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| Ciro Gomes com André e Alcides Fernandes em ato político (Foto: Thiago Gadelha) |
O primeiro Ciro foi o da crítica ao neoliberalismo. Ex-governador do Ceará, ministro da Fazenda no governo Itamar Franco e ministro da Integração Nacional no governo Lula, construiu parte importante de sua trajetória denunciando privatizações, combatendo o receituário liberal e defendendo um projeto nacional-desenvolvimentista humanizado.
Seu discurso gravitava em torno da soberania econômica, industrialização e redução das desigualdades sociais por meio de um Estado indutor do crescimento. Com estilo contundente, era identificado como uma liderança do campo progressista, ainda que marcada por tensões políticas e posições frequentemente personalistas.
O segundo momento surge quando o antipetismo passa a reorganizar sua identidade política. A partir de 2018 a crítica ao PT deixa de ocupar um lugar secundário para se tornar eixo central de sua atuação pública.
A crítica política, absolutamente legítima numa democracia, foi sendo substituída por uma postura em que o antipetismo parece se tornar identidade política. E esse movimento tem implicações relevantes. No Brasil contemporâneo, o antipetismo deixou de ser apenas uma posição eleitoral para se converter numa das principais bases da extrema direita.
Sem espaço na agenda nacional, o terceiro momento é o da aproximação discursiva com pautas do bolsonarismo. O lançamento de sua pré-candidatura ao Governo do Ceará tornou esse deslocamento ainda mais evidente. Ao defender a eleição de senadores para "frear o Supremo Tribunal Federal", Ciro incorpora uma retórica muito semelhante àquela mobilizada pelo entorno político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Trata-se de um discurso que passa a dialogar com uma agenda de enfrentamento institucional explorada pelo bolsonarismo.
Quando
Ciro combina um discurso de crise permanente, centralidade da segurança,
enfrentamento institucional e uma narrativa de salvação individual, sua
aproximação com elementos simbólicos da direita bolsonarista deixa de parecer
episódica e passa a assumir contornos mais estruturais. O problema não está em
mudar de posição, mas em reconhecer a mudança e explicá-la ao eleitorado.
Publicado
originalmente no portal O Povo +
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