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| Imagem de São José venerada na Catedral Metropolitana de Fortaleza (Foto: Geilson Cajuí) |
Para cearenses que dependem da pesca e da agricultura chuva é água benta. No dia 19 de março, data de São José, eles aguardam ainda mais esperançosos por ela — movidos pela necessidade da boa colheita, de cisternas cheias, de açudes sangrando e, principalmente, pela fé devota ao santo que nunca os abandona.
Padroeiro do Ceará, a figura religiosa está intrinsecamente ligada à vida de homens e mulheres do Estado que dependem de uma boa quadra chuvosa para seguir mantendo suas fontes de renda e consumo. Eles têm no santo a imagem de um protetor e alimentam a tradição quase profética de que, se chover no dia dele, o inverno vinga. Por isso anseiam pela data, por vezes, como última esperança.
O dia 19 de março foi decretado como um celebrativo ao santo em 1621, pelo papa Gregório XV, e em 1870 o religioso foi declarado padroeiro universal da Igreja Católica, quando Pio IX assumiu o Vaticano.
No Ceará, a história do santo com o povo tem início com a fundação da cidade de Aquiraz, ainda no período colonial. Conforme o teólogo Victor Bruno, o município foi a primeira capital do Estado e instituiu o religioso como o seu padroeiro, devoção que mais tarde se consolidaria em toda a unidade federativa.
"Há também um outro elemento simbólico que é muito forte, uma das primeiras embarcações que chegaram aqui ao litoral cearense trouxe uma imagem de São José do Ribamar, e foi a partir daí que se estabeleceu, portanto, essa ligação entre o território e a devoção ao santo", explica o profissional.
Já a associação do santo com a chuva surge e é fortalecida por dois fatores, de acordo com o especialista. O primeiro deles é o fato do Ceará ser uma terra marcada historicamente pela seca e pela estiagem, que leva homens e mulheres a dependerem da chuva para garantir uma boa colheita.
Visto na fé católica como pai de Jesus Cristo e provedor da Sagrada Família, São José é tido pelos fiéis como aquele que "intercede pelo sustento das famílias que vivem da agricultura". É para quem, então, agricultores passam a direcionar suas preces, sendo elas muitas vezes pedidos por um bom inverno.
O segundo fator que fomenta essa ligação entre a chuva e o religioso no Estado tem a ver com um elemento natural. Conforme Victor Hugo, o dia 19 de março coincide com um período meteorológico em que existem "condições climáticas mais favoráveis à ocorrência de chuvas" no Ceará.
Com a chegada recorrente de precipitações no dia da celebração ao santo, sertanejos e agricultores passaram a associar o religioso como um "provedor da água". Também começa ai a crença de que a chuva registrada no dia dele é um indício bom — ou que a ausência dela anuncia um inverno fraco.
"A devoção vai unir ao mesmo tempo fé e observância do povo sertanejo à natureza, e aí o povo, à medida em que olha para o céu, olha também para o santo e ali vai encontrar um tipo de esperança", diz Victor.
O teólogo pontua ainda que essa proximidade do cearense com São José, assim como a importância do religioso para o Estado, foi fruto de um "processo histórico e cultural construído pela fé do povo, pela presença da igreja e pela tradição que foi sendo transmitida ao longo das gerações".
O santo, a chuva e a comprovação científica
Essa espera pela chuva em março pode ser explicada também pela ciência. De acordo com a Fundação de Metereologia e Recursos Hídricos (Funceme), o mês apresenta um volume maior de precipitação, sendo o mais chuvoso no Ceará e apresentando média climatológica de 206,5 milímetros (mm).
Órgão explica que o quadro ocorre devido ao posicionamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) "mais próximo à faixa norte da região Nordeste do Brasil, especialmente, nos meses de março e abril".
"Quando temos boas chuvas, nessa época do ano já teríamos a atuação da ZCIT, que é o principal sistema meteorológico responsável pelas precipitações no Ceará, então é possível que essa observação esteja associada à crença popular do Dia de São José", pontua o órgão.
Já sobre a crença de que se não chover no Dia de São José o inverno não será bom, a Funceme pontua que "para a ciência não há correlação" entre a chuva e a data. O que significa que a ausência de precipitação não é um indicativo de que o período chuvoso será fraco.
"[Em] 1974 e 2009 poucos municípios registraram chuva no Dia de São José (em 1974, 63 municípios registram chuva, sendo o maior volume em Martinópole, com 76,0 mm; em 2009, 53 municípios, registraram chuva [...] Mas, a quadra chuvosa foi acima da normal", diz o órgão, mostrando dados.
Nascer
em dia de São José
São José entrou na minha vida desde o primeiro momento dela. Nasci no dia do santo e nascer no dia dele é sempre completar ano com chuva. Lembro de ainda menina já alimentar o pensamento de que choveria naquela data. Também carregava o temor do "não chover", pois seria presságio ruim, sinal de seca.
Eu sequer sabia o que significava isso, mas acordava com o barulho de água caindo e ia ansiosa espichar os olhos para o céu, aliviada. Com o tempo me tornei quase uma sentinela da chuva, sem nem saber o momento em que essa crença tomou meu imaginário. Minha relação com ela foi ganhar corpo em viagens que fiz para Jaguaribe, a terra onde meu pai nasceu. Lá conheci o açude de onde se tira a água para irrigar as plantações e também matar a sede de homens, mulheres e toda sorte de animais.
Ouvi ainda história de tempos difíceis e vi de perto a necessidade da chegada de um inverno bom, precisão quase sempre relatada nas músicas de cantoria que atravessavam o radinho de pilha do meu pai. Nessa relação, São José sempre aparecia, assim como nas novenas e preces feitas a ele por minha mãe e guardadas até hoje dentro da Bíblia que ela mantinha em casa, papéis dobradinhos com a letra e a fé dela. Foi assim sempre, o santo rodeando minha vida como um protetor, provedor da água e da família.
Uma
vez contei à uma pessoa que mora em outro estado que nasci no Dia de São José e
o que ele representa aqui. Ela achou estranho, não entendeu a crença. Foi minha
primeira percepção do quanto isso é uma coisa nossa, uma identidade herdada,
profunda e bonita como a chuva que há de cair hoje.
Publicado
originalmente no portal O Povo +
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