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1 de novembro de 2026

A lógica politizada do voto do Nordeste, por Guálter George

Sugerir que Lula obtém 24,4 milhões de votos no Nordeste como "pagamento" por ações assistencialistas é preguiça analítica (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

Precisamos falar sobre o voto do Nordeste - do nordestino, sendo mais claro -, que considero ser, hoje, o "mais politizado" do País quando considerados os estratos regionais. Abstraída a questão ideológica, porque o fato de o escolhido, ou escolhida, ser de direita ou de esquerda parece ter pouca influência numa decisão que se toma em bloco, desde sempre.

A história começa em 2002, quando o Nordeste votou em peso na candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva levado, à época, pelo embalo de uma campanha que já vinha fortalecida dos espaços de poder que se considera realmente decisivos - Brasília e o Sudeste - diante do convencimento aparente da sociedade de que era hora de oferecer uma chance àquele líder sindicalista que insistia em mirar a cadeira presidencial.

Até porque ele finalmente dera alguns passos em direção ao centro político, por exemplo, acertando uma aliança com o PL e tendo como vice o megaempresário mineiro José Alencar.

Portanto, a região apoiou Lula e o PT, num primeiro momento, arrastada por uma onda nacional que o levaria à primeira vitória depois de três tentativas frustradas seguidas. O que vem depois, considerando também este 2026, exige um outro tipo de análise e, conforme acho, resulta de uma capacidade que tem tido o eleitor nordestino de tomar sua decisão, no plano majoritário nacional, a partir de critérios objetivos e uma análise de resultados. Um ato de forte natureza política.

Como tudo que envolve esta parte do País o impulso nacional é de traduzir as boas performances petistas nas disputas presidenciais dos últimos 24 anos, pelo menos, como resultado de uma prática clientelística. Ou seja, uma política de "esmolas" na base do tomá lá dá cá implantada a partir da primeira gestão Lula e mantida em todos os governos desde então, incluindo aqueles não petistas e até o mandato de Jair Bolsonaro, explicaria até hoje a ampla aceitação regional às candidaturas do partido. Será?

Não, não será. As razões são mais profundas e exigem que o interessado fuja de uma postura de preguiça intelectual ao buscar explicações que, de fato, expliquem. Aqui vale, talvez, recuperar uma história que o próprio Lula conta, de vez em quando, e que certamente ajuda a dimensionar a leitura que faz quem mora nesta banda do Brasil sobre a importância do Estado em suas vidas e de como as iniciativas que partem dele, através dos seus agentes, conseguem transformá-las.

Em algum momento do ano de 2003, Lula teve a oportunidade de fazer, na condição de presidente da República, sua primeira visita a Garanhuns, cidade em que nasceu e viveu parte da infância, na zona rural do agreste pernambucano. Não andava ali fazia muitos anos e foi tomado de surpresa ao constatar que a realidade miserável predominante diferia muito pouco daquela que sua memória de criança guardara.

Chamou-lhe atenção, em especial, que um número expressivo de casas seguia sem acesso a energia elétrica simplesmente por falta de interesse das empresas em oferecer o serviço às áreas mais pobres devido à pouca capacidade financeira, em termo de ganhos, que os moradores dali ofereciam.

Aquilo martelou a consciência do presidente o suficiente para fazê-lo cobrar do setor, no âmbito governamental, uma resposta na forma de proposta para resolver, ou pelo menos amenizar, o quadro inaceitável. O resultado é que dali nasceu o programa Luz Para Todos e, desde então, estima-se que mais 3,6 milhões de famílias tiveram acesso à energia elétrica, representando algo como 17 milhões de pessoas beneficiadas. A imensa maioria delas localizada, parece fácil imaginar, no Nordeste.

São números contundentes e transformadores, que não têm como nos impactar como moradores de áreas urbanas, estruturadas, com ofertas plenas de serviços, mas sugiro ao leitor que faça o exercício de compreender o que aquilo representou para a vida de milhões de pessoas alcançadas pela medida.

Pense, na mesma linha, na perspectiva de quem é diretamente agraciado pela chegada das águas do São Francisco via transposição, ou que começa a ver diante dos seus olhos a economia se movimentando através dos trilhos e trens da Transnordestina, enfim, o Nordeste remoto viu-se inserido de maneira produtiva num contexto ao qual era geralmente integrado apenas pela paisagem destoante que oferecia. É disso que estamos falando.

Sugerir, ou até concluir em alguns casos, que, por exemplo, o candidato Lula obtém 24,4 milhões de votos no Nordeste como "pagamento" por ações assistencialistas do tipo Bolsa Família é, como já dito, preguiça analítica.

Afinal, assim fosse, o aumento em 50% do valor do programa correspondente na época - Auxílio Brasil - fazendo-o passar de R$ 400,00 para R$ 600,00 às vésperas da campanha de 2022, teria sido suficiente para eleger Jair Bolsonaro em 2022 e lhe garantir uma ampla folga na região. Não foi o que aconteceu, representando, aplicada em sentido contrário a lógica simplista que se usa para diminuir as suas convicções políticas, que o voto do nordestino não está à venda.

André Fernandes, está provado, sabe perder

É preciso reconhecer que André Fernandes (PL) demonstra, através de atitudes concretas que adota, um comportamento muito decente quando se trata de absorver um resultado ruim em disputa eleitoral. Em meio a vozes de resistência no seu entorno à ideia de reconhecer a vitória do atual presidente da República na emocionante disputa de segundo turno recém concluída, ei-lo vindo a público dizer que não há o que contestar e, inclusive, ressaltar como necessário à oposição aceitar que "sim, muita gente votou no Lula".

O próprio candidato que apoiou, Flávio Bolsonaro, decidiu ignorar o resultado oficializado pela justiça eleitoral e, mais do que isso, deixou o Brasil para vender ao mundo uma fantasiosa versão de que o fez para fugir de perseguições políticas. Pura balela!

O comportamento do parlamentar cearense já tinha sido exemplar, a partir do que determinam as regras de uma boa democracia, quando saiu derrotado da briga pela prefeitura de Fortaleza, em 2024, contra Evandro Leitão, também petista.

Apesar de ter liderado as pesquisas quase todo o tempo, inclusive no segundo turno, e de a diferença em favor do adversário ter sido de apenas 10,8 mil votos, o deputado do PL resignou-se, não abriu uma brecha de dúvida sobre a confiabilidade do processo e saiu grande de um processo que apresentava elementos suficientes para estimular uma ação questionadora. O que acontece agora, como reforço, pode indicar que a prática pode estar melhorando o praticante.

Nova estrela

Rafael Fonteles (PT), governador reeleito do Piauí, que anda em alta depois do papel que teve ao lado do cearense Camilo Santana na campanha de segundo turno que levou à reeleição do presidente Lula, cuida de arrumar sua nova gestão estadual, que começa em janeiro, enquanto seu nome é especulado para o cobiçado ministério da Fazenda.

Já, inclusive, anunciou o primeiro nome, confirmando a permanência de Antonio Luiz Soares à frente da pasta de Segurança Pública, o que representa, em si, uma ideia de prioridade ao tema. Detalhe interessante: trata-se de um auditor fiscal, que antes comandou a Secretaria da Fazenda e que tem mestrado em matemática. Não é um xerife, definitivamente.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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O futuro de Camilo com Lula e o fogo amigo no PT

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