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| Lula exalta Geraldo Alckmin após vitória (Foto: Brian Snyder) |
A eleição de 2026 terminou. E a autocrítica da imprensa brasileira, quando vai começar? Para que não voltemos a confundir neutralidade com indiferença, equilíbrio com falsa equivalência.
Como foi possível banalizar o fato de que Lula enfrentava nas urnas o filho do homem condenado por uma tentativa de golpe de Estado que planejava, dentre outras coisas, assassiná-lo? Esta circunstância não era um detalhe biográfico banal. Era informação central para avaliar o risco político da disputa. Perdoar os golpistas e integrá-los ao governo, foi proposta que Flávio alardeou.
Também faltou rigor quando Flávio, investigado em três inquéritos no STF, por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, era tratado como alternativa legítima de alternância de poder; enquanto Veja e CNN amplificavam acusações de Daniel Vorcaro e Roberta Luchsinger contra Lula sem a indispensável verificação, e o Estadão se preocupava em dizer que não permitiria que Lula reescrevesse a história, requentando acusações sem prova, e de um processo anulado.
Entre setembro e outubro, os editoriais voltaram a apresentar Lula e Flávio como uma "escolha difícil". Difícil para quem? De um lado, havia uma candidatura do campo democrático; de outro, um projeto que ameaçava instituições, relativizava a soberania, prometia mudanças na Constituição, ampliação do mandato presidencial, interferências no Supremo, no Ministério Público e na Polícia Federal. A simetria editorial apagou diferenças decisivas.
A imprensa também ofereceu palco ao "tesouraço", ao ajuste, e ao rigor fiscal de Flávio, como se fossem propostas técnicas, como se não guardassem relação com a ação lesa pátria de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nos EUA. Como se a tesoura de Flávio não tivesse sido amolada na Casa Branca, em perfeito alinhamento à agenda de Washington. Não nos era dado o direito de ignorar o risco de subordinação dos interesses brasileiros à estratégia norte-americana para o continente. Não depois do que fizeram na Venezuela.
E quando a Bolsa caiu e o dólar subiu diante da vitória de Lula, quantas manchetes trataram a reação como pressão especulativa contra a escolha soberana do povo brasileiro? Preferiu-se, no mais das vezes, traduzir o "humor" dos investidores como cobrança legítima por "responsabilidade". Como se especuladores não tivessem apostado contra os interesses do país, e perdido.
Agora,
depois da fuga de Flávio para os EUA, ficou fácil chamá-lo de golpista, não é?
Mas ninguém se transforma de democrata em golpista em 72 horas. A imprensa que
só reconhece a ameaça quando ela embarca para Miami talvez precise perguntar a
si mesma por que não a enxergou, ou não a nomeou, quando ela ainda disputava
votos.
Publicado
originalmente no portal O Povo +
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