12 de março de 2026

O que 2026 tem de parecido e de diferente com 1986 e 2006, por Érico Firmo

O ex-governadores Adauto, Lúcio e Ciro (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

A oposição no Ceará está competitiva, o que demarca uma diferença em relação a quase todas as eleições no Estado. Para vencer esse tipo de confronto, muitos elementos estão envolvidos. Um deles é o simbolismo, a mística. Nessa esfera também é travada uma disputa. É difundido o discurso de que, a cada 20 anos, há uma grande surpresa política, uma ruptura, e a oposição derrota os poderosos. São citados os emblemáticos anos de 1986 e 2006. Esse tipo de construção é poderoso para formar imaginário, disseminar otimismo e criar confiança. Não obstante, quanto, de fato, há em comum entre o cenário atual e aqueles?

Em 1986, a vitória de Tasso Jereissati (na época do PMDB, hoje no PSDB) foi um marco. Não foi, contudo, um triunfo da oposição. Ele era o candidato do governador Gonzaga Mota. Tinha o respaldo da máquina.

Totó, como Mota é conhecido, havia rompido com o esquema político que o elegera, do triunvirato dos coronéis Adauto Bezerra, César Cals e Virgílio Távora. A ditadura havia chegado ao fim. A distribuição de forças era muito parelha. Os antigos mandachuvas — chamados por Tasso de “forças do atraso” — ainda tinham muito poder. Verdade que, eleito, Tasso rompeu com Gonzaga Mota. Entretanto, isso veio depois.

Tasso, além disso, era do mesmo partido do então presidente da República, José Sarney. O Plano Cruzado, até aquele momento, era um sucesso e dava impressão de controle da inflação. Resultado: o PMDB elegeu os governadores de 22 dos 23 estados do Brasil no período. Só perdeu em Sergipe.

A chegada de Tasso ao poder sempre é observada pela ótica dos fatores locais — e foram determinantes mesmo. Mas esteve, também, dentro de um fenômeno nacional influente como talvez nenhum outro em campanhas estaduais.

Em 2006, foi a única vez, desde 1958, em que um opositor venceu. O eleito foi Cid Gomes (PSB). Não era alguém que tinha feito oposição ao então governador Lúcio Alcântara. Manteve aliados no governo até abril daquele ano. A partir de 2004, o grupo do hoje senador começou a assumir posição gradualmente mais crítica. Só se tornou oposição mesmo quase na campanha. Então, vinha de dentro do governo.

Alguns fatores pesaram. Cid era oposição estadual, mas tinha ao lado dele o presidente da República — como agora, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — e a prefeita da Capital naquele tempo, Luizianne Lins (PT). O PT hoje governa os três níveis.

Além disso, um fator determinante foi o rompimento entre Lúcio e o principal apoiador quatro anos antes, Tasso Jereissati. O ex-governador e então senador se afastou da campanha. Muitos aliados entraram com força na campanha do neoopositor.

A atitude de Tasso seria, para o atual governador Elmano de Freitas (PT), o equivalente a Camilo Santana (PT) romper com ele. Ou Cid Gomes. Ou os dois juntos.

Bases de apoio

Em série de entrevistas no começo do ano, Ivo Gomes (PSB) relembrou a vitória do irmão em 2006, ao minimizar a posição de prefeitos este ano a Elmano. “No momento, só temos uma candidatura lançada, que é a do Elmano, que está igual ao Lúcio Alcântara, contabilizando prefeitura. Lúcio tinha 160 prefeitos, o Cid tinha 10, e acabou ganhando no primeiro turno”.

A contabilidade tem exageros. O grupo Ferreira Gomes elegeu, em 2004, 38 gestores municipais, pelo PPS, atual Cidadania. Quando migraram para o PSB, em 2005, já havia dois chefes de Executivo do Interior lá. Eram 40, mais 18 do aliado PMDB, outros 11 do PT, incluindo a Capital. Além de alguns de siglas menores, como PCdoB. Claro, pela força da máquina, alguns ficaram com Lúcio, ou fingiram ficar. Mas esteve longe de ser derrotado por alguém que só contava com 10 prefeitos. Os de Lúcio eram, certamente, maioria. Porém, havia certo equilíbrio.

Governadores foram eleitos sem maioria nos municípios e Cid é exemplo. Também não tinha maioria dos deputados estaduais. Todavia, tinha suporte significativo. Ninguém venceu até hoje sem isso. Não significa que não irá acontecer. Apenas que, se ocorrer, será inédito.

Essa vantagem hoje é de Elmano. Ciro Gomes (PSDB) pode alcançar isso se convencer os políticos de que irá vencer e, assim, forçar uma migração. A expectativa de poder é afrodisíaca.

Publicado originalmente no portal O Povo +

Leia também:

Cid prepara "novo" grupo político

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Administração do Blog de Altaneira recomenda:
Leia a postagem antes de comentar;
É livre a manifestação do pensamento desde que não abuse ou desvirtuem os objetivos do Blog.