29 de junho de 2018

O que explica Bolsonaro por Érico Firmo

Jair Bolsonaro (PSL) foi recebido por multidão em Fortaleza. Em todas as pesquisas, o Nordeste é a região na qual ele se sai pior. Na CNI/Ibope divulgada ontem, ele tem 7% na região no cenário com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e 10% na simulação sem o petista. Entre os nordestinos, fica atrás de Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT), além do próprio Lula. Mesmo assim, sobretudo em capitais, tem apoiadores o bastante — e suficientemente mobilizados — para promover atos como o de ontem. 

Ele está em Fortaleza, território de Ciro, porque precisa crescer na região. Desde 1989, quem vence no Nordeste vence no Brasil. Mesmo mal nas pesquisas na região, ele deu demonstração de força no Estado nordestino mais difícil para qualquer candidatura que não seja de Ciro ou Lula. Como explicar esse apelo, essa capacidade de mobilizar, particularmente jovens?

Para entender Bolsonaro, é necessário compreender o momento que vive o Brasil. É tempo de paixões e iras arrebatadoras, irracionais. De polarizações, caça às bruxas, quase nenhuma disposição de diálogo. Nesse cenário exacerbadamente emocional, cria-se o ecossistema anaeróbico no qual esse tipo de candidatura pode proliferar. Num cenário de decisões tomadas pela racionalidade, jamais alguém com tal perfil e semelhante discurso chegaria aos dois dígitos. Talvez não saísse do traço. No panorama em que cá estamos, eis a situação do postulante do PSL.

Só uma coisa explica a força de Bolsonaro: o ódio. As pessoas estão com raiva, querem gritar, escrever em caixa alta nas redes sociais. O pré-candidato do PSL personifica como ninguém essa coisa revoltada, sem rumo ou lógica. Nada mais emblemático do Brasil do que os haters — odiadores, em tradução livre. As pessoas que ocupam os comentários no Facebook e afins para exalar manifestações furiosas e sem critério. Bolsonaro é o candidato esculpido e acabado para atender aos haters.

A simpatia por ele é explicada por aquilo que ele combate. O PT passou 13 anos no governo, essa geração se formou não conhecendo outro partido no poder. A perpetuação nos cargos cobra seu preço, sempre cobrou. Um deles para os petistas foi o desgaste profundo do partido e da própria esquerda. Então, muita gente vota nele porque combate furiosamente qualquer inclinação progressista. (Quando Lula foi eleito, Bolsonaro foi até a residência oficial fazer lobby, defender indicações para cargos e disse que não tem problema nenhum com comunista...).

Ele emerge, também, enquanto ganham força movimentos contra machismo, racismo e por direitos das populações LGBTI. Apoiadores de Bolsonaro transitam entre os que acham que tudo isso é chatice e “mimimi” até os que praticam diretamente as opressões que esses grupos combatem. E Bolsonaro abraça esse discurso. Acha que não existe privilégio, que seguranças de shopping não vigiam garotos negros quando entram nas lojas, que mulheres não escutam todo tipo de absurdo — assédio, em bom português — quando andam na rua ou vão a uma festa. Que gays não são ofendidos, ridicularizados ou agredidos.

Afora aqueles que Bolsonaro combate, a candidatura não oferece rigorosamente nada. Um deserto de ideias, formulação. Está reunido nele o combo explosivo de personalismo, autoritarismo, uso político da religião. Abraçou um pensamento econômico liberal alguns meses atrás, ao perceber que é a moda entre os conservadores tupiniquins. Pouco importa que seja o oposto do nacionalismo estatista que ele próprio apregoou a vida toda. (Estão a um Google de distância os elogios que fez quando Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela).

Em educação, saúde, ciência e tecnologia, meio ambiente, Bolsonaro é de uma aridez saariana. Cultura, meu Deus do céu. A entrevista coletiva de ontem teve tons de galhofa. A força de Bolsonaro é incontestável e as questões que suscita vão além da eleição. Ela é sintoma do estado de coisas, da mentalidade estabelecida, do momento em que o Brasil está.

Publicado originalmente no portal O Povo Online