29 de julho de 2026

Sobre as coisas inexistentes na convenção do PL, por Regina Ribeiro

Cenas da Convenção Nacional do PL (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

Quando o mundo era regido por outras coordenadas (mentais), a 31ª Bienal de SP escolheu como temática "Como (…) coisas que não existem". Nas reticências os artistas poderiam preencher com obras que dialogassem com a ideia de um mundo em transformação, que está criando coisas novas a cada instante mesmo que ainda não saiba o que fazer com elas, tampouco com as velhas engrenagens que nos servem de referências.

"Open Phone Booth" foi uma das obras expostas. Nela, a artista turca Nilbar Güres reuniu uma coletânea de fotos da cidade de Bingöl, Curdistão turco. Pertencente a uma família de minoria curda, Nilbar captou os moradores da região, discriminados pelas políticas públicas locais, e transformou em arte as imagens de pessoas que procuravam os locais mais altos de Bingöl para conseguir usar o telefone celular. A bela paisagem preenche o absurdo da existência espremida por restrições políticas. Para o crítico Santiago García Navarro, o trabalho de Nilbar se localiza entre "o testemunho do documento e a aparência da encenação".

Lembrei dessa obra  enquanto acompanhava a convenção do PL, no último sábado, que sagrou Flávio Bolsonaro como candidato ao Planalto. Embora saiba que uma convenção é um teatro, trata-se de uma encenação política que resvala para o mundo real. Observando o apurado jornalístico do evento, percebi o quanto de inexistências pairavam sobre o acontecimento. O primeiro deles foi a presença de Jair Bolsonaro. Surgiu como IA, não se pode nem falar em espectro. Aliás, notei que o discurso do JB/IA estava mais aprumado do que o que seria proferido pela pessoa presa por tentar dar um golpe de Estado. A situação é tão nova que estão discutindo onde o Jair fabricado por um prompt cabe nas determinações da sua sentença.

A segunda inexistência é a paz selada, por vídeo, entre os Bolsonaros - Flávio e a madrasta, Michelle Bolsonaro. Alguém acredita que Michelle encontrou, enfim, "a verdade" nas desculpas do enteado? Será mesmo que Michelle crê que o Brasil é tão inocente a ponto de se convencer que toda a animosidade entre eles se evaporou de entre quinta-feira e sábado apenas alterando a cor da blusa em um vídeo? Será que ela acha que "a gente não sabe de nada" e nos trata como se fôssemos "idiotas"?

Por fim, ficou muito transparente a inexistência do próprio candidato. O que se viu, pelo menos para mim, foi uma família candidata com um claro projeto pessoal, que visa salvar o patriarca e a si mesma politicamente. Família que usa os mecanismos democráticos para pôr em dúvida esses mesmos instrumentos. Família que ignora ritos democráticos minimamente civilizados. Mas aí está a arte para nos ensinar que o inexistente pode interferir de forma preponderante na nossa realidade.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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