seus filhos: as gêmeas Fransquinha e Terezinha, falecidas
ainda recém-nascidas; Maria das Graças; Dionízio, falecido aos sete meses de
vida; Edimilson, falecido aos 69 anos; Marlene, falecida com um ano de idade;
Carlos Alberto; Iolanda; Marcos Roberto e Alecxandre.
No
ano seguinte, 1950, sua trajetória ingressaria definitivamente na vida pública.
A convite de Enoch Rodrigues, ligado ao Partido Social Democrático, o antigo
PSD , Venceslau candidatou-se a vereador como representante da região do Sítio
Barreiro, logrando êxito nas urnas. Naquele mesmo ano, em âmbito nacional,
Getúlio Vargas retornava ao centro da política brasileira, sendo eleito
presidente da República. Era um Brasil que procurava conciliar democracia,
industrialização e profundas demandas sociais.
Venceslau,
por sua vez, começava a construir no âmbito municipal uma carreira pautada pela
representação das comunidades rurais e, particularmente, pela defesa dos
interesses do Barreiro.
Posteriormente,
aproximou-se politicamente do grupo liderado pelo Coronel Manoel Pinheiro de
Almeida, o Coronel Né de Almeida, vinculado à União Democrática Nacional,
antiga UDN. Nesse período, participou das articulações políticas que
acompanharam importantes modificações administrativas no município. Pela Lei
Estadual nº 2.194, de 15 de dezembro de 1953, o antigo município de Quixará
passou oficialmente a denominar-se Farias Brito, ao mesmo tempo em que a antiga
povoação de Barreiros foi elevada à categoria de distrito com o nome de Nova
Betânia.
A
transformação administrativa não era meramente nominal. Para os moradores
daquela região, significava reconhecimento institucional, fortalecimento
comunitário e novas perspectivas de desenvolvimento. Nesse processo, Venceslau
consolidava-se como uma das vozes políticas ligadas à comunidade que adotaria
para sempre como uma das grandes causas de sua vida pública.
Em
1958, disputou a Prefeitura Municipal de Farias Brito. Embora não tenha sido
eleito, a derrota eleitoral não interrompeu sua atuação. Como vereador e
liderança política, continuou a defender melhorias para Nova Betânia, estando
sua trajetória associada à implantação do cemitério público do distrito e à
criação da Associação Pró-Melhoramento Rural de Nova Betânia, iniciativas que
traduzem uma concepção de política voltada para necessidades concretas da
população.
Aquele
ano de 1958 também se inscreveu profundamente na história brasileira. O país
vivia o período desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubitschek, marcado
pelo Plano de Metas, pela expansão industrial e pela construção de Brasília. No
Nordeste, entretanto, a grande seca de 1958 expunha novamente as dificuldades
históricas enfrentadas pelas populações sertanejas. Era nesse cenário de
contrastes, entre o projeto nacional de modernização e as necessidades
elementares do interior nordestino que Venceslau exercia sua liderança local.
Ainda
naquele contexto, ao lado do Coronel Né de Almeida e de outras lideranças,
participou das articulações em torno da emancipação de Altaneira, então
vinculada territorialmente a Farias Brito e Assaré. A autonomia municipal foi
estabelecida pela Lei Estadual nº 4.396, de 18 dezembro de 1958.
A
vinculação de Venceslau à história nascente de Altaneira ganharia contornos
ainda mais expressivos. Na primeira eleição municipal, integrou a Câmara de
Vereadores e, segundo a memória familiar que fundamenta esta homenagem,
tornou-se seu primeiro presidente, participando, assim, dos passos iniciais da
organização político-administrativa daquele município. Em 1962, foi reeleito
vereador, reafirmando sua presença na vida pública regional.
Dois
anos depois, em 1964, renunciou ao mandato para assumir o cargo de agente
administrativo na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. A mudança ocorreu
justamente em um dos períodos mais delicados da história republicana
brasileira, quando o golpe de Estado de 1964 depôs o presidente João Goulart e
inaugurou o regime militar que se estenderia pelas duas décadas seguintes.
