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| Lula e Flávio Bolsonaro em fotos da urna (Foto: Reprodução/BA/TSE) |
A escolha dos palcos traduz, em parte, a estratégia que cada campanha pretende levar para os próximos 49 dias até a votação. Lula recorre à própria biografia e à imagem de liderança construída ao longo de décadas, enquanto Flávio procura se apresentar como herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro sem ficar restrito ao eleitorado que já se identifica com o bolsonarismo. A largada ocorre em um cenário ainda aberto. A pesquisa Quaest divulgada na última sexta-feira mostra Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, ante 31% de Flávio. No segundo turno, a diferença cai para três pontos: 43% a 40%, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Os demais levantamentos recentes também apontam Lula na dianteira, mas registram uma distância menor em um eventual segundo turno. Na pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 10 de agosto, o petista aparece com 40% contra 35% de Flávio no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, Lula tem 47%, e o senador, 44%. Já o levantamento CNT/MDA, divulgado no dia seguinte, mostra uma diferença maior: 42,4% a 28,7% no primeiro turno e 48% a 39,1% no segundo. Os resultados, portanto, variam de acordo com a metodologia e o momento de cada levantamento, mas convergem em um ponto: Lula começa a campanha à frente, enquanto Flávio aparece como o principal nome de oposição e tenta reduzir a distância.
Para Lula, a experiência de quem já ocupou o Palácio do Planalto por três mandatos é uma das principais ferramentas eleitorais. Aos 80 anos, o presidente deverá explorar a comparação entre o governo atual e os anos de Jair Bolsonaro, buscando apresentar resultados econômicos e sociais como argumento para a continuidade. A campanha também pretende aproximá-lo de segmentos que não integram tradicionalmente o eleitorado petista, sobretudo jovens, enquanto a primeira-dama Janja da Silva deve ganhar espaço na comunicação eleitoral depois de críticas à ausência de mulheres na convenção que oficializou a candidatura. Alckmin e o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também estão previstos entre os participantes do ato de lançamento em São Bernardo.
A economia deverá ocupar uma posição central nessa narrativa. A campanha petista pretende associar o governo à melhora nos indicadores de emprego, valorização do salário mínimo — que em 2027 será de R$ 1.717, conforme previsto no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias elaborado pela atual equipe econômica — e recuperação da renda.
Outro tema explorado pela campanha petista é a relação do Brasil com os Estados Unidos. O conflito comercial provocado pelo tarifaço do governo de Donald Trump abriu espaço para que Lula reforçasse o discurso de defesa da soberania. A ideia é associar o discurso bolsonarista à submissão ao governo Trump. "Se o Brasil tem a segunda reserva de metais críticos do mundo, essa riqueza é nossa. Não pode a família Bolsonaro entregar isso para o Trump. O Trump vai fazer o Brasil virar colônia de novo, não exportar", disse, Edinho Silva, presidente do PT, em entrevista na última quinta-feira.
Mas há muitos obstáculos a enfrentar. A avaliação do governo permanece dividida e a eleição se desenha em ambiente de forte polarização. A pesquisa Quaest mostra 48% de desaprovação do governo, enquanto 53% dos entrevistados dizem acreditar que o país está indo na direção errada. A rejeição também é elevada entre os dois principais candidatos: 52% para Lula e 54% para Flávio.
A herança paterna
No campo bolsonarista, o desafio é manter eleitorado independente. Ontem, por exemplo, Flávio comeu pão com leite condensado, marca registrada de Jair Bolsonaro, em sua padaria favorita.
A estratégia preserva temas tradicionais da direita, como segurança pública, críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), defesa dos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, responsabilidade fiscal e redução do tamanho do Estado. Ao mesmo tempo, a campanha tenta abrir novas frentes de diálogo com mulheres, jovens e eleitores de centro-direita.
O programa de governo apresentado por Flávio passou a dedicar mais espaço às mulheres, com propostas voltadas à autonomia financeira e à saúde feminina. A tentativa de ampliar a interlocução com esse eleitorado ganhou importância depois da escolha de Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice. A campanha havia considerado a possibilidade de uma mulher para ocupar a vaga, em uma tentativa de reduzir resistências à candidatura, mas acabou optando pelo deputado alagoano. A escolha colocou sobre Michelle Bolsonaro e Fernanda Bolsonaro parte da tarefa de construir uma comunicação específica com as eleitoras.
A campanha também deverá contar com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) para ampliar a presença de Flávio nas redes sociais. Embora tenha se afastado inicialmente das atividades da campanha e concentrado sua atuação em Minas Gerais, há relatos nos bastidores de que o deputado deverá ajudar na comunicação digital da candidatura e dialogar com o público jovem de todo o país.
Nos últimos meses, Nikolas vinha sendo alvo de críticas de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, que está nos Estados Unidos, sob a avaliação de que o deputado mineiro não estaria suficientemente engajado na campanha presidencial. Um aliado ouvido pelo Correio sob reserva, contudo, afirma que Nikolas sempre esteve à disposição. "Nikolas sempre esteve à disposição, pois é um deputado que tem muita consideração ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas que esperava o melhor momento para entrar na campanha", disse a fonte. A aproximação acrescenta à candidatura um dos principais nomes da direita nas redes sociais e reforça a tentativa de Flávio de alcançar eleitores jovens.
A comunicação digital será particularmente importante para Flávio porque o candidato precisa alcançar eleitores que não necessariamente participam de atos de rua ou acompanham a propaganda política tradicional.
Na disputa pelo eleitorado, Alfredo Gaspar terá outra função. Ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e deputado federal, ele poderá ser utilizado para reforçar a agenda de combate à criminalidade, mas também para explorar o desgaste do governo Lula em torno das fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A campanha pretende associar o episódio a falhas de fiscalização e gestão do governo petista. O tema permite que Flávio ataque o adversário sem abandonar uma das principais bandeiras de sua própria candidatura: segurança pública.
A escolha de Copacabana para o primeiro ato segue a mesma lógica. A orla foi palco de algumas das maiores mobilizações de apoio a Jair Bolsonaro e tornou-se um dos espaços mais conhecidos de demonstração de força do bolsonarismo no Rio. Ao iniciar a campanha ali, Flávio reforça a conexão com o legado político do pai e tenta produzir uma demonstração de mobilização logo no primeiro dia oficial da corrida. A campanha também avalia agendas em outros locais associados à trajetória de Bolsonaro, como Juiz de Fora (MG), onde o ex-presidente sofreu um atentado a faca durante a campanha de 2018.
O problema para Flávio é transformar essa capacidade de mobilização em votos suficientes para avançar além do núcleo bolsonarista, tendo em vista a rejeição apontada pela Quaest. O levantamento também indica que ele tem desempenho mais forte entre evangélicos, eleitores com ensino superior e pessoas com renda acima de cinco salários mínimos, enquanto Lula apresenta vantagem entre eleitores de baixa renda, católicos, pessoas negras e de menor escolaridade. Entre os jovens de 16 a 34 anos, os dois aparecem próximos.
Publicado
originalmente no portal Correio Braziliense
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