26 de agosto de 2017

"Direita e esquerda para além do Estado" por Érico Firmo

Quem entrou há pouco tempo na discussão sobre direita e esquerda pensa que a questão sempre foi o tamanho do Estado. Não é assim historicamente, nem é assim hoje no mundo todo. Os conceitos se adaptam e se transformam no tempo e no espaço. 

Na Revolução Francesa, quando esses conceitos surgem, direita e esquerda exprimiam duas correntes de revolucionários: moderados e radicais.


No começo do século XIX, a grande dicotomia política era entre liberais e conservadores. Ser liberal, nessa época, era revolucionário. O conservadorismo era reação ao Iluminismo, à Revolução Francesa. Lutava pela restauração do Antigo Regime e das ideias absolutistas. Nada mais estatizante que essa direita clássica.

Já as ideias socialistas, em sua origem, eram antiestatizantes. Eram próximas do anarquismo, aliás. Uma das divergências entre os marxistas e o anarquista Mikhail Bakunin era porque este último discordava da necessidade de manter um Estado, mesmo transitório, como propunha Karl Marx. O filósofo francês de origem argelina Louis Althusser falava dos “aparelhos ideológicos” estatais como força repressora. O italiano Antonio Gramsci reforçava se tratar o Estado de instrumento de dominação e coerção da burguesia.

Na I Guerra Mundial, a esquerda não se apegava à ideia de Estado, muito menos de nação, daí se opor à guerra. Na tradição leninista e stalinista, a esquerda se torna radicalmente estatizante. Essa é a matriz principal da esquerda brasileira, em torno do antigo partidão. O PT, sob influência gramsciana, não nasce estatista. Os esquerdistas brasileiros e na América Latina são mais adeptos da estatização do que na maior parte do mundo.

Por outro lado, a UDN, partido que talvez melhor representou a direita no Brasil, chegou a votar a favor da emenda que fortaleceu o caráter estatal da Petrobras - o texto original do governo Getúlio Vargas configurava praticamente uma empresa de economia mista, já à época. Donald Trump, que creio ninguém discordar de ser alguém de direita, adota reiteradamente medidas protecionistas e de fortalecimento do mercado nacional, em detrimento do livre comércio.

Esses conceitos de esquerda e direita não são tão simples e lineares. Tampouco se repetem de forma idêntica em todos os países. Ser de esquerda na Espanha não é sinônimo do PT. Centro, no Reino Unido, não é um PMDB. A direita alemã tampouco é o DEM

Publicado originalmente no portal O Povo Online