23 de setembro de 2026

Na ONU, Lula defende soberania e manda outros recados a Trump

Um dos principais eixos do discurso do presidente Lula foi a defesa da soberania nacional (Foto: Ricardo Stuckert)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o discurso de abertura da 81ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, nessa terça-feira, em Nova York, para apresentar uma extensa agenda de temas nacionais e internacionais. Em uma fala de aproximadamente 20 minutos, ele defendeu a soberania brasileira, criticou interferências estrangeiras, cobrou mudanças no funcionamento da ONU e fez apelos pela negociação diplomática diante dos conflitos internacionais.

Sem citar nominalmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula enfatizou — em um de seus principais recados — que o Brasil não aceita ser tratado como área de influência de outra potência. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém", frisou. A reação ocorre em meio ao aumento das tensões entre Brasília e Washington às vésperas das eleições brasileiras.

Ao tratar de democracia, Lula alertou para o risco de interferência estrangeira em processos eleitorais e afirmou que os países precisam ter respeitada sua capacidade de decidir os próprios caminhos políticos.

O tema eleitoral foi associado por Lula à defesa da soberania. Segundo o presidente, a América Latina percorreu um longo caminho para superar regimes de exceção e restaurar a vontade popular, e esse processo não deveria sofrer interferências externas.

Na véspera, Lula havia afirmado que Trump tem o direito de governar os Estados Unidos, mas não de impor sua vontade a outros países. No púlpito da ONU, a mensagem ganhou uma formulação mais ampla, sem que o presidente americano fosse citado nominalmente nos principais trechos sobre soberania.

O chefe do Planalto defendeu que o combate ao crime organizado seja acompanhado por maior cooperação internacional, especialmente para interromper o fluxo de armas e dinheiro utilizado pelas organizações criminosas. "Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas, precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado", ressaltou.

O discurso foi interrompido quatro vezes por aplausos da plateia. Os momentos ocorreram quando Lula tratou do reconhecimento do tráfico de africanos escravizados como crime contra a humanidade, defendeu o Tribunal Penal Internacional (TPI), falou sobre soberania e interferência externa e abordou questões relacionadas aos direitos das mulheres e ao feminicídio.

Ao fim, a mensagem central apresentada por Lula foi a de que o Brasil pretende atuar internacionalmente sem abrir mão da soberania nacional, defendendo negociação diplomática, cooperação entre países, preservação ambiental, desenvolvimento econômico e fortalecimento das instituições multilaterais. A seguir, os principais trechos do discurso.

Soberania nacional

Um dos principais eixos do discurso do presidente Lula foi a defesa da soberania nacional. Ele afirmou que o Brasil pretende manter relações com os Estados Unidos, mas sem aceitar interferências em assuntos internos. Também relacionou o tema ao processo eleitoral brasileiro e advertiu contra a participação de atores estrangeiros em disputas políticas internas. Segundo Lula, a América Latina vive um momento de recrudescimento de “tentações hegemônicas”. Nesse contexto, defendeu que os países da região tenham parceiros voltados ao desenvolvimento, e não relações baseadas em pressão ou imposição.

Defesa da democracia

Lula afirmou que a democracia voltou a estar “em xeque” e citou a possibilidade de ingerência externa em processos eleitorais. Ao abordar a história recente da América Latina, lembrou os regimes de exceção e o processo de reconstrução das instituições democráticas. A defesa da soberania, portanto, foi apresentada pelo presidente também como defesa da capacidade de cada país de escolher seus próprios governantes sem interferência externa.

Crime organizado

O chefe do Planalto levou à tribuna da ONU também uma questão de segurança interna. Ressaltou que o Brasil está preparado para enfrentar organizações criminosas e disse que trabalhadores, famílias e policiais são vítimas da violência. A estratégia defendida, porém, não seria limitada à atuação dentro das fronteiras brasileiras. Lula propôs cooperação internacional para combater os fluxos de armas e dinheiro que abastecem as organizações criminosas.“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas, precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado.” Ele citou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, que reúne autoridades de segurança dos nove países amazônicos. Segundo Lula, durante muito tempo os estados brasileiros atuaram de maneira isolada, situação que teria sido aproveitada pelo crime organizado. A integração entre diferentes autoridades foi apresentada como parte da mudança dessa estratégia.

Sistema Pix

O Pix também apareceu no discurso como símbolo de inclusão financeira e de soberania tecnológica. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix”, frisou. Ele apresentou o sistema como uma infraestrutura pública e gratuita que ampliou a inclusão financeira de milhões de brasileiros.

Big techs

Outro bloco do discurso foi dedicado aos efeitos da transformação tecnológica. O presidente destacou que o avanço tecnológico cria oportunidades, mas também riscos que precisam ser enfrentados pelos governos. Ele defendeu a regulamentação das grandes empresas de tecnologia e da inteligência artificial. “Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial”, frisou. Também criticou a concentração de poder no setor tecnológico e afirmou que empresas não podem transferir às famílias a responsabilidade pelos efeitos de algoritmos.

