31 de agosto de 2010

Antonio Raimundo: uma História de Vida

Antonio Raimundo no Trabalho e na pista de corrida
Antonio Raimundo da Silva Neto nasceu no Sítio São Gonçalo, no Município de Assaré, filho de agricultores teve uma infância humilde, visitava a cidade apenas aos domingos para “fazer a feira”, lembra que sempre que chegava em Altaneira pedia para meu avô comprar um pão. Apredeu a ler e escrever com uma professora leiga que lhe ensinava em sua casa, era a época da “palmatória”.

Na década de 70, seu pai aventurou-se pelo Sul do País, o menino Antonio ficou morando com seus avôs. Seu pai foi para uma cidadezinha no Oeste do Paraná chamada Marilena. Na Fazenda “Manoel Neco”, trabalhava na agricultura, poucos anos depois seu avô também resolveu ir para o Sul lá ele lembra que tinha escola na Fazenda onde estudou por três anos. Foi no Rio Paranapanema que o futuro atleta aprendeu a nadar. Após o falecimento do avô sua família decidiu voltar para o Ceará.

Ao voltar para o Ceará veio morar em Altaneira, na casa de seu padrinho Chico Ferreira e continuar nos estudos. Posteriormente sua avó resolveu comprou uma casinha na cidade passando residir com ela. Mesmo na cidade, a sua avó mantinha o estilo de roça. Todo ano ela plantava milho e feijão (para subsistência). Ele detestava trabalhar na roça! Tanto que nas férias, não ia para o sítio para não “pegar na enxada”.
Antonio Raimundo aos 8 anos

Em Altaneira cursou primeiro grau na escola municipal. Não era um aluno bom em notas. Mas era possível observar boa inteligência para assimilar as matérias dadas em sala de aula. Isso porque, sempre na recuperação, tirava nota máxima e resultado: promovido para a série seguinte. Para ele são inesquecível os Mestres Maria Duarte, Deza, Avelardo, Ivanildo, entre outros, lembra que tia Maria sempre o acompanhava de perto. Já Ivanildo, lembra das aulas de educação física, pois era preguiçoso e cansado, ficava sempre na turma de trás.


Nessa época, muito moleque, era “sem noção”. Recém chegado na cidade, tentava acompanhar a turma de garotos, mas nem sempre dava certo, porque na busca de entrosamento, os garotos maiores não permitiam e se insurgiam contra ele. Foram muitas brigas e confusões nessa época, ao menino magrelo era permitido, quando insistia muito, participar das “peladas” no campo de futebol. Como era muito ruim de bola, ia sempre para o gol e mesmo assim, não agradava muito ao time. Lembro uma vez que comprei uma bola e, mesmo assim, fui escalado para o gol.


Outra diversão era ir tomar banho na “barragem”. Juntavam vários moleques e iam tomar banho na barragem. Numa dessas idas, foi insultado e mais uma briga. Como era recém-chegado do Sul do País, usou uma expressão típica de lá, para xingar um dos componentes do grupo. O nome foi “lazarento”. Pronto! A partir daquele dia tinha arranjado um apelido: Lazarento!



Concluído o primeiro grau, foram três anos sem estudos, uma vez que em Altaneira não tinha segundo grau e sua família não tinha como custear seus estudos em outra cidade. Sua avó insistia em voltar para o sítio e cuidar do roçado, no entento o garoto “lazarento” não gostava de “puxar enxada”. Fazia muito “bico” para ganhar dinheiro no armazém de seu Padrinho Chico Ferreira.

Outro serviço freqüente era carregar água para construções de obras públicas da cidade: colégio estadual, casas populares, prefeitura, etc; fazer calçamentos... Em várias casas também trabalhou de servente de pedreiro.

Ao perceber que seus colegas de ginásio seguia nos estudos percebeu que estava ficando para trás decidiu então que iria também continuar estudando. Surgiu uma oportunidade, o exame de seleção da Escola Agrotécnica Federal de Crato. Outros alunos de Altaneira já estudavam no colégio, o que despertou o interesse na Escola.

Era uma luta para ir para o colégio. Sempre faltava o dinheiro para as passagens. Então ele adiantava a ida. Em vez de sair na segunda feira, saía no domingo à tarde, quase sempre acompanhado do colega Cícero Martiniano que morava na saída da cidade. Quando não pegava carona, iam caminhando até a cidade de Nova Olinda, lá sempre se conseguia uma carona para chegar no colégio. Essa saga era na ida e na volta do colégio. Como era “aluno interno” (morava no colégio), ficava até um mês sem andar em Altaneira.

