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| O Museu Senzala Negro Liberto em Redenção é um dos locais importantes para o movimento abolicionista no Ceará (Foto: Aurelio Alves) |
A avenida Barão do Rio Branco, no Centro da Capital, é um emaranhado de lojas, carros, motos e pedestres que envolve quem passa por ela em uma rapidez frenética. Há 146 anos, com uma paisagem totalmente diferente, ela se chamava rua Formosa e era endereço-sede de uma sociedade que influenciou o movimento abolicionista do Ceará.
A Associação Comercial Perseverança e Porvir, criada em 1879, se reunia na casa de um dos membros, José Correia do Amaral. Formado principalmente por comerciantes, o grupo tratava de interesses econômicos dos participantes e defendia a libertação dos escravizados da província.
A residência não resistiu às transformações da via, mas relatos de pesquisadores apontam que ela era localizada onde hoje está o número 1.201 da avenida, em frente ao antigo Palácio da Justiça.
Cerca de 550 metros depois, funcionava a Assembleia Provincial do Ceará, na rua Pedro I, onde hoje funciona o Museu do Ceará. Em seus salões, em 1880, foi criada a Sociedade Libertadora Cearense (SLC), a partir da associação Perseverança e Porvir.
Essa sociedade acreditava no abolicionismo como uma rota para o desenvolvimento econômico, político e social, seguindo ideais europeus que influenciaram a elite da época. O grupo passou a angariar fundos para comprar alforrias de escravizados e a disseminar o movimento na imprensa, por meio do jornal O Libertador.
Os pesquisadores Carlos Caxile e Mardônio Guedes, em artigo intitulado “Sociedade Libertadora Cearense: a palavra em ação - o jornal O Libertador enquanto instrumento de doutrinação moral e social”, apontam que o jornal foi o principal instrumento de transmissão dos ideais da SLC, ajudando os membros a moldar a opinião pública e a pressionar defensores do regime escravocrata.
Além disso, era na Assembleia que os deputados discutiam leis importantes para acelerar a libertação dos escravizados, como o decreto que aumentou a taxa cobrada por cativos e estabeleceu uma multa para evitar o comércio inter-provincial.
Resumir a história do abolicionismo no Ceará aos movimentos de comerciantes e políticos, no entanto, seria apagar a resistência negra que pulsava por liberdade. Quase ao lado da Assembleia, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário reunia a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos.
A
irmandade era uma forma de organização da população negra para resistir ao
regime que não só aprisionava seus pares, mas também trabalhava para eliminar
seus costumes e crenças.
“Eles se organizavam para conseguir acumular um certo pecúlio para comprar alforrias, para impedir que seus participantes ou amigos dos participantes fossem vendidos para o Rio de Janeiro, que é parte desse comércio interno que vai ocorrer”, explica o historiador Hilário Ferreira Sobrinho.
O templo é um dos mais antigos de Fortaleza, construído nos anos 1700 e tombado desde 1983 pelo Estado. Apesar da importância histórica, está deteriorado e fechado para reformas.
Rumo à praia, outro ponto crucial para a história da abolição no Ceará é encontrado: foi no porto antigo que aconteceram as greves dos jangadeiros em 1881. Os trabalhadores, liderados pelo liberto José Napoleão e pelo prático Francisco José do Nascimento — que mais tarde ganharia o apelido de Dragão do Mar —, se recusaram a fazer o transporte de escravizados em suas jangadas.
José Napoleão, segundo Hilário, comprou a própria alforria a partir de um acordo com o seu senhor, e depois conseguiu comprar a alforria da esposa, Preta Simoa, e de amigos, passando a morar e trabalhar próximos ao mar, na comunidade que hoje se chama Poço da Draga. Unidos, se protegiam contra o tráfico interno.
“Esse período do tráfico interno gerava muita insegurança. Qualquer liberto que fosse visto andando sozinho na cidade, esses comerciantes pagavam pessoas para, num beco escuro, tomar a carta de alforria e colocar essa pessoa dentro de um lote que seria vendido para o Rio de Janeiro. Eu penso que ao morarem juntas, caso fossem atacadas, bastavam gritar e os outros saíam das suas casas para socorrê-las”, relata o historiador.
Dragão do Mar, que ficou conhecido como um símbolo da luta abolicionista, morreu em 5 de março de 1914. O túmulo onde foi enterrado só foi descoberto em 2020, mais de 100 anos depois da morte. Ele foi localizado pelo pesquisador Licínio Nunes de Miranda no Cemitério São João Batista, um dos mais antigos da Capital.
