29 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro divulga carta com tom golpista após derrota e fuga do Brasil

O candidato derrotado Flávio Bolsonaro chegou acompanhado da família, mesmo após uma ordem do STF que o proibia de deixar o país (Foto: Hugo Barreto)

Após uma série de reviravoltas e informações falsas sobre o seu paradeiro — divulgadas por aliados —, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência, chegou nessa quarta-feira aos Estados Unidos. Horas depois, na Flórida, divulgou uma carta de teor golpista se declarando "presidente eleito do Brasil". Em seguida, apagou o texto e se proclamou "líder do Brasil".

Na primeira versão da carta golpista, Flávio escreveu: "Sou o presidente eleito, e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação".

Ele disse que, nos próximos dias, vai se dirigir regularmente ao povo brasileiro e apresentar uma estratégia para mobilizar a oposição e o apelo popular "por todos os meios pacíficos e legítimos para impedir que Lula se consolide um regime ditatorial no Brasil". Também se dirigiu às instituições brasileiras e fez um apelo para que "essa sandice" acabe. Segundo o candidato derrotado, o Brasil vive em um cenário de "caos jurídico", corrupção e perseguição política. O documento estava grafado com o brasão da República Velha, com nome de Estados Unidos do Brasil, que deixou de ser usado em 1967.

Pouco depois, o candidato vencido nas urnas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou a autodeclaração, de "presidente eleito do Brasil" para "líder do Brasil". No entanto, no novo texto, continua alegando fraude nas eleições, sem apresentar provas.

Flávio chegou aos EUA a bordo de um jato Gulfstream G400, da Baires Fly, empresa de táxi aéreo, que partiu da Argentina, fez escala no Equador e pousou em Miami. O parlamentar viajou acompanhado da família, mesmo após uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) que o proibia de deixar o país.

Ao contrário do que divulgaram aliados brasileiros do candidato derrotado, ele não deixou a Argentina na tarde de terça-feira, mas, sim, no fim da noite do mesmo dia, com transmissão ao vivo por veículos de imprensa do país vizinho.

Enquanto a imprensa brasileira, autoridades do país e aliados do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, divulgaram, ao longo do dia, que Flávio já estava em solo americano, a jornalistas argentinos insistiam que o senador não tinha partido do país. De fato, ele chegou ao Aeroporto Internacional de Iguazu próximo das 23h, quando decolou rumo ao Equador.

A Polícia Federal apura como ele se deslocou de Brasília até a fronteira com o território argentino. A avaliação é de que de carro não haveria tempo suficiente para realizar o trajeto. Uma das hipóteses é de que ele tenha usado um avião do advogado Willer Tomaz que se deslocou da capital federal para a divisa com o país vizinho.

Flávio é alvo de duas investigações que correm no Supremo. Uma delas apura a suspeita de lavagem de dinheiro com Willer Tomaz envolvendo apostas esportivas on-line, as chamadas bets.

O outro inquérito investiga o financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Em áudio, Flávio aparece pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para, supostamente, bancar a cinebiografia.

Defesa das urnas

Depois que Flávio investiu contra a lisura do pleito, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, divulgou nota na qual enfatizou que o processo ocorreu com segurança e dentro da normalidade. O magistrado, no entanto, deu uma alfinetada no ministro Cristiano Zanin, do STF, que estendeu o horário de votação em todo o país, no domingo — a decisão atendeu a pedidos de partidos, em razão da falta de ônibus em Salvador e das chuvas em alguns estados.

"No último domingo, foram realizadas as eleições mais inclusivas da história da República brasileira. Mesmo diante da instabilidade na reta final de votação, graças às medidas adotadas e à competência dos técnicos do Tribunal, foi possível avançar com a apuração e entregar um pleito com segurança", frisou.

Nunes Marques ressaltou que o pleito foi realizado com normalidade e segurança e que eventuais recursos serão analisados. Informou que todos os questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão avaliados e respondidos.

"Com empenho de servidores públicos de todo o país, dos mesários, das forças de segurança e dos demais atores envolvidos, as Eleições 2026 transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais", acrescentou o ministro, nomeado à Corte pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

O coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), disse não haver provas de fraude nas eleições. "O PL não pode fazer essa afirmação, nem eu posso fazer essa afirmação, porque não há prova nesse sentido", destacou a jornalistas. Na segunda-feira, o partido já tinha reconhecido a vitória de Lula.

Outras legendas se manifestaram após a carta golpista de Flávio. Em nota, à noite, MDB e PSDB reprovaram a atitude do senador. "É incompreensível o comportamento do candidato derrotado à Presidência da República. O exercício da oposição numa democracia é tão relevante quanto o exercício dos próprios governos. E ele deve se dar em território nacional, fiscalizando os atos do governo e cobrando os compromissos por ele assumidos com a população. (...) Tudo isso tem que ser feito dentro das regras da democracia, com respeito às instituições e ao processo eleitoral", declarou o PSDB.

Confira a íntegra da carta com tom golpista de Flávio Bolsonaro

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro líder do Brasil.

Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.

Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema. Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.

A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.

Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.

Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do impeachment. Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.

Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.

Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.

Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país para enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.

Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o líder e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação.

Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim. Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.

À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal.

Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.

E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peça a cada um que permaneça firme e jamais desista.

Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar.

Que Deus abençoe o Brasil.

Flávio Bolsonaro”

Publicado originalmente no portal Correio Braziliense

Leia também:

Trump sobre Flávio se autodeclarar presidente do Brasil: "Não vou me envolver"

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Administração do Blog de Altaneira recomenda:
Leia a postagem antes de comentar;
É livre a manifestação do pensamento desde que não abuse ou desvirtuem os objetivos do Blog.