Antonio Raimundo 
em Varzea Alegre
Nessa época já praticava outro esporte – atletismo, inspirado na saga Joaquim Cruz medalha de ouro nos 800m. nas Olimpíadas de 84. Entrou no colégio já com espírito de atleta. Então, vez ou outra, quando ia para casa, em Altaneira, ao chegar em Nova Olinda, entregava a minha mochila para um amigo levar e ia correndo de Nova Olinda até Altaneira (13km), percurso que fazia em aproximadamente 50 minutos.


Como atleta da escola viajou por várias cidades nas redondezas para participar de corridas: Mauriti, Barbalha, Araripina, Crato, Juazeiro do Norte, Salgueiro, Várzea Alegre, etc.


No colégio conseguiu a simpatia dos colegas e por dois anos exerceu a função de gerente da cooperativa; foi melhor aluno em notas da sua turma, nos três anos seguidos. Com isso, foi dispensado das taxas mensais que naquela época era cobrados dos alunos, apesar da escola ser pública.

Antonio Raimundo afirma que muitos professores o iluminaram para o mundo, para a vida. Lembra em especial do “inesquecível o Professor Alberto – meu primeiro Treinador” declara.


No colégio, estudava pela manhã, trabalhava à tarde e volta à noite para a sala de aula em estudo obrigatório. Foram três anos onde aprendeu que o mundo está bem próximo e que é preciso desbravá-lo.

Concluído o curso técnico volta pra Altaneira. Tinha intenção de continuar os estudos, mas não tinha recursos para seguir em frente, foi inscrito por seus professores no vestibular para Agronomia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas, no dia não compareceu. Não via perspectiva de seguir em frente, haja vista a falta de recursos.
A turma de técnicos em agropecuária da EAFC de 1987

Em Altaneira, voltou a fazer “bicos”. Conseguiu um contrato temporário com o Estado para lecionar – português e matemática, 5ª e 6ª séries. Participou ativamente da política, principalmente para as eleições de prefeito de 1988. Foi locutor oficial, compositor e apresentador em palanque do candidato da oposição local.

Encerrado esse período, não via perspectiva de melhoras na cidade. Então era necessário sair para o mundo. Em princípio foi para o Rio de Janeiro. Foram apenas duas semanas. As histórias de violências desanimaram de ficar na cidade. Bateu, então, a idéia de ir para a Região Centro Oeste.


Quando se sai do Nordeste, sempre se tem em mente fazer algum dinheiro e voltar para montar negócio próprio. O seu pensamento era fazer um “pé de meia” e voltar, comprar um sítio e montar uma granja – aviários, pocilga, um apiário, um modelo de produção na agricultura, lançar na prática a teoria aprendida no colégio agrícola.

No Centro Oeste, pensou em ganhar dinheiro no garimpo. Chegando em Goiânia, a informação de que em Mato Grosso, por conta das chuvas, os garimpos estavam todos inundados. Restou o interior do Goiás, numa cidade chamada Pilar de Goiás, deixou seus documentos e roupas com uma senhora dona de um hotel e foi explorar um garimpo no meio da mata, um pouco distante da cidade. Lá ficava debaixo de um barraco. Dormia em cima de um jirau com papelões.

Para ganhar mais, trabalhava 18 horas e descansava 6 horas. O serviço era carregar pedras, areia de um córrego e levar até a draga para extração de ouro. A máquina ficava em frente a uma gruta enorme. Decidiu que aquela não era a vida que queria ao receber o primeiro pagamento da semana recuperou seus pertences no hotel e de madrugada, foi para a rodoviária da cidade e partiu. Já tinha em mente para onde ia. Tinha um amigo que morava em Brasília e imaginou: “é para Brasília que vou”.

Antonio Raimundo em foto 
3X4 para documentos

No dia seguinte, chegou em Anápolis, foi uma manhã de muita imaginação. Nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa. Quase um mês e sem dar notícias a sua família. Estava caindo a ficha: agora estava sozinho pelo mundo e tinha de se virar. Na rodoviária um senhor lhe deu o dobro em dinheiro para trocar o horário da passagem, somou mais um pouco para seguir na sua “caminhada”.


