2 de julho de 2026

Nordeste é de esquerda e Sul é de direita? Há poucas décadas, era bem diferente, por Ludmyla Barros

Mapa das apurações de 2010 a 2022 (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

“Já já entram os votos do Nordeste”, virou uma expressão comum no vocabulário brasileiro, sinônimo de expectativa de mudança iminente, às vezes improvável, desejada ou indesejada. A máxima foi repetida no segundo turno da eleição presidencial de 2022, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL) liderou contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) até 72% das urnas apuradas. Mas chegaram os votos do Nordeste e Lula venceu.

Em 2014, no segundo turno entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), por causa da diferença de fusos horários, no momento em que os dados da apuração começaram a ser oficialmente divulgados, a petista, na época presidente da República, já aparecia na frente. Mas, no começo da apuração, o tucano chegou a ter 67% dos votos. Ela só passou à frente quando o percentual de urnas apuradas chegou a 88,9%, às 19h32min. Novamente, os votos do Nordeste foram decisivos para o PT.

A associação do voto nordestino a Lula e a esquerda remonta a 20 anos atrás, em 2006. Nas cinco eleições de lá para cá, candidatos petistas venceram em todos os estados da região no segundo turno. No primeiro turno, só não foram os mais votados frente a fenômenos locais. Em 2014, Marina Silva teve a maior votação em Pernambuco, após substituir como candidata o ex-governador Eduardo Campos, morto em acidente aéreo durante a campanha. Em 2018, Ciro Gomes foi o mais votado no Ceará, estado do qual já foi governador.

Em 2002, a hegemonia de Lula já ocorria na região, mas também foi vista em quase todo o Brasil. No primeiro, só não foi o mais votado no Ceará, onde Ciro se destacou; no Rio de Janeiro, onde a liderança foi do ex-governador Anthony Garotinho, e em Alagoas, que deu liderança a José Serra (PSDB). Foi, aliás, Alagoas o único estado do Brasil no qual Lula não ficou na frente no primeiro turno da primeira eleição presidencial na qual foi vitorioso. No primeiro turno, foi mais votado em todos os estados do Sul, do Centro-Oeste e do Norte.

Lula concorreu em três eleições presidenciais antes de ser eleito. Nas três, perdeu em todos os estados da região onde nasceu. O Nordeste votou em peso em Fernando Collor no pleito de 1989 e em Fernando Henrique Cardoso em 1994. Nas eleições de 1998, decididas no primeiro turno, FHC perdeu apenas no Ceará, onde a maioria da população apoiou Ciro Gomes.

A primeira vez que Lula venceu em estados nordestinos foi em 2002, quando foi eleito presidente pela primeira vez. Não foi unânime. O Ceará mais uma vez quebrou a hegemonia com o apoio a Ciro, enquanto Alagoas preferiu José Serra, candidato do PSDB e principal adversário de Lula.

As eleições de 2006 marcaram uma virada do eleitor brasileiro. Diversos estados nordestinos renovaram ciclos há 20 anos, conforme o professor Marcos Paulo Campos. Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, derrotou o então governador de Pernambuco, Mendonça Filho (PFL), e Cid Gomes, com o professor Pinheiro (PT) de vice, derrotou Lúcio Alcântara (PSDB). “Desde então, há uma tendência de voto lulista na região”, afirmou.

Eleitor do Nordeste foi do conservadorismo ao voto em Lula

Até a virada de 2006, o eleitor nordestino era visto como conservador e a região, um foco de sobrevivência de oligarquias da ditadura, segundo Marcos Paulo Campos, vice-coordenador do Observatório da Política no Nordeste.

Longe de ser algo exclusivo do Nordeste, o período militar fortaleceu grupos tradicionais em todo o Brasil. A Arena, partido da ditadura, mantinha 90% das prefeituras em 1972, uma maioria que se manteve até o fim do regime.

Com o fim do bipartidarismo, a Arena se desfez e deu origem ao Partido Democrático Social (PDS) que, por sua vez, perdeu líderes para o Partido da Frente Liberal (PFL). Nas eleições de 1990, governadores do PFL venceram em Pernambuco, Sergipe, Piauí, Maranhão e Bahia.

