25 de março de 2013

Fazenda Serra Verde, a França Livre dos Boris

Vista parcial do Açude da Fazenda Serra Verde - foto Raimundo Soares Neto 
Fundada em 1870 por Achiles Boris, banqueiro e exportador francês, a Fazenda Serra Verde era composta por uma área de 22 mil hectares, sua sede era situada no Município de Caririaçu, porem fazia divisas com os municípios de Crato, Farias Brito, Várzea Alegre e Granjeiro. A Fazenda compreendia cerca de 40 sítios.


Parte da Fazenda foi adquirida do Cel. Belém do Crato como forma de quitação de uma dívida de 50 contos de réis com Achiles Boris. O primeiro administrador da Fazenda foi Francisco Botelho Filho, que posteriormente tornou-se Cel. Botelho e foi Prefeito de Caririaçu.

Em 1947 chegou da França o neto de Achiles Boris, Hubert Bloc Boris, graduado pela Escola de Agricultura de Valabres e sua esposa Janine que ao lado de seu sobrinho Bertrand Boris assumiram a administração da Fazenda modernizando as práticas de cultivo e manejo dos animais.
Hubert Bloc Boris, sua esposa  Janine e casal de amigos reunião do Rotary, em Crato - foto arquivo da família
Foram implantados grandes projetos como depósitos para cereais, pocilga para animais selecionados, mais quatro açudes, já existiam seis para garantir o plantio de pastagens na criação de gado, pomares e hortas. O açude grande atualmente é usado como opção de lazer para moradores e visitantes.

Para facilitar a administração e evitar especulações sobre latifúndio a Fazenda foi dividida em duas. A Fazenda Serra Verde Ltda., com 13.500ha e a Fazenda Serra Verde Agro-pecuária S.A. com 8.000ha. O principal produto era o algodão, mais também se cultivava milho, feijão, arroz, cana de açúcar e seus derivados como rapadura e aguardente e fumo, bem classificado pela qualidade das folhas. Na Fazenda criava-se de gado, cavalos, porcos e outros animais.
Um dos currais da Fazenda Serra Verde - foto Raimundo Soares Neto 
A localização da Fazenda facilitava o transporte e comercialização dos produtos nos centros comerciais de Crato e Juazeiro e para outras cidades do Ceará. Sua produção chegou a superar 25.000 arrobas de bovinos e mais de 70.000 quilos suínos para o abate. 

Chaminé - foto R. Neto
Morando na própria Fazenda, com a esposa Janine e seus filhos, Claude, Dominique e Bertrand nascidos na França, depois François, Jacques e Tony Hubert. Hubert começou o seu trabalho na Fazenda aos 24 anos de idade. 

“Hubert homem de coração bom e justo forneceu para a sua gente 90% dos estoques de cereais para saciar a fome dos moradores devido a seca de 1970, isto ocasionou dificuldades financeiras, pois não tinham nenhuma ajuda do Governo” escreveu Edilma Rocha em artigo sobre a Fazenda.

Hubert era auxiliado por secretários, fiscais, feitores, tratoristas, motoristas e centenas de trabalhadores rurais. Dentre os feitores da Fazenda no período de administração de Hubert estava o Sr. João Soares da Silva que por lá trabalhou até os 65 anos de idade, sendo recompensado com uma boa aposentadoria e indenização em espécie.

A vida dos moradores, cerca de de 800 famílias, não se resumia só em trabalho, os Boris, segundo informações de Edilma Rocha, criaram a primeira escola de alfabetização para adultos no Brasil, a Fazenda tinha ainda campo de futebol, posto médico e ainda eram organizadas festas para trabalhadores e moradores. 
Uma das famosas festa na fazenda Serra Verde - foto arquivo pessoal da família
Os patroes também preocupavam com vida espiritual dos moradores e construíram uma Capela em estilo arrojado e moderno para a época, com esculturas sacras idealizadas por Hubert e feitas pelo mestre Augusto Justino, que se encontram em bom estado de conservação.
Capela da Serra Verde - foto Raimundo Soares Neto 
Atualmente poucas famílias continuam morando nas diversas casas da Fazenda Serra Verde, mas se encontra vários marcos dos tempos áureos daquela que foi a maior Fazenda do Estado do Ceará.

“Meu pai, aclimatou-se nas brenhas da Serra Verde e a essa terra se entregou de corpo e alma e, debaixo de pau e pedra, estava ele nas estradas, na lida, a cavalo ou de jipe. Apesar do objetivo de papai ser o trabalho eu, de minha parte olhava além. Ia pra debaixo dos pés de cajarana, arrodeava as goiabeiras, observava as bananeiras e, sobretudo, observava aqueles jardins floridos plantados em latas de querosene o que retratava o cuidadoso zelo da dona de casa. Eu gostava especialmente do cheiro do bugari que rescendia nos finais de tarde” escreveu Claude Bloc, filha de Hubert Bloc Boris.

A Fazenda Serra Verde também era chamada de França Livre, pois lá não existiam preconceitos raciais, nem sociais, todos eram bem recebidos pela família proprietária para prosear e contar os seus “causos” à boca da noite.

Com informações Blog Serra de São Pedro, Blog do Sanharol, Edilma Rocha e Claude Bloc.

Confiram outras fotos da Fazenda Serra Verde: