31 de outubro de 2015

"Altaneira e o Eixo Histórico-Religioso" por Adriano Sousa

Vista parcial de Altaneira em 1988 (imagem capturado do vídeo do Dr. Eluizo)
A depressão do solo se fez lago. O índio se utilizou disso. O homem branco deu o nome que lhe agradou. Assim nasceu a Lagoa de Santa Teresa e posteriormente o povoado de mesmo nome. 

As famílias foram acomodando-se as margens da lagoa. Ali foram trabalhando, caça, pesca e agricultura. Pecuária para os mais abastados. Avicultura para os sem nome. Para tanto era pouco o dia, mas restava a noite para o descanso. E para a reza. A devoção em Santa Teresa, protetora da lagoa, era professada baixinho no quarto no claro do candeeiro e no silêncio dos corações.

A fé em Santa Teresa exigiu de Elpídio Ricardo de Carvalho, uma imagem daquela santa desconhecida daquele povo. A imagem veio. E a imagem exigiu também uma capela e a capela veio. Mas aí já havia algumas casas formando o que hoje conhecemos como Rua Carneiro de Almeida.

O povoado de Santa Teresa estava aconchegante, ninguém queria mais sair dali. As famílias já estavam acostumadas com aquele estilo de vida de trabalhar e rezar. Os filhos foram construindo famílias e ficando por ali mesmo. O povoado já contava com uma capela para abrigar a devoção de todos; um cemitério para zelo da memória daqueles que iniciaram toda a história; muita terra para o trabalho; uma feira livre aos domingos para troca de animais, venda de querosene para candeeiros, artigos domésticos em palha, como urupemas, abanadores, esteiras...; um café-bar; a escolinha de Fausta Venâncio David.

A diocese achou por bem atender aquele povo e um padre é designado para a freguesia. Padre novo e de família de servos, empolgado, alastra a devoção a Santa Teresa que agora já é padroeira do lugarejo.

Santa Teresa é um lugar agradável de famílias pacatas, simples, devotas e trabalhadoras. As margens da Lagoa se desenvolvem a agricultura e a pecuária. Notícias chegam ali que as providencias oficias e burocráticas deveriam ser resolvidas em Quixará. Município a que pertencia a Vila de Santa Teresa.

O líder político mais conceituado de Quixará, Manoel Pinheiro de Almeida, tinha verdadeira paixão pelo povoado. Uma casa simples e de sua propriedade o abrigava no povoado. Muitos amigos, afilhados, compadres e admiradores. Tudo isso levou Né de Almeida a fazer de Santa Teresa um cenário político a exemplo de Quixará.

A Vila de Santa Teresa ainda não comportava um município, mas nada que não se possa resolver junto as lideranças políticas do estado. Para isso servia a amizade com a Família Furtado Leite. Políticos afeitos a luta e ganho de causas no parlamento estadual. Para dar nome ao projeto, o maior intelectual que já pisou essas terras e, não por acaso, era o vigário que atendia a Vila. Padre Davi Augusto Moreira eleva o nosso povo, os nossos méritos, a nossa luta, os nossos sonhos e a vida. Altaneira. Como as terras em que está encravada a vila.

Euclides Nogueira Santana compõe o Hino Municipal para que o povo conheça o primeiro símbolo de Altaneira.

Tanta fé e tanta gente já carecem de um templo religioso que comporte o povo e a devoção de Altaneira. A capelinha é doada a São José, santa Teresa agora já tem um templo maior.

A cidade começa a se estender no rumo norte das terras onde as condições para a criação do gado bovino são maiores. O vai-e-vem de gado e de vaqueiro são frequentes. Até que um dia morre assassinado um vaqueiro. O lugar foi marcado com uma cruz pela família do vaqueiro. A cruz começou a ser visitada e também começou a receber aos seus pés ex-votos, velas e imagens de santos. Qualquer caminhada do povo de Santa Teresa terminava no Cruzeiro, assim denominada a cruz do lugar onde o vaqueiro morreu. Uma dessas caminhadas acontece na Sexta-feira da Paixão que nunca será a mesma se um dia deixar de existir a Via Crucis da Igreja de Santa Teresa até o Cruzeiro.

Estamos, portanto, convictos de que Altaneira é uma cidade construída sob a fé em Deus e a devoção em Santa Teresa. Portanto, diante do exposto, acredito que Altaneira tem um eixo histórico-religioso que, não por acaso, vai da Lagoa de Santa Teresa até o Cruzeiro. O povo altaneirense, de vez em quando, deve voltar a esse eixo para não perder o rumo da história, da cultura e do bom-senso e não esquecer a sua essência de povo.

Francisco Adriano de Sousa, Cronista, graduado em Letras pela Universidade Regional do Cariri, atualmente reside no Município de Araripe.