Chegou em Brasília, meio perdido, foi direto para a casa do seu amigo, Antonio Gomes que trabalhava no Carrefour e logo conseguiu uma vaga para trabalhar lá também. Trabalhou por quatro meses e meio, no setor de “Frios”. Ficou encantado com aquele enorme hipermercado; as pessoas, os costumes, estava sempre aprendendo mais. “Festa do queijo e do vinho” uma fartura! Um queijo enorme! O valor do queijo dava para comprar um carro usado. Ele ficava maravilhado com aquilo.


Um dia leu no jornal edital de lançamento do concurso para assistente de pesquisa (técnico agrícola) da EMBRAPA. Esse emprego era o sonho de qualquer técnico agrícola da época. Ele não era diferente. Ficou entusiasmado e fez a inscrição. Passou, então no seu primeiro concurso público. Lembra que foi uma felicidade quando viu seu nome em segundo lugar, mas com os pontos de títulos caiu para o sétimo lugar.


Antonio Raimundo nunca tinha trabalhado como técnico agrícola, foi chamado no primeiro grupo chamado para tomar posse. Quase que perdeu o prazo para posse, pois o telegrama que o convocava não chegou no endereço informado para inscrição do concurso e voltou. A sua sorte foi uma ligação para pedir informação tomou conhecimento da posse.

Trabalhou na EMBRAPA por quatro anos e meio considerava o trabalho da sua vida, inclusive passou a morar na fazenda, era o responsável pela área de irrigação, coordenava uma equipe de técnicos agrícolas.
Olimpíadas da EMBRAPA

O Atletismo para ele sempre foi muito importante, desde os tempos de colégio agrícola. Na EMBRAPA, participava de competições representando a associação dos servidores, merecendo destaque para as Olimpíadas Nacional da EMBRAPA em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, sagrando-se campeão nos 400m, 800m e 5000m.


Colação de Grau no Curso de 
Direito no antigo CEUB
Apesar de gostar do trabalho participou de outros concursos e foi aprovado para o Tribunal Superior do Trabalho, assumindo um cargo com remuneração muito inferior ao da EMBRAPA, mas tinha perspectiva de melhorar, pois tinha oportunidade de estudar. Com menos de um ano de trabalho no TST, sua remuneração duplicou e foi aprovado no vestibular para o Curso de Direito no CEUB, atualmente UNICEUB, na época, a melhor faculdade particular do Distrito Federal.


Foram cinco anos de aprendizado de 1995 a 1999, com colação de grau em 2000. No início, a dificuldade de quem não freqüentava sala de aula há mais sete anos.


Nesse período, a prática do esporte (atletismo) o ajudava muito. Recebia bolsa de 50% no início e 30% no fim do curso. Sempre participava de competição representando a instituição CEUB – Jogos Universitários do Distrito Federal, Jogos Universitários Nacional, Sulamericano Universitário (SP). Nessa época se destacava nos campeonatos de atletismo no Distrito Federal. Foi campeão Brasiliense nas provas de 800m e 1500m nesse período. Foram muitas medalhas e troféus.


Atualmente residindo em casa própria em Brasília, casado com sua namorada desde a adolescência, tem três filhos: um de 19 anos, uma de 11 anos e outra de 6 anos. Experiente, no seu trabalho é bastante conhecido e respeitado pelo que faz, circula no meio jurídico e colabora com o seu conhecimento com os maiores doutos representantes da Justiça do Trabalhista Brasileira.
Antonio Raimundo em atividade no Tribunal Superior do Trabalho
Esta é a história de Antonio Raimundo da Silva Neto, um Altaneirense de coração que venceu na vida, vale, ainda, destacar que ao contrário de outras pessoas que são de Altaneira e se dizem de Assaré para aproveitar a popularidade de Patativa ele costume dizer que é altaneirense, pois, cresceu nas ruas de Altaneira.
Trofeu e Medalhas

11 comentários:

  1. Muito me honra toda essa história de vida. Estou sempre aprendendo.

    Sempre que posso, faço uma viagem no tempo. Volto a Altaneira, ao sítio onde morei, onde brincava, caçava de “badoque”, tinha os meus cachorros amigos e passava o dia andando pelas matas - um nativo. Volto a minha cidade para curtir, para rever os lugares que me fez crescer. Na minha cidade, desgarro-me dos ternos, onde sinto-me meio “quadrado” (engomado). Visto um calção e uma camiseta e sinto-me como se voltasse no tempo. Ao menos uns dias de tranqüilidade, de viagem no tempo. Mas em pouco tempo tenho que voltar. Estou acostumado com a minha vida atual.