Apostas on-line

Dentro do mesmo tema, Lula criticou a expansão das plataformas de apostas on-line. Segundo o presidente: “A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro”. Ele afirmou ainda que a disseminação das plataformas estaria contribuindo para o endividamento e para problemas dentro das famílias. “O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.”

Margem Equatorial

Ao mesmo tempo em que defendeu a agenda ambiental, Lula afirmou que o Brasil continuará explorando suas reservas de petróleo. Destacou a autossuficiência brasileira e mencionou especificamente o potencial da Margem Equatorial. A posição apresentada foi a de combinar exploração dos recursos naturais com políticas de redução das emissões. “Não renunciaremos à agenda ambiental.”

Medidas ambientais

Lula também associou a agenda ambiental às relações comerciais internacionais. O presidente afirmou que o Brasil tem “autoridade moral” para rejeitar medidas protecionistas apresentadas sob o argumento de proteção ambiental. A mensagem foi de que a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico devem caminhar conjuntamente.

Minerais críticos

A transição energética global foi associada por Lula à posição estratégica brasileira em relação aos minerais críticos e às terras raras. O presidente afirmou que o Brasil é uma referência mundial em energia verde e possui recursos importantes para a transformação da matriz energética. Ao mesmo tempo, defendeu que a exploração dessas riquezas gere benefícios dentro do país, como investimentos, tecnologia e desenvolvimento de setores estratégicos. “Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas.”

Multilateralismo

Ao longo de todo o pronunciamento, o multilateralismo apareceu como uma das principais ideias defendidas por Lula. Ele argumentou que, em um mundo interdependente, os países precisam conciliar seus interesses nacionais com os mais amplos da humanidade. “Ao mundo interdependente, liderar é conciliar interesse da pátria com o da humanidade.”

Corrida armamentista

Lula criticou o crescimento dos conflitos armados e afirmou que 2025 registrou o maior número de guerras desde a Segunda Guerra Mundial. Também alertou para o aumento dos gastos militares e para uma nova corrida armamentista. Na avaliação dele, conflitos regionais podem evoluir para uma confrontação de proporções globais. Por isso, defendeu uma reunião dos líderes dos países que integram o Conselho de Segurança para discutir a situação internacional. “A guerra não é a continuação da política por outros meios, é a falência total da política.”

Rússia e Ucrânia

Ao falar da guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula afirmou que o conflito se arrasta há cinco anos e continua provocando mortes e sofrimento. O presidente sustentou que não haverá vencedores no campo de batalha e defendeu a negociação como única alternativa para encerrar a guerra. A defesa da diplomacia foi apresentada como princípio geral para enfrentar os conflitos internacionais.

Impacto nos preços

Segundo Lula, as guerras também têm consequências econômicas para famílias de diferentes partes do mundo. O presidente afirmou que os conflitos contribuem para o aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos. Nesse contexto, citou o Estreito de Ormuz, importante passagem para o comércio internacional, que, de acordo com ele, deveria ser uma rota vital para circulação de mercadorias, e não uma “trincheira da guerra”.

Oriente Médio

O presidente dedicou parte importante do pronunciamento ao Oriente Médio. Afirmou que a continuidade da guerra torna cada vez mais difícil a implementação da solução de dois Estados, que considera necessária para que israelenses e palestinos possam viver em paz. Também disse que ameaçar civilizações de extinção não contribui para a estabilidade regional. O tema foi inserido por Lula em um contexto mais amplo: guerras produzem efeitos que ultrapassam as fronteiras dos países diretamente envolvidos.

Conselho da ONU

Lula classificou o atual momento como um dos mais críticos da história recente das Nações Unidas. Segundo o presidente, a credibilidade da organização “nunca esteve tão baixa”, enquanto sua capacidade de proteger populações vulneráveis também estaria reduzida. O principal alvo da crítica foi o Conselho de Segurança. O chefe do Executivo afirmou que o órgão não estaria cumprindo adequadamente seu papel diante dos conflitos internacionais, e retomou uma reivindicação histórica da diplomacia brasileira: a reforma do Conselho de Segurança. O presidente também lembrou que o Brasil já questionava, desde a primeira sessão da Assembleia Geral, em 1946, os efeitos do direito de veto concedido às grandes potências.

Tribunal Penal

Outro ponto do discurso foi a defesa do Tribunal Penal Internacional (TPI). Lula criticou as ações contra a Corte e seus integrantes e afirmou: “Perseguir o TPI é o estímulo para que esses crimes fiquem impunes”. A declaração foi apresentada dentro da defesa mais ampla do direito internacional e da responsabilização por crimes.

Publicado originalmente no portal Correio Braziliense

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