![]() |
| Garotinho disse que viu o vídeo da festa do Vorcaro e Michele comento (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais) |
Houve um tempo em que o capacete de astronauta era o símbolo mais alto a que a espécie ousara aspirar. Gagarin girando sozinho sobre a Terra, Armstrong e o "pequeno passo para o homem": o astronauta foi o símbolo laico da transcendência, o corpo humano vestido para ultrapassar a própria condição. Coube ao Brasil de 2026 rebaixar esse símbolo à categoria de adereço de cabaret.
Do
sublime ao grotesco.
Anthony Garotinho, aquele ex-quase tudo, no seu podcast, recebeu o vídeo com a tal suruba espacial. Segundo ele, o banqueiro Daniel Vorcaro, o do Banco Master, hoje preso, teria bancado festas em que modelos estrangeiras eslavas desfilavam nuas, de capacete espacial, e os convidados, "homens que defendem a família", levantavam a viseira para escolher a companhia.
Uma planilha apreendida pela Polícia Federal no celular do banqueiro registra quase R$ 12 milhões em eventos com políticos em Nova York, sob a rubrica poética "Noite das Astronautas". Nomes, Garotinho não deu. A imaginação nacional, generosa, supriu. Deixem-me decifrar o capacete, porque ele é um objeto psicanalítico perfeito.
Sua função ali é "desfazer o rosto", reduzir a mulher a corpo disponível, apagar a pessoa e preservar apenas a carne. Que fossem estrangeiras, incapazes de entender as conversas, completa o quadro: a objetificação levada ao limite da caricatura, a "dominação masculina" de Bourdieu encenada com um didatismo que envergonharia o próprio Bourdieu.
E o levantar da viseira é o olhar masculino, aquele que Laura Mulvey descreveu no cinema, literalizado ao ponto do escárnio: o homem ergue a portinhola e o objeto se revela para consumo. O símbolo máximo do humano ultrapassando o corpo, requisitado justamente para abolir a pessoa e conservar só o apetite.
Há aqui um Carnaval, mas convém desconfiar dele. Bakhtin nos ensinou a ler o "baixo corporal" como festa que rebaixa os poderosos e, ao rebaixá-los, os iguala. O problema é que o verdadeiro Carnaval é coletivo e libertador: inverte a hierarquia para todos. Esse, não. Esse é privado, comprado, importado e rigorosamente hierárquico, um Carnaval de camarote, com corpos trazidos de fora, que não suspende a ordem, apenas a premia. Máscara sem catarse.
Houve
uma suruba cantada em prosa e verso em Noronha com os artistas da Globo. Até
hoje é cantada em prosa e verso.
O que botou fogo na história desta nova, no entanto, não foi a farra. Foi a guerra de sucessão. Com Bolsonaro preso, abriu-se aquilo que Max Weber chamaria de crise de rotinização do carisma: a "graça" do líder não se transfere por inventário. Dois herdeiros disputam o espólio: o filho, com pretensão dinástica, e a viúva-em-vida, com pretensão religiosa. E é Michelle quem move a peça mais fina do tabuleiro. Repostou o vídeo de Garotinho embrulhado em Salmos "a verdade de Jesus Cristo vai prevalecer", a falsa testemunha que não ficará impune. Não acusou ninguém. Apenas "compartilhou", e deixou a Escritura segurar a faca.
A santinha como empreendedora moral, no sentido preciso de Howard Becker: quem transforma um escândalo em capital, no caso, capital religioso, a moeda mais valorizada do eleitorado que ela cultiva. Punhalada com unção.
Do outro lado da mesma família, o espetáculo do clã se autodevorando: os irmãos, diz ela, agiram "de forma coordenada, premeditada". É o "narcisismo das pequenas diferenças" de Freud em sua forma mais pura, a guerra mais feroz é sempre entre os mais parecidos.
E, no papel de bufão que diz a verdade da corte, Paulo Figueiredo, o filho do ditador. Da Flórida, decretou que "mulher vota mal", que as solteiras votam "estatisticamente muito mal", que as casadas ao menos têm o bom senso de seguir o marido, e que o feminismo é coisa "marxista". Depois, em vez de recuar, desceu mais um degrau, num vocabulário que esta coluna se recusa a reproduzir por mero decoro tipográfico. É a dominação masculina em estado nu, sem a mediação do capacete: naturalizada em "estatística", como se o preconceito, dito com número, virasse ciência. Encurralado, Flávio o repudiou e correu para trocar de assunto, se a mulher não vota nele, disse, a culpa é da sua "falta de competência" em comunicar. Como se o problema fosse de "marketing". O problema nunca foi de comunicação: a mensagem chegou com nitidez perfeita.
Um detalhe para o leitor do O POVO saborear: reza a crônica dos bastidores que o estopim de todo o divórcio imperial foi uma divergência sobre um acordo envolvendo a candidatura de Ciro Gomes ao governo do Ceará. Até na briga da família mais nacional do País, é daqui que sai a faísca. Virgílio Távora dizia que o Ceará pensa que é o umbigo do mundo. Não pensa, não. É
Quando
o homem foi a lua Gilberto Gil criou uma música chamada "Lunik 9" em
que faz uma lamentação e uma convocação: "Poetas, seresteiros, namorados,
correi / É chegada a hora de escrever e cantar / Talvez as derradeiras noites
de luar". Se a moda da noite dos astronautas pegar, talvez seja a hora de
cantar: "Vereadores, deputados, senadores, correi. / Estamos vivendo os
derradeiros dias de política sem suruba. Toda semana vai ter uma para
comentar".
Publicado
originalmente no portal O Povo +
Leia também:
Michelle Bolsonaro tenta conter repercussão entre bolsonaristas de elogio a programa de Lula

Nenhum comentário:
Postar um comentário
A Administração do Blog de Altaneira recomenda:
Leia a postagem antes de comentar;
É livre a manifestação do pensamento desde que não abuse ou desvirtuem os objetivos do Blog.