19 de abril de 2026

Flávio ameaça Lula, mas até que ponto? por Thays Maria Salles

Pesquisadora aponta que a tendência é os indecisos se posicionem a partir de agora com a maior parte dos candidatos colocados (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

Durante a maior parte de 2025, a hipótese de uma candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República era tratada com ceticismo. Ele foi escolhido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em dezembro. O movimento desagradou o centrão, derrubou a Bolsa de Valores e gerou ceticismo se era para valer. O próprio pré-candidato, diante da repercussão negativa, sinalizou na época que poderia sair da disputa em troca de "um preço".

A atitude foi vista como estratégia de manter o capital político dentro do núcleo bolsonarista e em torno da família do ex-mandário, interditando uma possível aliança com as pré-candidaturas de direita postas naquele momento, como as de Ronaldo Caiado (que estava no União Brasil, mas foi para o PSD), Romeu Zema (Novo), Ratinho Junior (PSD) e Tarcísio de Freitas (Republicanos). A pré-candidatura foi interpretada até mesmo como articulação visando 2030.

Faltaria para Flávio densidade política e capilaridade especialmente para que se tornasse competitivo diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que está no terceiro mandato. Neste ano, o cenário mudou de forma significativa.

Pesquisas recentes mostram empates técnicos do filho 01 de Bolsonaro em simulações de segundo turno,  inclusive com Flávio à frente, como no levantamento do instituto Genial Quaest publicado na quarta-feira, 15.

Com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, Flávio apareceu com 42% das intenções de voto contra Lula, que contabilizou 40%. Indecisos, nesse cenário, somaram 2%.

Segundo Juliana Fratini, doutora em Ciências Sociais com ênfase em Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a força de Flávio está na "sobriedade" mantida durante todo o governo Bolsonaro, mas agora o desenrolar "depende muito" de como o senador vai se portar daqui em diante.

"Para ele o mais conveniente é equilibrar o espólio do pai, porém, mantendo autonomia, se diferenciando em alguns aspectos do genitor e oferecendo propostas atualizadas e contemporâneas para o eleitorado para além do público bolsonarista cativo. Em outras palavras, ele é uma liderança em construção", analisa.

Essa virada que o senador começa a expressar nas pesquisas, no entanto, não se explica apenas por uma suposta força individual. Ela passa por um conjunto de fatores que reposicionam o jogo político no âmbito nacional.

Paula Vieira, colunista do O POVO e doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca que o ponto de partida está nas percepções iniciais, ainda difusas, sobre uma candidatura que nem sequer estava confirmada.

“As percepções que antecedem uma candidatura ou uma pré-candidatura, principalmente no ano anterior às eleições, são mais impressões”, pondera. “O que coloca Flávio como à frente ou disputando com o Lula é o fato de ter um sobrenome e de estar vinculado ao pai. Ele cresce porque Bolsonaro é o nome mais conhecido das pessoas que votam à direita”, resume a professora.

Naquele cenário ainda pulverizado, com múltiplas opções e sem definição clara de postulações, tem-se a diluição do potencial de qualquer adversário do petista. Com o avanço da pré-campanha e uma melhor sinalização dos caminhos, o quadro começa a se reorganizar.

Do outro lado, o desgaste de quem está no terceiro governo aparece como variável importante e dialoga com tendências mais amplas. Além da rejeição a Lula, o antipetismo e mesmo a polarização que o Brasil costuma vivenciar, há uma mudança nas demandas sociais.

Pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídias (Lepem-UFC), Vieira ressalta que há uma inclinação do eleitorado em direção a pautas tradicionalmente associadas à direita, como segurança pública e combate à corrupção. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de dificuldades econômicas no cotidiano, ainda que indicadores macroeconômicos não apontem crise.

"Todos esses elementos entram para explicar esse crescimento do Flávio Bolsonaro, mas a gente também tem que colocar outros, como a mudança de demandas ou de como a população está olhando para os seus representantes; os desejos que se apresentam e o que se espera desses representantes. Se as maiores preocupações são com pautas que normalmente são mobilizadas pela direita, então vai ser um movimento natural que esses candidatos acabem chegando mais perto da população".

Flávio não é o único a ameaçar Lula

Apesar do destaque a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ele não está isolado nessa ascensão nas pesquisas eleitorais.

