27 de março de 2026

O peso de Camilo para Elmano, por Henrique Araújo

A declaração do presidente Lula sobre possível candidatura de Camilo causou desconforto político (Foto: Ricardo Stuckert)

Embora a intenção fosse outra, Lula criou um embaraço para o governador Elmano de Freitas (PT) ao dizer que, "se precisar, Camilo é candidato". Admitir a possibilidade de que o ainda ministro da Educação concorra ao Governo do Estado no lugar do atual mandatário é tudo que os aliados não poderiam ouvir a esta altura, com pesquisas sucessivas mostrando o chefe do Abolição às voltas com dificuldades para arrancar na peleja.

Mesmo descartando que Camilo é concorrente - para logo depois abrir uma brecha -, o que fica para o eleitorado cearense é justamente esse cenário no qual o ex-governador petista poderia tentar um terceiro mandato. Pior, contraria o titular do MEC, que vem relatando a quem lhe pergunte que não é postulante.

Mas se Lula reconhece que, caso seja necessário, Camilo irá para a briga pelo Executivo, em quem se deve acreditar: no presidente, que pleiteia a reeleição num quadro de dificuldades crescentes, ou no auxiliar, cujo capital ajudaria no projeto de recondução de Lula? Para Elmano, então, a declaração de que o chefe da pasta "vai se afastar" do cargo e "ficar de olho" (em quê?), "na expectativa" (de quê?), isto é, observando se de fato o governismo terá de fazer alterações na composição da chapa, tem um efeito sobretudo negativo - porque eleva a pressão pela troca de "jogador" e fortalece as teses da oposição.

O cenário

A avaliação de Lula leva a pensar também em que circunstâncias seria realmente preciso haver alteração na chapa que vai concorrer ao Governo do Estado. Por exemplo, quando o petista afirma que Camilo seria candidato em certas condições, que condições seriam essas?

O que o presidente considera como um contexto no qual as forças governistas locais se veriam obrigadas a fazer uma mudança tão drástica quanto a troca de nome para a eleição, isso após inúmeras negativas de que fariam exatamente o que estariam fazendo?

Parece razoável supor que Lula esteja falando de desempenho eleitoral. De pesquisas que mostram intenção de voto, certamente, e do que o humor do eleitorado sugere. A rigor, não há muitos outros meios de aferir se há ou não necessidade de deslocamento de titulares na chapa.

Logo, quando Lula se refere às "expectativas", só se pode concluir que ele espera ver uma reversão de Elmano num período mais curto de tempo.

Veto a Camilo

A preço de hoje, contudo, o fato é que Camilo sequer poderia se candidatar ao Abolição sem colocar em risco a própria chapa, ou seja, o arco de aliados que a sustenta hoje. Se o ministro realmente aceitasse a missão de tentar o Governo, a primeira baixa seria a do senador Cid Gomes (PSB), para quem os termos do acordo na base preveem a candidatura de Elmano, e não do ex-governador.

Ignorar os sinais mais recentes do pessebista, portanto, seria uma temeridade, especialmente numa eleição com uma tal configuração: o irmão mais velho de Cid, Ciro Gomes, escalado como um dos competidores.

Para Camilo e seu bloco, esse movimento seria profundamente arriscado, seja porque essa dança das cadeiras seria injustificada, seja porque uma volta de Camilo ao Ceará alteraria as regras para divisão dos espaços de poder - o que PSB e PSD não querem.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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