22 de março de 2026

Os 100 anos do encontro entre Padre Cícero e Lampião

O Governo Federal pediu a ajuda do padre Cícero para solicitar as forças de Lampião para combater a Coluna Prestes (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

Há 100 anos, a maior marcha militar do mundo percorria o Brasil e passava pelo Estado do Ceará. Formada por cerca de 1.500 homens, entre os anos de 1924 e 1926, a Coluna Prestes, percorreu 25 mil quilômetros pelo País com o objetivo de derrubar o governo do então presidente Artur Bernardes. Aquela época também ficou marcada por outro acontecimento: o encontro entre Lampião e Padre Cícero.

Surgindo como um dos movimentos do tenentismo, como a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana e a Revolta Paulista de 1924, a Coluna Prestes lutava por reformas estruturais e políticas no Brasil, comandado pela oligarquia de Bernardes. Na época, o cenário político funcionava a partir da tão conhecida política do "café com leite", em que oligarcas de São Paulo e de Minas Gerais revezavam à frente do País.

O movimento também reivindicava reformas sociais e políticas, como o voto secreto e o ensino público gratuito e obrigatório para toda a população.

A Coluna Prestes era liderada por Luís Carlos Prestes, Miguel Costa e pelo cearense Juarez Távora, preso antes do movimento passar pelo Ceará, além de quatro destacamentos, chefiados por Siqueira Campos, João Alberto, Cordeiro de Farias e Djalma Dutra.

A marcha teve início em 1924 e seguiu até 1926, ano em que a Coluna atravessou o Estado do Ceará. De acordo com informações do livro “A Marcha da Coluna Prestes no Ceará”, organizado por Papito de Oliveira, o grupo veio do Piauí e se dividiu ao chegar no estado cearense.

Por onde a Coluna Prestes passou no Ceará

Enquanto a Coluna estava em Arneiroz, o presidente Artur Bernardes buscou a ajuda do padre Cícero Romão Batista, por intermédio do deputado Floro Bartolomeu, para solicitar as forças de Lampião para combater o movimento.

A historiadora e professora da Universidade Regional do Cariri (Urca) Fátima Pinho explica que foram criados os "batalhões patrióticos", formados por grupo de pessoas para combater a Coluna nos municípios por onde passava. O governo fornecia dinheiro, armas e fardamento.

A docente conta que o religioso chegou a escrever duas cartas a Prestes pedindo para que a Coluna se rendesse. "Não teve efeito, Luís Carlos Prestes não se rendeu nesse período, mas essa carta tem uma grande repercussão na imprensa", detalhou sobre uma delas.

Em paralelo ao envio da carta, Floro Bartolomeu organizou o batalhão patriótico e convidou o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, para ajudar no combate à Coluna.

O historiador Roberto Júnior, criador do site Cariri das Antigas, conta que o batalhão patriótico de Juazeiro se posicionou em Campos Sales, diante da previsão de que a marcha passaria por Pernambuco e entraria no Ceará por aquela região. Roberto explica que havia um certo receio na época de como o batalhão combateria a Coluna, visto que o movimento era composto por militares treinados.

O historiador ainda conta que, pelas exigências feitas por Lampião por aqui, presume-se que Floro tenha feito promessas ao cangaceiro, incluindo a patente de capitão, que, posteriormente, descobre-se não ter validade oficial.

O encontro de fato

O cangaceiro chegou a Juazeiro e encontrou Padre Cícero duas vezes no dia 5 de março de 1926. Um dos encontros aconteceu na rua da Boa Vista, no sobrado do poeta João Mendes, e o segundo teria acontecido na rua Nova, em um imóvel de propriedade de Floro Bartolomeu. Roberto Júnior detalha que a segunda vez em que conversam, Lampião teria feito as exigências sobre as promessas feitas a ele, incluindo a patente de capitão.

"O Padre Cícero nega a emissão da patente, uma vez que ele não teria competência para tal. Pela estrutura jurídica dos batalhões patrióticos, quem teria possibilidade de emitir um documento dessa natureza seria Floro Bartolomeu, que não estava na cidade. O Benjamin Abrahão, que era o secretário do Padre Cicero, teria achado uma uma via paralela que seria a lavra desse documento por parte de um funcionário do Ministério da Agricultura, o Pedro de Albuquerque Uchôa, que dava o plantão aqui em Juazeiro", relata.

O cangaceiro e o bando ficaram no município por três dias, período em que recebeu visitas e concedeu entrevistas. Em uma delas, Lampião falou sobre sua afinidade com o estado cearense e a veneração por Padre Cícero. Lampião também destacou que o religioso acolhia irmãs suas que moravam no Município.

Após partir, os cangaceiros nunca chegaram a entrar em combate contra as tropas de Prestes.

Reações

De acordo com a professora Fátima Pinho, a reação da população com a passagem de Lampião oscilou entre a curiosidade e o medo. Já na imprensa, principalmente carioca, a pesquisadora conta que o encontro era visto de forma negativa.

"A repercussão desse encontro na imprensa brasileira foi de interpretar como Padre Cícero recebendo um bandido. O Padre Cícero já tinha uma imagem bastante arranhada, digamos assim, desde a Sedição de Juazeiro. A imprensa tem charges de Padre Cícero com Lampião, manchetes de 'estranha confraternização'", disse.

O historiador Roberto Júnior também aponta que, apesar das críticas negativas em relação à Coluna, existiam periódicos que se mostravam favoráveis ao movimento. "Havia uma determinada classe da população, principalmente aquela elite mais letrada, os próprios militares que tinham alguma simpatia pela coluna", apontou.

Monumento

Em dezembro de 2006, no governo de Lúcio Alcântara e quando a passagem da Coluna completou 80 anos, um monumento foi construído em Crateús com o objetivo de preservar a memória da passagem do movimento pelo Ceará.

A obra de cerca de 14 metros de comprimento foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e construída pelo Governo do Estado, por meio da Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou e com o apoio da prefeitura de Crateús.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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