17 de agosto de 2016

Por que Piquet é o tricampeão menos reverenciado no Mundo da F1? por Lucas Berredo

Piquet após vencer o GP da Hungria de 86 (Divulgação)

Antes de apresentar o tema, é impreterível lançar um pequeno aviso ao leitor: o desígnio aqui jamais foi questionar o talento de Nelson Piquet. É preciso esclarecer a proposta ao interlocutor porque acreditamos que a discussão, por sua relevância, não pode ser mal interpretada. Logo, repetindo: o artigo não é sobre o talento nem a relevância histórica do carioca, e sim seu reconhecimento dentro do mundo da F1.

Dito isso, uma reflexão: é curioso como, diferente de outros campos do esporte, os fãs de F1 – e também jornalistas e pessoas ligadas ao paddock – levem em conta os pontos baixos de um piloto para avaliar sua carreira. Vejam: no futebol, Garrincha é reverenciado mesmo tendo terminado sua trajetória no Olaria, fincado num banco de reservas sem joelho e sem perspectiva de vida. O mesmo ocorre com Michael Jordan: ninguém, ao examinar a carreira de His Airness, relembra seu fim discreto no Washington Wizards como um peso negativo – provavelmente porque o auge estratosférico nos Bulls não deixa mentir o que ele era capaz de cumprir no basquete.

Piquet com seu icônico Brabham #5 (Divulgação)
De qualquer forma, na F1, o fracasso, por menor que seja, é um enorme peso: quem nunca desqualificou Michael Schumacher pelo fim melancólico na Mercedes? Ou Ayrton Senna pelos anos de penúria na McLaren, em 1992? Os casos são inúmeros.

Na condição de Piquet, o contrapeso na carreira são os abastados e infrutíferos anos na Lotus e o nevrálgico episódio final em que foi derrotado por um jovem Schumi na Benetton – um detrator diria, “enxotado” de Enstone pelo alemão.

É por isso, dizem alguns, que Piquet nunca é relembrado nos polls ordinários sobre os maiores pilotos da história. À exceção do Brasil, onde a imprensa, desde sempre, instigou uma dicotomia – obscena, é preciso dizer – entre ele e Senna, o nome do ex-Brabham nunca é lembrado. Quando mencionado, serve de argumento para esfacelar a importância dos números: isto é, sim, ele tem três títulos e 23 vitórias na F1, mas o que isso importa? É isso que investigaremos aqui: o porquê de Piquet, fora de seu país, ser tão marginalizado pela crítica.

Homem de uma escuderia só

Como todo piloto de bom calibre, Piquet não demorou para impressionar na F1. Para se ter uma ideia, ainda em sua primeira aparição pela Brabham, no GP do Canadá de 78, o carioca superou Niki Lauda e John Watson num treino com chuva, o que impressionou Bernie Ecclestone o suficiente para pedir que ambos “pendurassem os capacetes”.

No ano seguinte, Watson trocou a Brabham pela McLaren e Piquet teoricamente o substituiria como nº 2 no time. Mas ocorreu o contrário: o brasileiro subjugou Lauda com frequência, domando o pesado e inconstante motor V12 do BT48 e terminando o campeonato só um ponto atrás do austríaco. Quando Lauda deixou a F1, Nelson automaticamente se tornou o ás nº 1 da escuderia.

Piquet com o Brabham-Alfa no GP de Mônaco de 79
Nas temporadas seguintes, o brasileiro ingressou em sua melhor fase. Sagrou-se vice-campeão em 80 e campeão nas temporadas de 81 e 83 – uma em cima de Carlos Reutemann e outra contra Alain Prost. Em especial no último título, o mundo assistiu ao melhor de Piquet: velocidade e talento constante aliados a uma incomum sensibilidade mecânica – em uma época na qual as quebras eram parte do cotidiano no esporte.

