30 de agosto de 2017

Lula e Camilo; Ciro e Tasso por Érico Firmo

Do ponto de vista da política local, a passagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo Ceará é a mais complexa de todo o percurso do ex-presidente pelo Nordeste. A presença do governador Camilo Santana, que é petista, só foi confirmada no início da semana. É a situação mais delicada que os partidos do bloco oposicionista federal precisam administrar. 

O único pré-candidato desse campo político a se contrapor a Lula é do Ceará: Ciro Gomes (PDT). Camilo é petista, mas chegou ao poder com base no suporte eleitoral do grupo Ferreira Gomes. Governa com sustentação do PDT, maior partido do Estado, comandado pela família de Ciro. 

O governador se tornou muito mais próximo ao clã ciro-cidista que ao PT. Já recebeu aval do próprio Lula para apoiar o ex-governador cearense em sua provável terceira empreitada presidencial. Cogitou-se sua saída do PT. Camilo não descarta nem confirma. Está atento ao prazo: abril do ano que vem. Até lá, acompanha os acontecimentos. Dá sinais a favor de Ciro, outros por Lula. Surfará na onda mais conveniente em 2018.

Não faz sentido para Camilo bater de frente com o PT sem estar certo de que Ciro será mesmo candidato. Também não se sabe se Lula concorrerá. Composição entre os dois não é impossível. O governador cearense está no meio da confusão e pratica equilibrismo. O estilo de Camilo sempre foi o de manter as portas abertas.

Nas duas outras eleições presidenciais nas quais Ciro foi candidato, a situação foi parecida no Ceará. O governador era Tasso Jereissati (PSDB), à época padrinho e aliado-irmão dos Ferreira Gomes. Mas, as posturas foram diferentes nas duas circunstâncias. Variaram conforme a posição como Ciro se colocava na disputa.

Em 1998, Tasso apoiou a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), mesmo com Ciro no páreo. Na ocasião, o ex-governador se lançava na primeira empreitada presidencial, sem qualquer chance real. Teve 10% dos votos no País e foi o terceiro colocado. No Estado, foi o primeiro, com 27,5%. Para isso, teve voto de muitos apoiadores de Tasso. Mesmo com respaldo do governador, FHC foi apenas o terceiro entre os eleitores cearenses, com 24%. Além do ex-governador cearense, perdeu também para Lula, que teve 26%.

Já em 2002, o quadro foi diferente. Tasso apoiou Ciro de forma decidida e o ex-governador teve 44% dos votos cearenses. Lula teve 39% e José Serra (PSDB), 8%. Houve várias diferenças entre um pleito e outro. Tasso havia rompido com Serra em meio a disputa tucana sobre quem seria candidato ao Palácio do Planalto. Mas, principalmente, Ciro despontava em outra condição. Chegou a aparecer com chance real de vitória. Verdade que, no fim das contas, acabou em posição pior que na eleição anterior: foi o quarto, atrás de Lula, Serra e ainda de Anthony Garotinho (então no PSB). Aliás, a distância de Garotinho para Ciro foi maior que a vantagem de Serra em relação ao candidato á época no PSB.

A questão é a seguinte: Tasso apoiou FHC quando Ciro era figurante na disputa. E ficou com o aliado local quando, além da divergência com Serra, o candidato cearense tinha possibilidades reais. De modo que, para 2018, importa muito para Camilo em qual situação Ciro entrará. Será o Ciro mero figurante de 1998? Ou, tenha ou não o mesmo desfecho, o de 2002, que chegou a flertar com a vitória?

Não creio que, em cenário algum, Camilo fará corpo mole em relação a Ciro. Porém, manterá portas mais abertas em relação ao PT quanto menores forem as chances do pré-candidato pedetista.

Publicado originalmente no portal O Povo Online