Havia um pragmatismo que levava ao voto em políticos alinhados ao Governo Federal e/ou que formavam maioria no Congresso Nacional. Ao longo da década, figuras conservadoras nordestinas se destacaram, como o pernambucano Marco Maciel (PFL), vice-presidente na chapa de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

"O Nordeste era majoritariamente eleitor de partidos mais do campo, da centro-direita", resume Monalisa Torres, pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem-UFC).

Apesar da ideia geral, cada estado trazia dinâmicas próprias. O Ceará participou, nos anos 1990, do chamado avanço neoliberal brasileiro, com 15 anos do PSDB de Tasso Jereissati, Ciro Gomes e Lúcio Alcântara.

Em Pernambuco, o cacique Miguel Arraes (PSB) retornou ao Governo em aliança com o PT, em 1994. Porém, foi derrotado na tentativa de reeleição para o antigo aliado, Jarbas Vasconcelos (PMDB), com suporte do governo FHC.

A votação massiva de Lula, no pleito de 2002, consistiu em uma virada nacional. A chamada "onda vermelha" do petista uniu desgaste ao PSDB, apelo popular e vontade de mudanças. Foi a maior votação de um candidato na história democrática brasileira até então – 53 milhões de votos.

O Nordeste, no meio desta onda, era apenas mais uma região que apoiou Lula. A fama de "reduto petista" começou nas eleições seguintes. Desde então, avermelhou-se.

Os redutos do antipetismo

Se o Nordeste é tratado como reduto da esquerda e do PT, outras partes do Brasil têm tendência de voto que se repete, contra o partido.

Estados mais antipetistas

Berço do PT, o Estado de São Paulo deu maioria para o PT em eleição presidencial apenas em 2002. Em tendência vista em quase todos os estados brasileiros naquela eleição.

O mesmo ocorreu em Roraima, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. Com exceção dos dois turnos de 2002, eles nunca deram maioria ao PT em eleições presidenciais. Em Rondônia, a candidatura petista para presidente foi a mais votada apenas nos dois turnos de 2002 e no segundo turno de 2006.

Outros estados eram eleitores do PT, mas alinharam-se à oposição, como o Rio de Janeiro e Distrito Federal.

Guinada de Santa Catarina

Santa Catarina é caso interessante. Bolsonaro teve 69% dos votos no 2º turno de 2022. Em 2018, chegou a 75,9%. Porém, em 1989, deu maioria a Leonel Brizola.

Em 1994, dos estados nos quais Fernando Henrique venceu, foi aquele onde ele teve menor vantagem: 33% contra 26% de Lula — o petista foi o mais votado no Rio Grande do Sul e no Distrito Federal. Muito em função da presença de Espiridião Amin como candidato ao Palácio do Planalto, com 21%.

Em 1998, Fernando Henrique teve 49% contra 36% de Lula. O tucano, por pouco, não teria vencido no primeiro turno — o que ocorreu no Brasil todo, onde ele teve 53%. Em 2002, com 56%, Lula teria vencido no primeiro turno se dependesse dos catarinenses. A partir de 2006, o Estado abraçou o antipetismo.

Nuances da região Sul

Como região, o Sul tem sido hegemonicamente conservador. Em 2006, os três estados votaram contra o PT nos dois turnos. Em 2010 e 2014, Paraná e Santa Catarina votaram no PSDB, enquanto o Rio Grande do Sul deu vantagem a Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno em ambas as votações. No segundo turno, os três estados aderiram à oposição tucana.

Em 2018, apenas os estados do Nordeste e o Pará, e Tocantins no segundo turno, não apoiaram majoritariamente Jair Bolsonaro (PL).

Em 2022, como havia ocorrido em 2006 e 2018, os três estados do Sul deram maioria no primeiro e no segundo turno ao adversário do PT — Bolsonaro naquela ocasião.

Polarização

A polarização entre Lula e Bolsonaro intensificou a tendência de cristalizar estados como redutos de determinadas forças. As escolhas dos estados nas eleições de 2018 são quase idênticas às de 2022, o que fortaleceu o novo alinhamento ideológico brasileiro, segundo Vanuccio Pimentel, doutor em Ciências Políticas e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

"Ainda que a pessoa não se defina como de esquerda, nem a outra como direita ou que elas saibam o que é isso, elas têm um voto específico e o seguem", completou.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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