28 de junho de 2026

Crise do bolsonarismo made in Ceará, por Marcelo Bloc

Michele não aceita a indicação Alcides ao Senado por imposição de André (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

A crise pública entre Michelle Bolsonaro (PL) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi desencadeada em função da disputa por uma vaga ao Senado no Ceará. Na avaliação da ex-primeira-dama, Flávio se alinhou ao grupo liderado pelo deputado federal cearense André Fernandes (PL) na disputa interna sobre a composição da chapa ao Senado.

Embora a ex-primeira-dama tenha afirmado ter sido "maltratada" e "humilhada" pelo enteado durante uma conversa telefônica, os vídeos divulgados por ela nas redes sociais mostram que o ponto de partida do embate é a disputa por uma vaga ao Senado no Ceará.

O estopim do rompimento foi a resistência de Flávio à tentativa de Michelle de viabilizar a candidatura da deputada federal Priscila Costa (PL) ao Senado. A ex-primeira-dama apoia o nome da dirigente nacional do PL Mulher, enquanto o senador teria decidido respaldar a pré-candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes, presidente estadual da sigla.

Nos vídeos publicados no fim da tarde da quarta-feira, 24, Michelle dedicou grande parte da fala ao cenário político cearense. Ela afirmou que sempre atuou no Estado com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e relembrou a participação no lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao Governo do Ceará, em 30 de novembro do ano passado.

Segundo Michelle, Bolsonaro concordava com o apoio à candidatura de Girão ao Governo e de Priscila Costa ao Senado. Na ocasião, Michelle discursou em defesa do apoio a Girão. A André e aos líderes locais do bolsonarismo, ela falou em relação ao apoio a Ciro Gomes (PSDB). "É sobre essa aliança que vocês se precipitaram em fazer".

O movimento gerou repercussão nacional e culminou em uma crise que levou à suspensão, por alguns meses, das negociações envolvendo o PL do Ceará e o ex-governador.

A ex-primeira-dama também resgatou a campanha municipal de Fortaleza em 2024 para sustentar que Priscila teve papel decisivo na tentativa de reduzir a rejeição feminina enfrentada por André Fernandes durante a disputa pela Prefeitura.

"Era uma eleição apertada e havia uma rejeição significativa ao André por parte das mulheres. Foi nesse momento que entrou em campo a vereadora Priscila Costa", afirmou.

Michelle disse que, em vez de reconhecimento, a parlamentar passou a enfrentar resistência dentro do próprio grupo político.

Uma das partes mais duras das críticas nos vídeos foi direcionada ao deputado André Fernandes e às negociações envolvendo uma possível aproximação entre setores do PL e o ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato a governador.

Michelle sustenta que a retirada de Priscila da disputa teria ocorrido para facilitar uma aproximação política entre setores do PL cearense e Ciro Gomes.

"Se o André queria agradar o Ciro Gomes, por que ele não ofereceu a vaga do seu próprio pai?", questionou.

A ex-primeira-dama também relembrou críticas feitas por Ciro ao ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos ao longo dos últimos anos para justificar sua oposição a qualquer entendimento político com o ex-ministro.

A situação cearense levou ao atrito familiar com Flávio. A ex-primeira-dama relatou que, após o evento de 30 de novembro do ano passado, em apoio a Girão, depois de o enteado tê-la criticado publicamente, os dois conversaram.

"Telefonei para ele, tentei algumas vezes, mas ele não atendeu. Algumas horas depois da postagem, ele retornou a ligação. Mas, sinceramente, para falar o que ele me falou, seria melhor se ele não tivesse ligado. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou o telefone. E eu não tinha feito nada contra ele".

Michelle acrescentou sobre o relato: "Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política".

E completou: "Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço".

Personagens da crise

Michelle Bolsonaro

Ex-primeira-dama, é cobrada a se engajar na campanha de Flávio Bolsonaro a presidente. Com o vídeo de quarta, expôs a tensão presente nos bastidores

Priscila Costa

Ex-vereadora recém-empossada deputada federal, tem o apoio de Michelle para concorrer a senadora

Flávio Bolsonaro

Pré-candidato do PL a presidente da República, defendeu a aliança do partido com Ciro Gomes (PSDB). Segundo Michelle, referenda a posição do PL cearense, de lançar Alcides Fernandes a senador, e não Priscila

André Fernandes

Deputado federal, presidente do PL no Ceará e principal líder estadual do partido, é filho de Alcides Fernandes e maior cabo eleitoral do pai como candidato a senador. É também a figura central na costura do PL com Ciro Gomes

Alcides Fernandes

Deputado estadual, pastor, pai de André Fernandes e pré-candidato a senador

Ciro Gomes

Pré-candidato a governador do Ceará, tem apoio do PL e defende uma das duas vagas de senador para o partido

Capitão Wagner

Presidente da federação União Brasil e Progressistas no Ceará, é pré-candidato a senador. No caso de o PL ter duas vagas de senador, ele poderia ficar sem espaço na chapa

Jair Bolsonaro

Ex-presidente da República, em prisão domiciliar, pai de Flávio e marido de  Michelle. Segundo ela, ele está de acordo com todas as movimentações dela, inclusive o lançamento de Priscila Costa

Publicado originalmente no portal O Povo +

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