8 de julho de 2026

Se mulher não sabe votar, quem sabe? por Érico Firmo

Paulo Figueiredo não cria nada, repete correntes e tendências internacionais (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Paulo Figueiredo, parceiro de Eduardo Bolsonaro (PL) nas iniciativas em busca de sanções dos Estados Unidos ao Brasil, desistiu de discursar na audiência pública do Escritório do Representante de Comércio (USTR) sobre as tarifas de 25% propostas pelo governo Donald Trump ao País. Comentei em coluna anterior sobre a declaração feita por ele a respeito da participação política das mulheres.

“Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido”.

Esse tipo de raciocínio não é isolado. A essência do autoritarismo está na ideia de que as pessoas não sabem escolher quem deve governá-las. A desqualificação da opinião alheia serve de justificativa para atropelar a soberania de cada um. Agora se fala que mulheres não sabem votar, da mesma forma como já se falou isso sobre os nordestinos ou, num passado mais distante, os analfabetos.

Elio Gaspari, ao escrever em 2018 sobre a ditadura militar, ilustrou bem a questão: “A frase é velha: ‘Brasileiro não sabe votar’. Na sucessão de 1969, ela foi posta à prova pela pergunta seguinte: se o povo não sabe votar, quem sabe?”

Aquele momento foi emblemático porque o regime autoritário estava no ápice. Os 22 milhões de eleitores na época já não participavam da definição de presidente, nem de governador, nem de prefeito de Capital. Os dois primeiros generais ditadores foram referendados pelo Congresso Nacional. Mas, quando Costa e Silva teve uma isquemia cerebral, o vice civil Pedro Aleixo foi impedido de assumir e o Poder Legislativo estava fechado desde o ato institucional número 5 (AI-5).

Se o brasileiro não sabia votar, os 239 oficiais-generais sabiam? Exército, Marinha e Aeronáutica teriam pesos iguais? Um general de brigada valeria o mesmo que um de divisão? Um comandante de exército representaria a mesma coisa que o chefe do departamento de pessoal — ambos generais, mas um comandante de tropa e outro de uma mesa e de uma burocracia?

Gaspari descreve como a definição do modelo coube aos nove generais de quatro estrelas com assento no Alto Comando. Eles formaram uma espécie de Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de farda.

O colégio eleitoral foi dividido em distritos, com diferentes graus de relevância. Alguns generais votavam em três nomes, outros só em um. Em alguns comandos, oficiais participavam. Em outros, não. O chefe do Estado-Maior, Antônio Carlos Muricy, reconheceu mais tarde nunca ter havido uma contagem final, formalidade dispensável.

Processo tão confuso colocou no poder Emílio Garrastazu Médici. O Congresso foi reaberto para chancelá-lo. Quatro anos depois, a sucessão foi mais tranquila, com um voto só: Médici indicou Ernesto Geisel para substituí-lo. Ninguém mais foi considerado apto, ou necessário, para a decisão.

Tendência

Paulo Figueiredo não cria nada, repete correntes e tendências internacionais. O trumpismo, assim como o bolsonarismo, tem desempenho eleitoral reconhecidamente pior entre mulheres. No Brasil, em disputa contra a madrasta Michelle Bolsonaro (PL), Flávio Bolsonaro (PL) faz esforço para conseguir o máximo de eleitoras. Nos Estados Unidos, cada vez mais é difundida a desqualificação das mulheres como agentes políticos.

A beleza, a força e a importância da democracia estão no fato de um voto ser tão valioso quanto qualquer outro. A pessoa mais humilde tem o mesmo peso do mais rico empresário ou do mais instruído professor. Cada um é livre para escolher conforme a própria realidade, as necessidades, as ideias, as simpatias e a visão de mundo. Por mais que outros não gostem, na democracia cada um opta livremente. Nenhum neto de ditador tem o direito de desqualificar.

Publicado originalmente no portal O Povo +

Leia também:

Como a extrema-direita está minando o voto feminino

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Administração do Blog de Altaneira recomenda:
Leia a postagem antes de comentar;
É livre a manifestação do pensamento desde que não abuse ou desvirtuem os objetivos do Blog.