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| O triunfo foi categórico, mas Lula terá pela frente o maior desafio (Foto: Ricardo Stuckert) |
Lula esteve perto da derrota na última eleição disputada por ele. Seria um desfecho melancólico. O presidente correu o risco de perder para o filho de Jair Bolsonaro (PL), senador cuja falta de qualidades visíveis a olho nu foi determinante para o revés. O remate, porém, foi a mais improvável, incrível e marcante vitória do homem mais vezes escolhido pelas urnas para governar o Brasil. Ele já é a pessoa com mais tempo de mandatos presidenciais pelo voto popular.
Lula é amado e odiado, mas mesmo os detratores terão de conviver com o lugar assegurado a ele nos livros de história — a forma como será retratado, essa será objeto de controvérsias quando não estiver mais aqui nem ele, nem eu, nem você, caro leitor, cara leitora desta coluna agora.
Se eu estivesse no lugar do presidente, jamais teria me candidatado a este quarto mandato (entre outras coisas, talvez por isso ele seja o maior vencedor de eleições brasileiras e eu só tenha sido votado para diretório acadêmico na época de universidade, e só havia uma chapa concorrendo). Ele mesmo dizia não ter intenção de buscar a reeleição.
Foi um entre tantos a não manter a palavra, tal qual Bolsonaro pai antes dele. Era bem capaz de Flávio Bolsonaro (PL) também mudar de ideia sobre o compromisso assumido com mais ênfase que os dois citados, mas isso não saberemos.
Mas eu, no lugar de Lula, não seria candidato porque ele já tinha cumprido um arco completo. Ele havia sido duas vezes presidente, saiu com popularidade recorde, elegeu a sucessora. Foi preso, a condenação foi anulada, e ele foi eleito de novo. Após a anulação do julgamento dos tribunais, submeteu-se ao veredicto das urnas e foi vitorioso. Era já uma bela narrativa da pobreza à Presidência, do poder à prisão e de lá de volta ao Planalto. Eu pararia por ali e consideraria a missão cumprida. A tarefa, ao final do primeiro turno, chegou a parecer impossível. É bom não duvidar deste torneiro mecânico nordestino.
O triunfo foi categórico, mas Lula terá pela frente o maior desafio. O Congresso Nacional é hostil. O adversário teve um faniquito e não aceitou a derrota. A governabilidade nunca foi tão difícil de alcançar.
O próximo e último governo será o mais complicado.
A
conquista além de Lula
A reeleição foi impressionante por não ter sido resultado apenas da campanha ou do candidato. Os apoiadores tomaram a responsabilidade por construir a vitória. Muitos não se moveram para reeleger o presidente, mas antes para derrotar o filho de Bolsonaro.
Houve a mobilização de rua, expertise levada pelos líderes petistas no Nordeste. Outro fator foi o caoticamente eficaz engajamento de André Janones, o maior sucesso da esquerda nas redes até hoje. Mas tudo isso contou com a adesão de uma militância preocupada com a possibilidade de retorno do bolsonarismo.
A queda da abstenção é um impressionante fenômeno social. Moradores de diferentes lugares se envolveram. Gente percorreu quilômetros para votar. Idosos voltaram a exercer o direito, não mais como obrigação.
No primeiro turno, ocorreu “salto alto”. As pessoas acharam que Lula acabaria vencedor e tomaram um susto pela iminência de ter Flávio Bolsonaro presidente.
O
presidente é protagonista de um feito histórico, mas o eleitor também é. O
encontro de gerações, de jovens e idosos. Muitos deles, em pleitos separados
por quase quatro décadas, deram a Lula o primeiro voto para presidente. E se
encontram para votar nele pela última vez.
Publicado
originalmente no portal O Povo +
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