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| Apostas e temas religiosas entraram no debate na reta final da campanha (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais) |
O caso Master é o exemplo mais evidente. A sessão do STF sobre as relações do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, interrompida pelo pedido de vista de Flávio Dino, ampliou a crise de confiança na Corte. Lula procurou se afastar de Moraes e cobrou transparência nas investigações. Flávio Bolsonaro tentou atribuir ao presidente o desgaste do tribunal, embora as suspeitas ligadas ao banqueiro também alcancem seu próprio campo político. Para ambos, a questão se converteu em arma eleitoral. Para o cidadão, bastaria apurar os fatos sem proteção a autoridades, sem vazamentos seletivos e sem transformar a Polícia Federal ou a Justiça em instrumentos de campanha.
O episódio não deve ser tratado como distração. A credibilidade do Supremo é parte da estabilidade democrática. Entretanto, uma eleição não pode ser reduzida à escolha de quem explorará melhor sua crise nem o STF pode assumir o papel de protagonista da disputa eleitoral. Lula tenta evitar que o desgaste de Moraes seja transferido ao governo; Flávio busca associar os dois. São posições compreensíveis, porém o eleitor tem o direito de saber que mudanças concretas cada candidato propõe para ampliar a transparência, prevenir conflitos de interesse e preservar a independência das investigações.
O confronto também se instalou na política externa. Na Assembleia Geral da ONU, o petista advertiu contra a interferência estrangeira nas eleições brasileiras e rejeitou uma atuação externa no combate ao crime organizado. O discurso respondeu ao ambiente de tensão com Washington e projetou a disputa presidencial como uma escolha sobre democracia e soberania. Seus adversários, por sua vez, contestam a condução das relações com os EUA e cobram uma resposta mais dura às facções. Sim, o PCC e o Comando Vermelho também operam além-fronteiras, mas a pergunta que interessa ao brasileiro é prática: como interromper o fluxo de drogas, dinheiro e armas das organizações criminosas e reduzir a violência nas ruas?
Bets e padroeira
Neste fim de semana, essas polêmicas vieram acompanhadas de uma ofensiva de Lula contra as bets. O presidente passou a defender restrições ao chamado Jogo do Tigrinho e afins, depois de seu governo ter regulamentado o mercado de apostas. O governo preparava uma medida para proibir cassinos on-line antes da eleição, sem estender a proibição às apostas esportivas, que também acabaram sendo proibidas. Essa decisão exige explicações sobre seus efeitos sobre contratos já autorizados, arrecadação, publicidade e migração de jogadores para plataformas ilegais. E como as pessoas endividadas ou dependentes do jogo serão efetivamente atendidas. A proximidade das urnas não dispensa uma política pública consistente.
Também escalou a disputa pelo voto religioso. Em torno de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil, se estabeleceu uma grande polêmica. Lula criticou o uso eleitoral dos púlpitos ao falar a líderes evangélicos; a aproximação de candidatos com igrejas voltou a provocar reações e cálculos de campanha. O lugar das religiões na vida pública merece discussão, sem prejuízo para a liberdade dos fiéis votarem sem constrangimento. Mas desaparecem as necessidades das comunidades que as igrejas atendem: proteção contra a violência, cuidado com idosos, oportunidades para jovens e apoio a famílias em dificuldade.
As pesquisas ajudam a medir o tamanho desse descompasso. Em levantamento do Datafolha divulgado em maio, a saúde apareceu como prioridade para o próximo presidente entre 34% dos entrevistados. Vieram depois educação, com 15; segurança pública, com 12%; e economia, com 11%. Combate à corrupção, à fome e ao desemprego também foram citados. Num recorte da pesquisa BTG/Nexus divulgado em setembro, os eleitores que não se identificam com os dois principais polos — 19% da população pesquisada — puderam apontar duas prioridades: 40% mencionaram saúde e 31%, segurança; educação veio em seguida, com 20%. Os percentuais apontam na mesma direção: o cotidiano pesa mais que a disputa permanente entre personagens políticos.
Essa
distância é especialmente arriscada numa eleição apertada. Pesquisas divulgadas
este mês mostram Lula e Flávio tecnicamente empatados em simulações de segundo
turno. Os eleitores menos vinculados aos dois campos querem saber quanto
esperarão por uma consulta especializada, se haverá professor na escola, como
voltarão do trabalho em segurança e se o salário chegará ao fim do mês. A crise
institucional pode influenciar seu voto; dificilmente eliminará essas
cobranças.
Publicado
originalmente no portal Correio Braziliense
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