Levantamento do Real Time Big Data, em 3 de março, por exemplo, apontou o presidente Lula (PT) empatado em cenários de segundo turno tanto com senador quanto com Ratinho Júnior (PSD), que desistiu da corrida presidencial dias depois.

Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, os números foram, respectivamente, de 42% a 41% e 43% a 39%.

Já em 11 de abril, pesquisa Datafolha indicou empate técnico entre Lula e Flávio em eventual segundo turno (46% a 45% para Lula), além de cenários semelhantes contra Ronaldo Caiado e Romeu Zema (em ambos os casos, Lula aparece com 45%, contra 42% dos adversários).

Para Juliana Fratini, doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP, dificilmente nomes como Caiado e Zema superariam Lula no primeiro turno e avançariam ao segundo, já que dependem de alianças com o bolsonarismo num momento em que Flávio já encarna esse campo político, apresentando-se como "o próprio cabeça" dessa corrente.

"E Flávio tem legitimidade consanguínea e estrutural partidária para ser. É mais fácil que Caiado e Zema se transformem em aliados 'naturais', contudo, muitos nomes podem, eventualmente, cair a partir da delação de Daniel Vorcaro. Não sabemos quais figuras públicas estão implicadas diretamente no caso do Banco Master e isso pode ter um peso grande durante as eleições", avalia a cientista.

Essa será, conforme Fratini, uma das eleições mais desafiadoras dos últimos anos, pois as grandes lideranças, independentemente do espectro e partido, estão "vulneráveis a escândalos", como CPIs, CPMIs e delações.

"Em geral, cada espectro político possui, aproximadamente, 30% de eleitores cativos. Os demais precisam ser conquistados; vai depender de contexto, histórico pessoal do candidato e, essencialmente, das narrativas construídas pelas equipes de campanha", sublinha.

Dentro desse contexto, a pesquisadora Paula Vieira, do Lepem-UFC, ressalta que, em sistemas democráticos, o centro concentra maior volume. Conforme explica, a Ciência Política vem trabalhando dados que mostram que há tendência de uma virada à direita da população.

"Começa assim: a maior parte dos eleitores indecisos se situa ao centro. Esse centro é móvel, porque às vezes ele vai um pouquinho mais pra esquerda, um pouquinho mais pra direita, a depender do candidato ou dos ânimos dos eleitores. Nesse momento o Brasil virou à direita, como diria o cientista político Jairo Nicolau. Ou seja, a população brasileira tem votado em candidatos à direita".

A ascensão de Flávio, dessa maneira, não representa apenas o fortalecimento de um nome específico, mas a reorganização de forças em um cenário marcado por desgaste, polarização e disputa por eleitores indecisos. É nesse terreno que um candidato antes subestimado passa a ser tratado como ameaça.

“Os percentuais de apoio Lula-Bolsonaro só vão se modificar a partir do posicionamento desse centro”, resume Vieira.

O papel dos indecisos e os tetos dos candidatos

O desenho ilustrado pelas pesquisas aponta para uma eleição aberta, na qual diferentes candidaturas podem chegar competitivas à fase decisiva. Mesmo liderando entre as alternativas da direita, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divide espaço com outros nomes, o que limita esse crescimento e reforça a importância de alianças.

A tendência é de que os indecisos se posicionem a partir de agora com a maior parte dos candidatos colocados. Isso é aponta a pesquisadora Paula Vieira, do Lepem-UFC.

"Tendo a achar que Lula está no teto do percentual dele até agora e o que a gente vai ver de movimento são os percentuais dos outros candidatos mais à direita e até de candidatos à esquerda também, que já vem se colocando, mas muito pontualmente, sem uma competitividade real. E aí, como o Flávio Bolsonaro deve ter chegado no teto dele também, agora a gente vai ver o outro posicionamento, que são dos indecisos".

Ao observar as tendências, tanto Lula como Jair Bolsonaro (PL) e consequentemente Flávio ficam bem num público que já é fiel, mas ainda precisam disputar o grupo de eleitores que ainda não decidiu em quem votar.

"Esses indecisos migraram e deram uma pequena diferença culminando na vitória do Lula nas eleições de 2022. Então, a gente acompanha esse movimento das pesquisas para ver para onde é que esse centro, que também são os indecisos ou que podem ser os indecisos, vai se movimentar", elucida Vieira.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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