20 de maio de 2016

"Aquarius é um grito de resistência" Pedro Azevedo

Kleber Mendonça Filho e sua equipe denunciam atual situação política no Brasil em Cannes (Foto: Yves Herman) 
A sessão oficial de Aquarius na última terça-feira, (17/05), no Grand Théatre Lumière certamente entrará para a história como um dos momentos mais importantes do cinema brasileiro no Festival de Cannes. O gesto do diretor Kleber Mendonça Filho e sua equipe, diante dos olhos e lentes da imprensa internacional, de erguerem cartazes denunciando a atual situação política no Brasil, emocionou a plateia brasileira presente na estreia mundial do longa.

Para além dos contextos históricos e políticos, que certamente fortalecem o filme e o dão uma leitura imediata muito especial, Aquarius é cinema de primeira qualidade, primoroso em sua construção estética, estrutura narrativa e munido por uma atuação fabulosa de Sonia Braga, cuja entrega à protagonista Clara é de uma intensidade arrebatadora.

Seria tarefa difícil falar de Aquarius sem fazer alusão à O Som ao Redor (primeiro longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho), já que nos dois filmes o pernambucano toca em temas centrais à experiência social contemporânea e faz um recorte preciso das divisões e tensões de classe no Brasil. É igualmente inevitável deixar de reparar que em ambos os longas, ambientados na mesma cidade do Recife, os personagens/arquétipos parecem reprisar seus papéis/funções (inclusive com boa parte do mesmo elenco), confirmando a tendência de Kleber em explorar um universo fílmico muito próprio e autoral.

Na história, Clara (Sonia Braga) é uma jornalista de música aposentada que reside no último edifício de estilo antigo da praia de Boa Viagem. Ela também é a última moradora a permanecer no prédio que, vítima da especulação imobiliária e investidas agressivas de uma construtora, tem seu futuro ameaçado. A imobiliária Bonfim (reparem na ironia do nome) quer derrubar o Ed. Aquarius para construir um “Novo Aquarius”, mas tem como grande obstáculo a resistência de Clara, que se recusa a abandonar o antigo apartamento e todo o mar de memórias contido nele.

O rigor na composição dos enquadramentos dá um visual classudo ao filme, remetendo a um tipo de cinema do repertório pessoal de Kleber Mendonça Filho, identificado, como ele mesmo confessou em coletiva à imprensa após a exibição, com o cinema americano da década de 1970. Tela larga cinemascope, zoom in, zoom out, grua, grandes planos gerais, tudo isso ao som de canções marcantes de Roberto Carlos e Queen, onipresentes na narrativa, povoam a estética de Aquarius de forma muito orgânica.

Sonia Braga disse, em conversa com um pequeno grupo de jornalistas brasileiros, que identificou muito de sua própria personalidade em Clara ao ler o roteiro, e que o processo de transformação foi especialmente emocionante, numa simbiose muito rica entre atriz e personagem. Essa naturalidade com que Sonia interpreta a protagonista fica evidente na tela, suas falas, silêncios e fisicalidade são muito críveis, realistas, quase palpáveis.

Aquarius é uma grande síntese do Brasil atual através do estudo de uma personagem rica e instigante. Trata-se de um filme necessário em tempos sombrios, um verdadeiro grito de resistência.

Pedro Azevedo é critico de cinema, curador do Cinema do Dragão-Fundação Joaquim Nabuco

Publicado originalmente no portal O Povo Online