7 de julho de 2026

A Ilusão do palpite, por Camilla Lima

O problema, já classificado pela pela OMS, tem nome: ludopatia, que é um transtorno caracterizado pelo vício em jogos de azar e apostas (Foto: Fernanda Barros)

Está por todo canto. No anúncio do vídeo, no intervalo da novela, na traseira do ônibus, espalhado nos quatro cantos daquela partida de futebol do time do coração. A cada passo do jogador, o anúncio no uniforme deixa claro: apostar é legal!

O capitão do time diz que é legal, o zagueiro, o goleiro, a LED em volta do campo, que pisca o patrocinador master durante toda a partida. Mas não só, o programa que transmite a partida, o influenciador que outrora te convenceu a comprar uma roupa, agora te promete uma odds imperdível. A publicização em massa chancela: apostar é legal! E é aqui onde reside a maior garantia de sucesso do modelo do negócio: a publicidade. Se tem propaganda, então é legal.

As apostas online foram legalizadas no Brasil em 2018, mas a regulamentação só veio em 2024. Ou seja, durante quase sete anos o segmento ganhou corpo longe dos olhos da lei, o que abriu margem para convocar, sem ressalvas, a legião de novos aderentes à modalidade, sem nenhum tipo de controle.

Resultado: o brasileiro está endividado. Isso não é nenhuma novidade, claro. A novidade é que o que tem tirado até o pão da boca das famílias não tem sido apenas o cartão de crédito, a conta de luz, os itens de primeira necessidade. É o investimento massivo nas bets.

Em grupos nas redes, multiplicam-se relatos de personagens sobre o vício, sobre quanto dinheiro já perderam e o quão difícil é sair do ciclo das apostas. O problema, já classificado pela pela OMS, tem nome: ludopatia, que é um transtorno caracterizado pelo vício em jogos de azar e apostas.

Jogos de azar sempre existiram, mas com as bets a dinâmica tornou-se mais rebuscada e o jogo passou a capturar o apostador dentro de casa, no simples toque do celular.

Os sites de apostas oferecem uma jornada muito mais recreativa do que quem vai à lotérica, por exemplo. E o ambiente não é só convidativo, é intuitivo, tudo para tornar o trajeto do usuário até a aposta mais fácil. Mas isso, por si só, não seria suficiente para tornar a prática uma febre, um hype.

Lançando mão das melhores e maiores estratégias de marketing, injetando milhares de dinheiros em todas as possibilidades possíveis de divulgar os chamados jogos de azar, esse mercado cercou o público.

Primeiro, lançaram mão do reenquadramento semântico. Ao invés de jogo de azar, passaram a adotar: apostas, palpites, odds. O deslocamento de nomenclatura cria a ilusão de controle, habilidade e racionalidade. Troca-se azar por estratégia.

Onipresença. Com as bets circulando por todos os lugares, ela passa a ser de casa. E quando tudo vira convite, o risco deixa de parecer risco. E quando ela tem link direto com a emoção, como na aproximação rasteira com a paixão brasileira, aí é gol de placa.

Apostas coladas ao esporte nacional criam vínculo emocional e reduzem a percepção crítica. Com isso, o torcedor vira consumidor e apostador, misturando paixão com risco financeiro. Com a chegada da Copa, isso foi elevado à décima potência.

De acordo com levantamento da fintech Klavi, com base em dados do Open Finance (sistema de integração de dados do Banco Central), do início do mundial para cá, o número de brasileiros que apostam em bets online triplicou.

Também não é pra menos: a cada intervalo somos bombardeados com propagandas de todos os tipos sobre o quão bom é apostar.

Mas enquanto a publicidade destaca ganhos altos e histórias de sucesso, ela omite perdas recorrentes, lógicas probabilísticas desfavoráveis e a tendência ao vício.

A regulação suaviza o nome, mas não diminui os riscos. O capítulo X do Código Brasileiro de Autorregulação Publicitária lista uma série de diretrizes que, em teoria, regulam a publicidade voltada ao segmento de apostas, mas ela por si só não basta, tanto que o governo tenta correr atrás do prejuízo sancionando novas medidas que deem conta do problema que o modelo de negócio criou.

A mais recente delas foi a do Ministério da Fazenda, que decidiu impor regras para a exibição de propagandas de casas de apostas durante a transmissão dos jogos da Copa. Mas, mais uma vez, estamos correndo atrás do prejuízo. Nunca na prevenção, parece ser sempre no sufoco.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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