    Aquele que saiu de Altaneira pensando em fazer um “pé-de-meia” e voltar, não existe mais. Agora, domiciliado em Brasília-DF, onde trabalho, estudo e pratico esporte como sempre.

    Trabalho com orgulho, gosto do que faço. Trabalho na equipe da Segunda Turma, onde exerço a função de Secretário-Substituto.

    Estudo para reciclar os conhecimentos. Nos tempos de globalização, informatização, temos que estar sempre “antenado”, “mergulhado” prazerosamente nos livros para estar sempre renovando, aprimorando os conhecimentos.

    Pratico esporte como antes. Agora, sem o compromisso do atleta de competição. Mas aguerrido e disciplinado como sempre. São treinos diários de aproximadamente 1h30min a 2h. Mesmo assim, participo de competições aqui em Brasília - competições de até 5km. Viajo para uma Capital de Estado, ao menos uma vez por ano, para participar das Olimpíadas Nacional da Justiça do Trabalho. Nessa competição, sou recordista e tetracampeão nas provas de 800m, 1500m e 3000m – 2006 a 2009.

    Lembro que na corrida que fiz em Várzea Alegre, peguei emprestado um tênis e um calção de Deurisberto que estudava também no colégio. Resultado: ganhei a corrida, fiz sucesso e nunca devolvi o tênis e o calção. Nem sei se o hoje Dr. Soares se lembra dessa passagem. Devo ter sido perdoado. Foi bastante útil o tênis e o calção para mim, por um bom período.

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  2. Mais uma vez, os meus agradecimentos pela matéria feita. Registro que o referido tênis e o short (no comentário acima) é exatamente os que estou usando na foto 4 (ainda com cabelos). Muito Obrigado!
    Antonio Raimundo - Brasília - DF.

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  3. Meu Caro AR, realmente a sua história honra a nossa terra. Você é um vencedor, espero que sirva de exemplo para nossos jovens que ainda não sabem o que querem da vida.
    Quanto a história de Várzea Alegre, realmente não lembrava, mas tá perdoado.
    Parabéns, torço pra ver seu filho nas Olimpíadas no Rio.

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  4. realmente AR e um grande exemplo de vida para todos nos altaneirenses,parabens o Dr Soares pelo reportagem,isso e muito gratificante para cada um de nos altaneirenses...

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  5. Tive a honra de ler essa Belissima História, muito comovente.... Parabéns vencedor....

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  6. Que história de vida! Conhecia um pouco, me emocionei em conhecer toda.
    Parabéns Antonio Raimundo! Que bom seria se todas as histórias de vida dos nossos conterrâneos fossem de vitórias como a sua.

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  7. Meu cumprade foi muito gratificante fazer parte dessa sua história de vida, na escola... lembra daquela corrida em Farias Brito? Doido pra ganhar a corrida e com o premio comprar o presente de minha comadre, mas o pessoal não deixou competir alegando que já era profissional.
    Essa sua história deixa todos nós Altaneirenses muito felizes e com certeza deixa um legado de vida muito rico pra novas gerações.
    A lealdade, honestidade, determinação e luta é com certeza ingredientes fortes para que se consigam grandes vitórias.
    Um Grande Abraço,
    Delvamberto Soares

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  8. Amigo Antonio Raimundo, a sua história merece destaque, é realmente uma bonita história de vida, parabéns pela superação.
    Fico contente por ser mencionado como um dos seus professores, assim como de tantos outros que também superaram grandes dificuldades.

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  9. Que história, só tenho a mim orgulhar de ter um irmão como você, parabens!

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  10. Tive a honra de estagiar no TST e conhecer este grande homem. obrigado por tudo! Kadson

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  11. Fui contemporâneo de Antônio Raimundo no Colégio Agrícola de Crato-Ce. Tenho a felicidade de poder dizer que fui seu amigo. Há alguns anos atrás, visitei-o em Brasília. Pude comprovar que ele mantém as mesmas virtudes.
    E realmente uma história de sucesso. Esse sim, é um exemplo que os nossos jovens atuais deviam seguir.

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