19 de dezembro de 2016

2016: um ano de verdades invertidas

Nos três últimos meses da campanha eleitoral norte-americana, foram registradas no Facebook 960 mil reações - entre curtidas, comentários e compartilhamentos - à notícia de que o papa teria declarado apoio a Donald Trump. Outras 789 mil interações deram conta do vazamento do WikiLeaks, segundo o qual Hillary Clinton teria vendido armas ao Estado Islâmico. Ambas as informações são falsas até a última letra.

As 20 histórias falsas mais populares da rede renderam um total de 8,711 milhões de interações nesse período. Enquanto isso, os 20 principais fatos reais publicadas pelos mais importantes sites de notícias do Estados Unidos registraram 7,367 milhões de reações. 2016 foi um ano de “pós-verdades”, de crenças pessoais usurpando o lugar antes ocupado por fatos objetivos e fontes confiáveis.

E “pós-verdade” (“post-truth”) foi a palavra escolhida pela Oxford Dictionaries para representar o ano que se encerra. Depois de eleger um emoji para 2015 ( X ), o departamento da Universidade de Oxford destacou um termo que se refere às circunstâncias nas quais “fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião púbica do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Em outras palavras, fomos deliberadamente mais cegos em 2016.

Para os próximos anos, o cenário não parece ser de informações legitimadas. É no que acredita o jornalista Pedro Burgos, editor do site The Marshall Project, de Nova York, e mestre em jornalismo social pela City University of New York ouvido pelo O POVO. “Os boatos e teorias da conspiração não irão embora tão cedo, porque eles satisfazem o nosso desejo de afirmar o que já acreditamos, além de serem baratos de serem produzidos”, comenta.

Das 20 notícias falsas que mais geraram interações nos meses que antecederam as eleições nos Estados Unidos, 17 são ou favoráveis ao candidato eleito Donald Trump ou críticas à campanha de Hillary Clinton. Muitas delas são variações de supostas denúncias que relacionariam a candidata democrata ao Estado Islâmico e de acusações envolvendo a Fundação Clinton.
Das falsas notícias que depõem contra o candidato republicano, chama atenção a que dá conta de que a drag queen Rupaul acusou Trump de tocá-la inapropriadamente em uma festa em 1995. “Eu tinha acabado de sair do banheiro quando Trump pulou em mim e me beijou. Ele começou a tocar minha bunda e puxou meu vestido para tocar meus genitais. Ele apenas queria me usar como um objeto”, teria declarado. A notícia gerou 285 mil interações entre agosto e outubro.

Analisando a surpreendente eleição de Trump para a presidência, o que contrariou as expectativas gerais da imprensa, Burgos cita falhas dos grandes veículos de comunicação na cobertura da campanha eleitoral. “A imprensa não ouviu os eleitores de Trump. Vários jornalistas nunca viram ao vivo um eleitor seu”, comenta ele, destacando que a parte mais importante da mídia americana vive na bolha geográfica de Manhattan, onde o candidato teve apenas 11% dos votos. Além disso, os repórteres teriam demonstrado um “excesso de confiança” nas pesquisas que previam de maneira unânime a vitória da democrata.

No Brasil, as notícias falsas disputaram protagonismo em pelo menos dois momentos de nossa turbulenta marcha política. Na semana que antecedeu o domingo de votação do impeachment na Câmara dos Deputados, três das cinco notícias mais compartilhadas no Facebook eram falsas. Veiculada pelo site Pensa Brasil, a notícia “Polícia Federal que saber os motivos para Dilma doar R$30 bilhões a Friboi” teve 90.150 compartilhamentos. Outra matéria, dando conta de que o presidente do PDT teria ordenado que a militância pró-Dilma “atirasse para matar”, foi compartilhada 65.737 vezes.

O ano também foi da Operação Lava Jato, e as dez notícias mais compartilhadas em 2016 sobre o assunto são falsas. “Bolsonaro é citado na Lava Jato” registrou 596 mil interações, e “Médico do PT diz que Lula está com amnésia e não vai poder depor nunca mais” marcou outras 549 mil. As principais notícias inverídicas somaram quase 4 milhões de interações, enquanto as dez verdadeiras mais populares não chegaram aos 3 milhões.

A proliferação de notícias falsas no campo livre das redes sociais lança luz sobre o papel do Facebook e do Twitter em uma sociedade hiper informada. Para o professor de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) Rogério Christofoletti, o problema aparece quando as redes sociais assumem o protagonismo que não lhes pertence. “Elas não estão cumprindo o papel de oferecer informação de qualidade. As redes sociais podem auxiliar no jornalismo, mas não fazem jornalismo”, defende

Outro reflexo do uso cada vez mais difundido desses sites é o estabelecimento de bolhas sociais particulares, ambientes artificialmente controlados onde o dissenso não existe, onde todos concordam com todos. Nesses espaços, notícias falsas que atestem suas crenças proliferam com facilidade. “Sabemos que o mundo real não é assim, e que a discordância é essencial para termos acessos a visões plurais que podem nos mostrar aspectos que ignorávamos em um fato”, avalia Christofoletti.

Publicado originalmente no portal O Povo Online