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Luizianne foi sabatinada pela equipe do Jornal O Povo (Foto:
Samuel Setubal) |
A ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins (Rede), candidata ao
Senado, criticou Ciro Gomes (PSDB), candidato ao Governo do Ceará, durante
sabatina realizada pelo O POVO nesta sexta-feira, 18. Segundo ela, Ciro não
teria compreendido as mudanças pelas quais o Estado passou desde o período em
que ele esteve à frente do Palácio da Abolição.
Na
avaliação de Luizianne, Ciro continua fazendo política a partir de uma leitura
do Ceará de décadas atrás, sem considerar as transformações sociais e políticas
ocorridas desde então. "Ciro está trabalhando com a ideia de um Ceará que
ele governou lá atrás. Que não existe mais nem economicamente, nem existe a
população. Acho que é uma coisa ele ainda não entendeu", disse.
A
candidata também associou a estratégia política de Ciro à aproximação com
setores ligados ao bolsonarismo. O tucano montou uma chapa que reúne partidos
como União Brasil e PL, em uma composição de oposição ao governador e candidato
à reeleição Elmano de Freitas (PT).
Relação
com Cid
Luizianne
também falou sobre a relação que manteve com Cid Gomes (PSB), candidato à
reeleição ao Senado na mesma chapa governista. Ela relembrou o período anterior
às eleições municipais de 2012, quando houve o afastamento político entre os
dois.
Segundo
a candidata, a relação com Cid era positiva durante o período em que ela
comandava a Prefeitura de Fortaleza e ele governava o Ceará. Ela apontou dois
episódios que contribuíram para o desgaste entre ambos.
O
primeiro foi a candidatura de Elmano de Freitas (PT) à Prefeitura de Fortaleza,
apoiada por Luizianne para sucedê-la. Na avaliação dela, Ciro teria convencido
Cid e aliados de que o apoio ao petista abriria caminho para uma eventual
candidatura da então prefeita ao Governo do Ceará em 2014.
"Nesse
momento da transição de governo, porque o Ciro dizia, e eu acho que acabou
convencendo o Cid e os seus aliados, de que se ele apoiasse o meu candidato em
2012, que no caso era o Elmano, eu disputaria em 2014 o governo do Estado
contra o candidato dele. Então acabou que essa tese perdurou", explicou.
"E
isso nem tava colocado naquele momento, não, nada de concreto, até porque para
mim aliança política vai até onde ela for aliança, e não dá para ter o fogo
amigo", concluiu.
O
segundo episódio foi a discussão sobre a instalação de um estaleiro em
Fortaleza, defendida por Cid e rejeitada pela então prefeita. "A segunda
coisa foi a história da implantação do estaleiro, que eu era completamente
contrária. Sabia que ia ser um problema pra Fortaleza e não deixei que aquilo
ali fosse pra frente. Aí vem a afirmação 'a cidade tem prefeita'",
relembrou.
Embora
negue que tenha havido um rompimento formal, Luizianne admite que ficou
afastada de Cid até um reencontro casual no aeroporto de Brasília.
Segundo
a candidata, a conversa contribuiu para a retomada da proximidade política e
pessoal com o senador. "A gente agora encontrou esse momento de franqueza,
de parceria, então, assim, a gente se dá muito bem do ponto de vista pessoal.
Eu acho que não tinha um nome melhor hoje para eu estar caminhando nessa chapa
por conta dessas afinidades", completou.
Senado
e STF
Sobre
o papel do Senado diante da crise no Supremo Tribunal Federal (STF), Luizianne
defendeu que a Casa preserve a prerrogativa de analisar pedidos de impeachment
de ministros, mas afirmou que o mecanismo precisa ser utilizado com
responsabilidade.
"É
uma prerrogativa do Senado a questão do impeachment de ministros do Supremo
Tribunal Federal. Acho que deve ser utilizado primeiro quando você tem um
ambiente jurídico técnico para poder isso ser viabilizado. Tem que ser feito
com responsabilidade, você não pode criar uma crise no Judiciário por uma
questão política", disse.
A
candidata também defendeu que o Judiciário esteja submetido a mecanismos de
controle, embora não seja um Poder formado por eleições diretas. "Todos os
poderes públicos têm que ter controle social. Como o Judiciário não é eletivo
dessa forma, acho que também tem que ter. Nada pode estar acima da lei, nem o
próprio Judiciário. A gente sempre lutou por uma reforma".
Ao
abordar o uso do impeachment contra ministros do STF, Luizianne criticou o que
classificou como tentativa de setores da extrema direita de criar
vulnerabilidade no Judiciário. Ela citou os ataques às instituições ocorridos
em 8 de janeiro de 2023 e afirmou que o Supremo teve papel na contenção de
tentativas de ruptura institucional.
"Eu
sou contrária a esse tipo de vulnerabilidade que eles querem estabelecer, mas
sou a favor da prerrogativa de impeachment de qualquer um que não esteja dentro
do que a legislação ou a boa conduta pública necessite", afirmou.
