2 de novembro de 2014

Camilo Santana fala da trajetória, de família e do futuro governo

Camilo Santana, eleito governador do Ceará conversou com editores do jornal O POVO em seu apartamento (Foto: Edimar Soares)
Camilo Santana entrou na política em 2000 como candidato, na época pelo PSB, à prefeitura de Barbalha, no Cariri, a 553 km de Fortaleza. Perdeu, voltou a ser derrotado quatro anos depois, em nova tentativa, já no PT, e, no momento em que se prepara para tomar posse no cargo de governador do Estado, faz uso dos episódios que sempre vai para as disputas sabendo que pode ganhar ou perder. 

A principal referência dele na vida pública é o pai, ex-deputado Eudoro Santana, a quem viu ser retirado de casa por militares durante a ditadura, numa cena que o marcou e ainda nos atuais passeia por sua memória. Outro referencial importante para Camilo é o governador que sucederá, Cid Gomes, de quem foi secretário de Desenvolvimento Agrário (primeira gestão) e Cidades (segunda).

Único dos quatro filhos de Eudoro e dona Ermengarda a optar pela vida pública, admite que enfrentou a resistência da avó, morta dois anos atrás, para trilhar o caminho da política. Ela alertava para o risco de se expor a ataques na vida particular, exatamente como diz ter sofrido nesta campanha.

Camilo recebeu repórteres do jornal O POVO em seu apartamento, na manhã da última quarta-feira, para conversa que tem seus trechos principais editados a seguir:

O POVO - O senhor lembra do momento em que foi comunicado pelo governador de que seria o candidato?
Camilo Santana - Foi no sábado, pela manhã (28 de junho). Ele me ligou e disse que o conjunto de partidos havia me indicado para representá-lo na disputa...

OP - E disse “sim” de imediato?
Camilo - Perguntei se estava à altura de cumprir a missão. Porque, realmente, era uma coisa muito forte, até pelo fato de existirem vários outros candidatos se colocando à disposição. É um desprendimento, porque não era alguém do partido dele. Demonstração de que o projeto não é uma coisa só partidária ou só individual.

OP - No dia em que foi lançada sua candidatura, o senhor lembrou do dia em que militares chegaram à sua casa para levar preso seu pai, Eudoro Santana, na época da ditadura. De que forma esse episódio e a trajetória dele lhe marcaram?
Camilo - Papai é, pra mim, um exemplo, uma referência de vida, de política. Papai era funcionário da Petrobras, morava lá na Bahia, foi demitido na época da ditadura, perseguido. Voltou a morar no Cariri porque meus avós conseguiram um emprego para ele lá. Ele passou 15 ou foi 18 dias fora. Minha mãe estava grávida. Lembro da volta dele. Aquilo tudo me marcou, tinha sete, oito anos.

OP - O senhor consegue entender porque é o único dos quatro filhos que seguiu a vocação política do pai?
Camilo - A atuação política de cada um pode ser vista de várias formas. Meu irmão, Tiago, contribui muito com a arte pela maneira como olha o mundo, como fotógrafo. A minha irmã, apesar de morar fora do País, também. Claro que o ramo mais árduo é esse, de seguir carreira pública, porque a política partidária é muito desacreditada. Minha avó sempre dizia para eu não entrar nessa vida. Dizia que iriam me chamar de ladrão. E eu dizia: “Vovó, se não existirem pessoas dispostas a construir a diferença, como vamos mudar?”

OP – O senhor falou da importância do Eudoro para a vida pública, mas a dona Ermengarda, sua mãe, também tem sido relevante.
Camilo – Claro, inclusive porque mamãe é mais política do que o papai. Ela foi vice-prefeita de Barbalha, começou um trabalho importante de organização das comunidades, das associações, de base mesmo. Apesar de ter resistido muito à ideia de ser candidata. Chegou a chorar.

