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| Crianças brincam no vertedouro do Açude Orós (Foto: Fábio Lima) |
O "grande guerreiro do Jaguaribe" verteu mais uma vez. Pelo segundo ano seguido, o açude Orós ultrapassou sua capacidade máxima e transbordou para a alegria de milhares de moradores da Cidade de mesmo nome.
A sangria aconteceu por volta das 8 horas da manhã de quarta-feira, 15, quando os "olhos" de câmeras instaladas pela Prefeitura já transmitiam em tempo real a cheia do reservatório.
A movimentação permaneceu tranquila até o início da tarde, quando O POVO chegou à barragem. Com a notícia se espalhando, o segundo maior açude do Ceará recebeu mais e mais curiosos, que foram admirar o espetáculo das águas.
Manoel Bonfim, 54, nasceu em Icó e por muitos anos acompanhou as cheias do Guerreiro presencialmente. Esse ano, mesmo morando em Fortaleza, distante 303 quilômetros de Orós, não pensou duas vezes antes de encarar cinco horas de viagem para acompanhar.
"Cheguei hoje era meio-dia. Estava acompanhando pelas redes sociais. Já vim ano passado e se pudesse eu vinha todo dia. Um açude desse sangrar é muita abundância, muita fartura, muita coisa envolvida", conta o eletricista.
Se quem vem de longe não perdeu a sangria, ai de quem more em Orós e não vá assistir um dos grandes eventos da cidade. Às 16h30min, a calmaria deu lugar a uma entrada lotada de carros, motos, bicicletas e outros meios de transporte.
Houve quem quisesse ver de longe, no mirante Juscelino Kubitschek, apreciando o cartão postal por completo, mas não faltou quem optou por sentí-lo no chão, colocando os pés na água que vertia sobre a barragem.
Quem já viu o açude de tudo que é jeito e ângulo é seu Adão Viana, 71. Nascido e criado no município, viu o Orós ser construído, romper e reconstruído. Hoje já aposentado, lembra as aventuras que viveu ainda jovem com o açude, onde portando apenas uma rede, pescava os peixes que saltavam pelos metros de sangria.
"Antigamente, sangrava direto. Todo ano, todo ano, todo ano. Agora estava com 20 anos que começou isso de ficar dez anos sem sangrar, oito anos sem sangrar... Teve tempo aqui de pegar 16 metros seco. Hoje é uma riqueza para nós aqui. Vem gente de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Juazeiro... enche de gente", afirma.
Os visitantes que chegam são muitos. De acordo com a Secretaria de Turismo de Orós, a expectativa é de que 5 mil pessoas visitem só durante o feriadão de Tiradentes, entre esta sexta-feira, 17 e a próxima terça, 21.
No comércio, essas pessoas fazem a diferença. Maria Alice é vendedora ambulante na cidade e em toda sangria vai ao açude ver e vender água.
"Aumenta as minhas vendas e de vários ambulantes. A gente só vem no meio das férias e quando ele [açude] sangra. Quando aumenta o movimento a gente vem. Na época do inverno também vem muita gente visitar o açude tomando água. Enche o açude e o bolso", pontua a oroense.
No fim, muito do que fica do açude é memória. Quem visita diz que o pôr do sol fica mais bonito com os pés dentro d'água.
É essa lembrança que motiva várias famílias a estarem no local. Durante as horas em que esteve na barragem, O POVO presenciou dezenas de pais, mães, avós, tios... todos mostrando a sangria para as crianças.
O objetivo era mostrar a importância do momento, rico pela beleza do véu de noiva, por atrair turistas, fomentar a economia e a agricultura, mas também porque o tempo e as duras secas já mostraram que a experiência pode levar anos para ser vivida de novo.
"Trouxe minha filha e a filha da minha vizinha. Eu vim ver o açude sangrando depois de adulta. Como eu não tive essa experiência, resolvi trazer minha filha para ela ver como é legal. Depois de grande foi que eu vim ter esse contato. É sensacional, maravilhoso. A gente sempre ouvia falar, mas no caso dela, já vai ficar guardado na memória que passou por isso", diz Marília de Lima, 39, nascida e criada em Orós.
Sangria
do açude terá acompanhamento de órgãos de segurança e manutenções preventivas
O Orós terá reforço de equipes do Departamento Municipal de Trânsito (Demutran) e da Guarda Municipal de Orós durante toda a sangria. Os órgãos atuarão no calçadão de acesso ao açude, orientando quem chega em veículos e garantindo a segurança dos visitantes.
Lá embaixo, no sangradouro, serão alocados quatro bombeiros civis para acompanhar as pessoas que desejarem se banhar próximo à margem do Grande Guerreiro. Também haverão equipes de bombeiros nas outras margens do reservatório.
O
local também passará por duas reformas nos próximos dias, uma abaixo da
comporta próxima ao sangradouro e outra na válvula de escape da água, conhecida
como "véu de noiva".
A primeira delas é a pintura e revestimento de uma galeria, e ocorre dentro de uma série de reformas que estão sendo feitas pelo Dnocs desde o aniversário de 60 anos do açude. A expectativa é de que a manutenção dure em torno de 10 dias.
"Essa galeria é cheia de ferro, onde passa água por debaixo da serra e sai lá na válvula. Estão sendo renovados os ferros e todos pintados. A escadaria também está toda nova, toda renovada. A válvula dispersora também é nova. Foi tirada a velha que tinha 60 anos", detalha a prefeita da cidade, Teresa Cristina (PSB).
Aliado a essa obra, haverá também uma manutenção também dentro da válvula dispersora, que gera o véu de noiva. De acordo com a Cogerh, o serviço deve começar nesta quinta-feira, 16, e deve seguir até o dia 25 de abril.
"A partir de amanhã a comporta passa a ser fechada porque precisa o mergulhador entrar, fazer os reparos necessários, implementar uma peça nova e com a válvula aberta existia um risco de segurança para ele", explica o gerente regional da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh) em Iguatu, Wellington Ferreira.
Para os próximos dias, a expectativa é de que a sangria do açude aumente por três motivos: o fechamento da válvula que deve manter mais água no Orós, as chuvas que têm atingido a região e por fim, a sangria do açude Muquém, no município de Cariús, que deve levar água para o Orós.
"O Muquém está passando com quase meio metro. Ele fica há 90-100 km do Orós. De manhã, o Orós já deve aumentar alguns centímetros com essas chuvas que têm acontecido e a água Muquém, que deve vir pelo rio Cariús", conclui Ferreira.
Publicado
originalmente no portal O Povo +
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