PT,
Rede e candidatura ao Senado
Sobre
a saída do Partido dos Trabalhadores e a migração para a Rede Sustentabilidade,
Luizianne enfatizou que a mudança partidária não foi motivada inicialmente pelo
desejo de disputar o Senado. Ela explicou que o desligamento ocorreu antes de
qualquer definição sobre o cenário eleitoral, quando chegou a avaliar se
continuaria na vida pública.
A
ex-prefeita afirmou que a candidatura ao Senado não surgiu por imposição de uma
cúpula partidária, mas a partir de uma mobilização que, segundo ela, foi
construída "de baixo para cima". Luizianne disse ter recebido 11
manifestos de diferentes setores sociais que solicitavam o lançamento de seu
nome.
O
primeiro foi do Movimento de Mulheres. Em seguida, segundo ela, aderiram à
mobilização representantes da juventude, da população LGBT e de setores
intelectuais. Na área política, a candidata destacou o apoio de lideranças
nacionais para viabilizar sua candidatura.
Segundo
Luizianne, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve papel determinante
ao declarar, em entrevista pública, que "não teria outro nome para se
colocar" na disputa. Ela também citou a atuação do ministro José Guimarães
(PT-CE), a pedido de Lula, como "decisiva para viabilizar a candidatura no
Senado".
Diante
da mobilização popular e partidária, Luizianne afirmou enxergar a candidatura
como uma "vitória do povo do Ceará". A candidata destacou ainda que
nunca exerceu papéis de coadjuvante na política, mesmo quando não ocupava
cargos eletivos.
"Fui
presidente do PT de Fortaleza, fui presidente do PT do Ceará, fui do diretório
nacional do PT 30 anos, fui da executiva nacional. Passei a vida coordenando
uma série de processos. Como é que eu não tenho opinião sobre as coisas?",
questionou.
Apesar
do desligamento formal do PT, Luizianne ressaltou que mantém alinhamento com o
projeto nacional do partido e proximidade com o presidente Lula. Segundo ela,
essa relação contribuiu para viabilizar o apoio do campo de esquerda e de
partidos aliados à candidatura ao Senado.
Chagas
Vieira e suplências
A
candidata também foi questionada sobre a escolha de Chagas Vieira (PDT) como
primeiro suplente. O ex-secretário da Casa Civil integra a chapa de Luizianne,
que tem ainda Rodrigo Oliveira (MDB) como segundo suplente. Rodrigo é filho do
deputado federal Eunício Oliveira (MDB).
Luizianne
afirmou que a composição das suplências foi discutida dentro da necessidade de
acomodar os partidos que integram a base de apoio ao governador Elmano.
"Era
natural que as vagas do Senado, as duas suplências, fossem também para fazer
essa composição partidária. No meu caso, já foi dito claramente que a gente
precisava acomodar os partidos políticos, inclusive das pessoas que tiveram
expectativa de serem candidatas", explicou.
Sobre
Chagas Vieira, escolhido como primeiro suplente, Luizianne destacou a atuação
dele nos governos Cid Gomes, Camilo Santana e Elmano de Freitas. "Penso
que o Chagas tem os méritos dele porque, afinal de contas, tanto no governo
Cid, no governo Camilo e no governo Elmano, ele tem tido um protagonismo muito
importante para a estabilidade do governo", avaliou.
Luizianne
também citou a composição da chapa de Cid Gomes como exemplo de que a
distribuição das suplências foi utilizada para contemplar partidos aliados. Cid
disputa a reeleição ao Senado com Júnior Mano (PSB) e Júlio Ventura como
suplentes.
Pautas
no Senado
Entre
as principais bandeiras que pretende levar para o Senado, Luizianne citou a
chamada "economia do cuidado", tema de projeto que apresentou na
Câmara dos Deputados e que, segundo ela, está parado no Senado. A proposta
busca reconhecer o trabalho de cuidado de crianças, idosos e pessoas com
deficiência ou doenças crônicas, atividade exercida majoritariamente por
mulheres.
"Eu
apresentei o projeto na Câmara que foi aprovado, que é o projeto da economia do
cuidado. Esse trabalho invisível que milhões de pessoas no Brasil fazem, 98%
são mulheres, que são exatamente de cuidar. O cuidado não é só amor, é
trabalho", explicou.
Luizianne
afirmou que, caso eleita, pretende atuar para levar a proposta adiante e criar
um estatuto voltado aos cuidadores e cuidadoras, com reconhecimento de direitos
trabalhistas e previdenciários.
"Esse
projeto parou no Senado. Então vai ser uma tarefa minha como senadora botar
para frente e, já junto com isso, fazer o que a gente está chamando de Estatuto
do Cuidador, da Cuidadora", acrescentou. Outra proposta apresentada pela
candidata foi o chamado "Crédito Lilás", voltado à ampliação do
acesso de mulheres ao crédito para iniciativas de empreendedorismo.
Publicado
originalmente no portal O Povo +
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