OP – O governador Cid, quando eleito, trabalhou para atrair a oposição. O senhor pretende conversar com o PMDB e com o resto da oposição?
Camilo – Nós temos um lado. Fomos eleitos por um lado. Quando falo de unir o Ceará, falo do ponto de vista de todos os cearenses. Faremos um governo de muito diálogo com setores da sociedade. Isso não quer dizer que não vá dialogar com os outros partidos.

OP – Houve uma fissura na antiga base do governo, com a saída do PMDB. O senhor está preparado para ter uma oposição maior?
Camilo – Oposição é importante. Até para se fazer uma autoavaliação. Espero que seja uma oposição responsável, propositiva. Não oposição raivosa por conta da derrota eleitoral. Oposição é parte da democracia. Não na perspectiva de disputa de poder ou espaço, mas na busca do melhor pro Ceará.

OP – O senhor falou, após eleito, em retomar o diálogo com os policiais. Na opinião do senhor, vai ser mais fácil do que seria para o governador Cid Gomes retomar esse diálogo, em função do desgaste que houve?
Camilo – É um novo governo. E, repeti isso diversas vezes, o papel da Polícia é garantir a segurança do povo do. Vou saber respeitar, dialogar. Agora, não vou admitir que não se garanta cumprir a missão que o povo espera.

OP – Há reclamações quanto a punições que têm ocorrido em relação a policiais. O senhor fala que não vai transigir em relação a garantir a segurança da população. Há margem para rever as punições?
Camilo – Em todas as áreas há excessos, desvios. Vamos exigir que a lei, a hierarquia, a disciplina sejam cumpridas. Isso não quer dizer que não vamos dialogar.

 OP – Outro desafio será pacificar o PT. Houve segmentos importantes, dos quais faz parte a ex-prefeita Luizianne Lins, que não reconheceram a candidatura como candidatura do PT. Como o senhor pretende atuar?
Camilo – Eu não gosto muito de falar do passado, mas a minha decepção é que essa parte do PT não pensou no projeto político. Todo mundo sabe quem é Camilo, todo mundo sabe de minha história. Fui militante com a Luizianne na universidade. Acho que a política e a vida partidária não podem ser feitas em nome ou de uma tendência ou de interesses individuais. Quando foi decidido que o Elmano (de Freitas) seria candidato (a prefeito de Fortaleza, em 2012), respeitei, fui pra campanha. Isso é ético dentro da política. Mas vamos falar de futuro.

 OP – O senhor vai tomar alguma iniciativa, ou já tomou?
Camilo – Eu liguei para a Luizianne quando ela foi eleita. Para parabenizá-la. Pedi o apoio no segundo turno. Não tenho problema. Espero que o partido, como me deu apoio na decisão do diretório estadual, possa também dar o suporte necessário (no governo).

OP – Como o senhor se sente com o PT, no âmbito municipal, fazendo oposição à gestão Roberto Cláudio?
Camilo – Tem vários municípios do Ceará onde o PT é oposição ao Pros, onde o PT briga com o PMDB. Essa coisa é muito específica. Vamos trabalhar essa questão ainda.

 OP – O fato de estar assim hoje não quer dizer que vai estar assim em 2016?
Camilo – Só daqui a dois anos. O prefeito Roberto Cláudio me apoiou, apoiou a presidenta Dilma. Isso não é importante para o projeto do PT nacional? Não existiu uma campanha, talvez, no Brasil que fosse mais vinculado o governador, o prefeito da Capital e a presidenta Dilma do que a nossa aqui.

OP – Vou comparar o estilo mais pessoal. O senhor diria que os fotógrafos vão sentir falta do estilo Cid Gomes, com o senhor? Como no mergulho que ele deu nos braços da multidão durante a festa do primeiro turno? O senhor é mais contido que ele.
Camilo – Isso é bom... Pode ser que eu surpreenda mais ainda (risos).

Publicado originalmente no portal O Povo Online