23 de dezembro de 2018

"Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer" por Emerson Maranhão


Houve quem acreditasse na fábula da "Nação Pacificada". Os que integram este grupo tinham certeza que um fato extraordinário se daria, do nada, findas as eleições presidenciais.

Como mágica, as feridas cicatrizariam e as famílias deixariam para trás as mágoas eleitorais e até ensaiariam sorrisos, celebrando o Natal ao lado de parentes até há pouco desafetos.

A estes crédulos, a desilusão fez-senhora logo cedo. As conturbadas posses dos novos parlamentares em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e até aqui, no Ceará, trouxeram evidências inequívocas que ainda há um longo caminho a ser percorrido até a calmaria.

As recentes trocas de insultos, os gritos, as agressões físicas, as coações, as palavras de ordem berradas ao ouvido do "inimigo" latejam qual lesões não cicatrizadas. E anunciam que uma sangria desatada não se estanca por decreto, que não basta um "Levanta-te e anda" para que o finado Lázaro, que nosso sentimento de nação teve por sina, retorne ao mundo dos vivos.

O show de horrores não se deu por satisfeito com os ataques cometidos nas sessões solenes. Ante a possibilidade da soltura do ex-presidente Lula, decorrente de uma decisão do ministro do STF Marco Aurélio Mello, a turba ameaçou tomar as ruas, autoridades e políticos espernearam em público, aventou-se intervenção militar.

Numa sinalização que a aparente normalidade que vivemos depende da negação da dialética e de que determinado estado das coisas obedeça cegamente aos humores e convicções de certo grupo, não por acaso o que saiu vencedor das urnas.

Como dizem os versos daquela famosa canção, "Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer".

Publicado originalmente no portal O Povo Online

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