23 de dezembro de 2016

"Pagando o pato" por Luiz Gonzaga Belluzzo

A sede da Fiesp, na Paulista, aglutinou os patos do impeachment em torno do pensamento mágico do fora Dilma, mas "a retomada" virou pataquada (Foto: Everton Amaro)
Depois das exibições do pato na Avenida Paulista para “animar” o impeachment de Dilma Rousseff, a Fiesp descobriu quem está pagando as façanhas do próprio anatídeo. No popular, as empresas brasileiras estão pagando o pato. Assim o demonstra o excelente e certeiro estudo do Departamento de Competitividade e Tecnologia da federação que congrega os industriais paulistas.

Já na abertura, o estudo desfia as razões das graves dificuldades financeiras vividas pelas empresas: “A melhora da confiança que vimos com a mudança de governo não está se transformando em melhor desempenho da economia. A expectativa de crescimento do PIB está caindo, tanto para este ano quanto para o próximo. Para 2016, o mercado esperava que o PIB fosse crescer -3,17%, mas agora já espera -3,44%. Para 2017, a expectativa de crescimento passou de 1,34% para 0,96%”.

As reiteradas decepções das expectativas e as frustrações da confiança, diz o documento, “se devem ao desempenho ainda muito ruim de variáveis como vendas no varejo, com queda de 6,6% nos 12 meses encerrados em setembro, e produção industrial, que diminuiu 7,9%, nos 12 meses encerrados em outubro”. 

 A derrocada nas vendas do comércio e na produção industrial, prossegue o estudo, “se deve ao desempenho ainda muito ruim de variáveis como a taxa real de juros básica, que passou de 3,5% ao ano em janeiro para mais de 9% em novembro. Isso acontece porque a inflação está caindo, enquanto a Selic só diminuiu 0,25 ponto porcentual. O crédito às empresas caiu 12,8% nos 12 meses encerrados em outubro e o crédito às famílias, 3,4%. Os investimentos declinaram 13,5% nos 12 meses encerrados em setembro”.

Segue o enterro: além de seus efeitos negativos sobre o investimento, “a alta na Selic tem efeito perverso sobre o spread e a inadimplência, que, desde janeiro de 2014, aumentou 33%, enquanto o spread cresceu 81%, ou seja, mais do dobro. A partir de 2015, os bancos começaram a aumentar os spreads para se provisionar contra a inadimplência, que, até então, era estável. O aumento dos spreads causou o próprio crescimento da inadimplência, concretizando uma espécie de profecia autorrealizável”.

Tradução livre: as decisões “racionais” do ponto de vista microeconômico prestam homenagem às falácias de composição que infestam os modelos macroeconômicos. O que parece bom para o ‘agente individual’, seja ele empresa, banco ou consumidor, é danoso para o conjunto da economia.

 As investigações da Fiesp chegam a conclusões semelhantes àquelas que apresentamos há poucas semanas. Dizíamos então: em fevereiro de 2013, o Boletim Focus, que reúne as projeções dos “principais economistas do mercado”, previa crescimento do PIB de quase 4% ao ano para 2014, 2015 e 2016.

Após o crescimento de 0,5% em 2014, a economia do País caminha para o segundo ano consecutivo de retração de quase 4%.

O desempenho pífio de 2014 instigou o “consenso” em torno das políticas econômicas que deveriam ser adotadas tempestivamente. Depois de conceder isenções fiscais para grandes grupos econômicos – a turma do pato –, a política econômica brasileira deu um choque de tarifas, dobrou a taxa de juros e perpetrou um ajuste fiscal que concentrou cortes em investimentos públicos.

O mergulho depressivo iniciado entre o crepúsculo de 2014 e a aurora de 2015 pode ser apresentado como um exemplo do fenômeno que as teorias da complexidade chamam de “realimentação positiva” ou, no popular, “quanto mais cai, mais afunda”.

A interação entre o choque de tarifas, a subida da taxa de juros, a desvalorização do real e o corte dos investimentos públicos determinaram a elevação da inflação em simultâneo à contração do nível de atividade e daí à restrição do crédito. O encolhimento do circuito de formação da renda levou, inexoravelmente, à derrocada da arrecadação pública. 

A combinação entre choques negativos de oferta e seus efeitos sobre a renda agregada da economia suscitou um processo de “realimentação positiva” decorrente das reações de autoproteção das empresas, bancos e consumidores, estes ameaçados pelo desemprego.

As fábricas se encharcam de capacidade ociosa. Endividadas em reais e em moeda estrangeira, as empresas são constrangidas a ajustar seus balanços diante das perspectivas de queda da demanda e do salto no serviço da dívida.

Para cada uma delas era racional dispensar trabalhadores, funcionários, assim como, diante da sobra de capacidade, procrastinar investimentos que geram demanda e empregos em outras empresas. Para cada banco individualmente era recomendável subir o custo do crédito e racionar a oferta de novos empréstimos.

Os consumidores, bem, os consumidores reduzem os gastos. Uns estão desempregados e outros, com medo do desemprego. Assim, o comércio capota, não vende e reduz as encomendas aos fornecedores, que acumulam estoques e cortam ainda mais a produção.

As demissões disparam. A arrecadação míngua, sugada pelo redemoinho da atividade econômica em declínio. Isso, enquanto a dívida pública cresce sob o impacto dos juros reais e engorda ainda mais os cabedais do rentismo caboclo.

Pedidos de “paciência” ou “controle da ansiedade”, em meio a celebrações de economistas pela queda do salário real, chocam-se com a realidade da vida das pessoas de carne e osso e denunciam a dissonância da narrativa da retomada da confiança com os movimentos da economia concreta.

A confiança do empresário é a demanda e a do trabalhador, seu emprego. Ao redor do globo, governos buscam:
1. Dinamizar suas economias com baixas taxas de juro.
2. Parcerias com a iniciativa privada na coordenação e promoção de investimentos em inovações, à procura de protagonismo na nova revolução industrial.
3. Programas maiores e de longa duração na melhora da infraestrutura pública, os quais, nas palavras da The Economist, “dariam às empresas privadas uma maior confiança sobre a demanda futura e tornariam mais provável uma recuperação sustentada”.

A mídia brasileira espargiu a convicção da rápida recuperação do crescimento econômico, pois a confiança havia sido restabelecida e o hiato do produto ampliado. A crise purgaria rapidamente os excessos decorrentes dos “estímulos artificiais”

Publicado originalmente no portal Carta Capital