16 de novembro de 2016

“Golpistas e usurários” por Mino Carta

Liga Paulo Henrique Amorim, pergunta: “Você leu a entrevista de Sergio Moro no Estadão?” Não li, mesmo porque não me aproximo da mídia nativa, a não ser que alguém devidamente habilitado a tanto sugira a leitura desta ou daquela página, a bem da minha edificação cultural.

Confio, porém, em Paulo Henrique, o qual sentencia: “Pobre moço, incapaz de uma única, pálida ideia”. Donde, não lerei, estou cansado de tolices sem conta, deste besteirol desenfreado. Mais ainda, do crime cometido contra o Brasil, sem que inúmeros brasileiros se deem conta. E aqui aproveito a oportunidade para informar que me preparo para duas semanas fora do País, em busca de melhores ares.

Pois é, viver no país da casa-grande e da senzala me deixa exausto. Por exemplo: há de ser extraordinário o esforço mental para qualificar o grau de insanidade atingido pelos golpistas no poder. Sublinhe-se um dado fundamental: o Brasil ostenta impavidamente juros de 14%, enquanto o país a praticar os maiores depois do nosso é a Rússia de Putin, com 2,8%, enquanto a União Europeia tem juros negativos. O que concluir?

Pretende-se garantir o rentismo na sua versão mais desbragada, a felicidade dos fabricantes de dinheiro em espécie em lugar de bens e serviços. É o triunfo de um punhado, contra a desgraça da larga maioria, a começar pela mão de obra. Rasga-se não somente a Constituição de 1988, mas também a CLT, que, pasmem caso não saibam, foi inspirada na Carta del Lavoro, obra do jurista Alfredo Rocco a serviço de Mussolini.

À época em que Getúlio Vargas a pôs em vigor, significava um avanço excepcional para o Brasil de então. O Estado mínimo que os golpistas no momento nos impõem vai além do fascismo e joga ao lixo até a garantia dos trabalhadores reconhecida pela ditadura totalitária do Duce.

Há outra diferença, aliás, em relação ao regime mussoliniano: este era nacionalista. O estado de exceção que hoje nos vitima é simplesmente entreguista e loteia o País para vendê-lo a quem se apresentar, por via direta ou por meio das privatizações.

A casa-grande privilegia ao mesmo tempo os usurários indígenas e o capital estrangeiro. Mais que sandice pura, é crime, como já disse, cometido contra a soberania nacional e os interesses da maioria dos cidadãos, mesmo aqueles que não têm consciência da cidadania.

Insanidade? Depende do ponto de vista. A minoria rentista esfrega as mãos de deslumbrado contentamento. Atiro-me, não sem ousadia, a evocar a piada do escorpião: em meio ao dilúvio, pede carona à rã. “Não caio nesta – diz o batráquio –, você vai me picar.” “Se fizer isso que você teme – retruca o escorpião –, eu me afogo na enxurrada.”

O argumento soa convincente e a travessia começa. Lá pelas tantas, o bicho mau cede, porém, à sua natureza e dá a ferroada fatal. “Mas como? Assim morremos ambos”, consegue suspirar a rã. “Pois é – comenta, soturno, o passageiro –, eu não sei nadar, mas que fazer? Eu sou escorpião...”

Que esperar dos planos tresloucados do governo da casa-grande? A curto prazo, a maior crise da história, de consequências imprevisíveis e, certamente, de imensa, irreparável gravidade. Às vezes, no olho do ciclone, o homem desafiado encontra força e inteligência para escapar. De qualquer maneira, o risco é espantoso, para todos, e expõe antes os vencedores contingentes do que os vencidos.

O capítulo em andamento de um enredo, de início tragicômico e agora somente trágico, nos empurra para o desastre ciclópico, a hecatombe material e moral, geral e irrestrita. A contribuição da ignorância e da parvoíce verde-amarela a tal desfecho é determinante. Escrevi no introito a esta peroração que não leio, e menos ainda ouço e assisto aos jornalistas nativos em ação para poupar de humores sombrios o percurso esticado entre o fígado e a alma.

Figuras como Sergio Moro cabem à perfeição na moldura. Já li da lavra dele bobagens inomináveis e não preciso ler outras. Trata-se de personagem exemplar, na sua vaidade, provincianismo, empáfia. Cavalga, desassombrado, seu imensurável narcisismo, obviamente parvo.

Publicado originalmente no portal Carta Capital