O último ponto deste passeio, a 700 metros do Cemitério, foi onde ocorreu a solenidade que fixou o dia 25 de março de 1884 como a data de abolição da escravidão do Ceará — quatro anos antes da Lei Áurea oficializar o fim do regime nacionalmente. Em ato público na praça Castro Carreira, conhecida como Praça da Estação, o presidente da província, Manuel Sátiro de Oliveira Dias, declarou que não existiam mais escravizados na Terra da Luz após extensa campanha abolicionista que buscou a alforria em todos os municípios.
Redenção:
primeira cidade a libertar negros guarda memória da escravidão
Redenção, a 57,94 km de Fortaleza, foi a primeira cidade do Ceará a libertar em massa os escravizados. Em 1883, foi por ela que começou o movimento de alforrias que tomou conta de toda a província. Hoje, a cidade tem diversos símbolos que lembram o período da escravidão.
No Museu Senzala Negro Liberto, na entrada do município, é possível visitar um casarão da época. Com a arquitetura colonial preservada, a casa tem salas espaçosas, grandes janelas, pé-direito alto e piso de madeira. No subsolo, uma senzala.
Chama
atenção a quantidade de artefatos que remetem à tortura e ao aprisionamento dos
escravos que ali viviam. Dos objetos datados no pós-abolição, a foto de uma
mulher negra sentada com as mãos e pernas cruzadas quase passa despercebida.
Ela é identificada como Maria Estela A. da Silva, "tataraneta de escravo". “Com seu trabalho e dedicação serviu a família por meio século”, diz a placa exposta embaixo da foto. O guia Jonas Souza explica que Maria foi governanta da casa e que as histórias contadas por ela foram importantes para a criação do roteiro do museu.
Em um trabalho acadêmico que buscou remontar a história da população liberta no pós-abolição em Redenção, o pesquisador Arilson dos Santos Gomes afirmou que “suas vozes e suas memórias, nos principais espaços da cidade, continuam esquecidas”.
Um novo projeto cultural chamado “Redenção Imaginada”, realizado pela Rede Pluriverso, com patrocínio do Ministério da Cultura e da Secretaria da Cultura do Ceará, tenta analisar a memória abolicionista da cidade e propor novos monumentos que ressaltem o protagonismo negro no processo.
Locais que contam a história do abolicionismo do Ceará em Fortaleza:
Muralha Hawkshak (Praia do Poço da Draga)
Levando o nome de John Hawkshak, engenheiro responsável pela construção, a muralha é uma das poucas estruturas restantes do antigo porto de Fortaleza. Em 1881, foi no porto que jangadeiros, liderados pelo alforriado José Napoleão e pelo prático Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, fizeram greves para impedir o tráfico de escravizados no Ceará.
Avenida Barão do Rio Branco (Centro)
Na rua Formosa, que hoje é avenida Barão do Rio Branco, estava localizada a casa de José Correia do Amaral, um dos fundadores da Sociedade Cearense Libertadora. A casa, que era conhecida como “castelo rocha negra”, serviu como sede da SCL a partir de 1880. A construção não existe mais, mas pesquisadores dizem que ficava próxima ao atual número 1.201.
Palacete Senador Alencar (Centro)
Hoje abrigando o Museu do Ceará, o prédio localizado na rua Pedro I foi idealizado para abrigar a antiga Assembleia Provincial do Ceará, em 1871. Além de ter sido palco da criação da Sociedade Cearense Libertadora, foi onde legisladores discutiram e escreveram as leis que aceleraram a libertação de escravizados na província. Bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mantém as características arquitetônicas originais e atualmente está fechado para reformas.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário (Centro)
Um dos templos mais antigos de Fortaleza, foi construído no século 1700. Era onde se reunia a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, confraria de culto católico criada para abrigar a religiosidade do povo negro. A população negra também usava esse ponto de encontro para organizar fundos e comprar alforrias, além de se proteger do comércio interno de escravos, impedindo que amigos e participantes fossem vendidos para outros estados. Está fechada para reforma.
Praça da Estação (Centro)
Em 25 de março de 1884, a praça, que tem o nome de Castro Carreira, e é conhecida como Praça da Estação, foi onde o então presidente da província, Manuel Sátiro de Oliveira Dias, declarou que não havia mais escravizados no Ceará. Jornais da época relataram que uma multidão se reuniu na praça para a sessão solene.
Túmulo de Dragão do Mar (Centro)
Mais de 100 anos após a morte de Dragão do Mar, em 5 de março de 1914, o local onde ele foi enterrado era um mistério. O pesquisador Licínio Nunes de Miranda encontrou o túmulo em 2020, no lado Sul da rua 22 do Cemitério São João Batista, no Centro. “Descanso eterno do major Francisco José do Nascimento e sua família”, diz a placa no jazigo.
Publicado
originalmente no portal O Povo +
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