10 de junho de 2018

"Os liberais-conservadores" por Luis Lima Verde Sobrinho

A fauna brasileira é prenhe de animais exóticos, tais como a anta, o bicho preguiça, o tatu-bola e o besouro rola-bosta. Mas não é só nas nossas matas que desfilam seres esquisitos. Há na sociedade dos homens certa figura assaz estranha e incompreensível. Refiro-me aos sujeitos que defendem o liberalismo econômico e o conservadorismo social. Seu habitat, ultimamente, tem sido as redes sociais, onde se multiplicam, vitaminados pela crescente disseminação do ideário ultradireitista.

Tais indivíduos, no campo econômico, pregam a liberdade plena e desvigiada do mercado, sem interferências estatais na livre iniciativa, na política de juros e de preços, nas relações de consumo, na concorrência empresarial etc. O mercado é uma espécie de deus, virtuoso e incorruptível, digno de veneração e absoluto respeito.

Limitá-lo ou discipliná-lo secundum legem é heresia, tal qual o assassínio de uma vaca na Índia. Dentro dessa perspectiva, liberdade é sinônimo de democracia, civilidade e desenvolvimento. Até aqui,tudo bem. O liberalismo – seja o econômico, de Adam Smith, ou o jurídico, de John Locke – é uma das teorias políticas seminais da humanidade, diretamente responsável pelo surgimento da ideia de direitos e garantias fundamentais inalienáveis dos indivíduos, assim como pelo fortalecimento dos postulados da democracia moderna.

Só que agora vem a face estranha daquela gente. Junto com a pregação desse liberalismo econômico, erguem eles o estandarte do tal conservadorismo social. Diferentemente do que desejam para o mercado, nas relações sociais defendem a presença de um Estado forte e censor, impositor de regras comportamentais, afetivas e sexuais, sustentáculo da moral, dos bons costumes, da família “tradicional” e da fé cristã. Aqui, portanto, liberdade é sinônimo de baderna, anarquia e subversão da ordem.

Gente mais esquisita: liberdade para o mercado e censura para as pessoas; para o dinheiro, trovas de amor, para os indivíduos, trevas de pavor. Pode-se chamar isso de síndrome da bipolaridade política.

Quanto aos bichos exóticos da fauna brasileira, estes sim, torço para que consigam multiplicar suas espécies e que jamais entrem em extinção, inclusive o rola-bosta.

Publicado originalmente no portal O Povo Online