A
partir de então, uma nova etapa de sua vida profissional seria construída em
Fortaleza.
Em
1967, a convite do deputado Cincinato Furtado Leite, assumiu a função de
Tesoureiro-Geral da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Ali permaneceria
por aproximadamente 21 anos, até 1988, atravessando sucessivas legislaturas e
diferentes presidências da Casa. Ao longo dessa extensa permanência, foi
reconduzido à função por diversos presidentes da Assembleia, circunstância
reveladora da continuidade de sua atuação administrativa naquela instituição.
No
âmbito do funcionalismo legislativo, também participou da criação da Associação
dos Servidores da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, exercendo a função
de primeiro secretário da entidade.
O
ano de 1988, que marcou o encerramento de sua longa trajetória funcional na
Assembleia e sua aposentadoria, foi igualmente um divisor de águas na história
brasileira. Em 5 de outubro, promulgava-se a Constituição da República
Federativa do Brasil, símbolo maior da redemocratização após o período do
regime militar. Assim, a caminhada profissional de Venceslau no Legislativo
cearense atravessou diferentes conjunturas da história política nacional e
alcançou justamente o momento em que o país inaugurava uma nova ordem
constitucional democrática.
A
aposentadoria, entretanto, não apagou sua atenção às necessidades de Nova
Betânia.
No
final de 1992, em articulação com o deputado João Viana, empenhou-se na
obtenção de recursos destinados à comunidade, resultando, segundo os registros
familiares desta homenagem, em benefícios que compreenderam 100 casas
populares, 50 kits sanitários e 250 filtros de barro.
Essa
talvez seja uma das características mais permanentes de sua biografia: mesmo
quando distante geograficamente, Nova Betânia jamais esteve distante de suas
preocupações.
Professor
voluntário, militar, vereador, candidato a prefeito, articulador político,
servidor e tesoureiro do Poder Legislativo estadual, dirigente associativo e
interlocutor das demandas de sua comunidade, Venceslau Rodrigues da Silva
construiu uma trajetória que se confunde, em muitos momentos, com as
transformações administrativas e políticas experimentadas pelo Cariri cearense
ao longo da segunda metade do século XX.
Sua
vida percorreu diferentes espaços, mas conservou um ponto de referência: a
terra natal e, de maneira especial, Nova Betânia.
Venceslau
faleceu no dia 1º de fevereiro de 2020, aos 93 anos. Seu corpo foi sepultado em
Nova Betânia, encerrando simbolicamente a caminhada terrena no lugar ao qual
dedicara grande parte de seus esforços e de sua atuação pública.
Agora,
quando 17 de setembro de 2026, assinala um século de seu nascimento, sua
existência deixa de ser contemplada apenas pelos limites da biografia
individual e passa a ser observada sob a perspectiva mais ampla da memória
histórica.
Marc
Bloch ensinou-nos a compreender a História como a ciência dos homens no tempo.
É precisamente no tempo que se dimensiona o legado de Venceslau Rodrigues da
Silva. O menino nascido na Várzea; o jovem cabo do Exército; o professor
voluntário; o esposo e pai; o representante político das comunidades rurais; o
vereador de Farias Brito e de Altaneira; o servidor do Legislativo cearense; o
líder comunitário e o defensor permanente de Nova Betânia pertencem a
diferentes capítulos de uma mesma existência.
No
centenário de Venceslau Rodrigues da Silva (1926–2026), recordar sua trajetória
significa também preservar capítulos importantes da memória política de
Quixará, Farias Brito, Altaneira e Nova Betânia.
Porque há vidas que pertencem à família; outras alcançam a comunidade. E algumas, pela extensão de seus vínculos e de suas realizações, passam a integrar o patrimônio da memória de um povo.
Venceslau Rodrigues da Silva - 100 anos de nascimento.
17 de setembro de 1926 - 17 de setembro de 2026.
Uma
vida inscrita no tempo. Um nome preservado pela memória.
Publicado originalmente na página Memórias do Quixará

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