Nelson parecia ser com sobras o melhor piloto do grid: mais veloz que Prost e Lauda, mais técnico que Keke Rosberg e mais consistente que René Arnoux. Mesmo com a fase de vacas magras para a Brabham em 84 e 85, continuou se destacando na pista: na primeira temporada, conquistando nove poles e liderando a maioria das corridas até onde o equipamento lhe permitiu; na segunda, mostrando comprometimento com o trabalho como piloto de testes ao  completar o equivalente a 75 GPs de testes com o pneu Pirelli.

Foi na mudança para a Williams, na temporada seguinte, que sua reputação começou a ser questionada. Na Brabham, Piquet era visto como nº 1 absoluto, algo que às vezes contava contra sua avaliação – mais ou menos o que se duvidava de Schumacher nos anos 90, quando este dividia a garagem com pilotos medianos como J. J. Lehto e Eddie Irvine.

Em Grove, porém, ele sofreu uma forte oposição do inglês Nigel Mansell. E diante das sete vitórias contra 12 creditadas ao britânico no fim de 87, muita gente viu o terceiro título conquistado pelo brasileiro como “justo, apesar do próprio Piquet”. A partir daí, o consenso – na imprensa inglesa principalmente – era de que Nelson fora um piloto de “uma escuderia só”, tendo obtido sucesso na Brabham somente porque as atenções estavam totalmente a ele. Mas isso é justo?

Duelo com Mansell e antipatia da imprensa inglesa

Como discutimos acima, por volta de meados dos anos 80, Piquet era considerado o piloto mais completo do grid – até mais do que Prost. Tanto que, ao se aposentar da F1 em 1985, Niki Lauda avaliou o brasileiro desta forma:

“Durante meus anos na F1, quatro pilotos deixaram uma marca forte para mim: Piquet, [James] Hunt, [Gilles] Villeneuve e Prost. Se questionado quem considero o melhor ás do mundo, não preciso ir muito longe: Nelson Piquet. Ele tem tudo o que um campeão exige: estatura, firmeza, habilidade para se concentrar no ideal, inteligência, força física e velocidade.”

Independente de Lauda ser próximo ou não a Piquet, essa era, àquela altura, a visão consensual no paddock. Por conta disso, a expectativa em relação à mudança do brasileiro para a Williams em 1986 era muito grande. Afinal, diferente dos anos anteriores, ele finalmente teria um equipamento azeitado para lutar pelo campeonato.

Piquet, Prost e Mansell antes do GP da Austrália de 86

Mas Piquet teve que lutar para se manter no mesmo nível de Mansell e, convenhamos, a impressão a olho nu é de que o brasileiro tenha subestimado um piloto que, fato, por séculos foi coadjuvante de Elio de Angelis – um ás excelente, mas não no mesmo nível de um Prost ou um Lauda – na Lotus e demorou cinco temporadas para abocanhar um GP.

Talvez na avaliação de Nelson, como nos tempos de Brabham, a obrigação da Williams fosse garantir uma posição para ele, bicampeão mundial, como número 1. Mas a equipe deixou o pau comer solto, o que, para Piquet, até hoje é visto como uma atitude pró-Mansell dentro de Grove.

Esse comportamento defensivo do brasileiro lhe rendeu uma imensa antipatia da imprensa britânica. Com um senso de humor perverso, beirando entre o encantador e o rancoroso, Piquet muitas vezes vomitou as piores palavras à opinião pública. Tornaram-se célebres seus comentários sobre a “feiura” da esposa de Mansell e a suposta homossexualidade de Senna – produto da sua época, ele endossava o discurso comum de que ser ou parecer gay era um comportamento vergonhoso.

Era tudo que a mídia queria para afiançar um sentimento de reprovação. E, como vimos no caso Alonso x Hamilton em 2007, numa briga entre um inglês em ascensão e um estrangeiro esnobe, tudo que a imprensa local precisa é do “gentio” na lona. Foi o que aconteceu com a reputação do espanhol na McLaren e, de certa forma, a de Piquet na F1. Daí surge um dos argumentos que sustentem o aparente esquecimento do brasileiro pela imprensa britânica: ele foi tricampeão, é verdade, mas seu caráter era de um rato.

Havia também a impressão, mesmo dos jornalistas mais neutros, de que Piquet não conseguia admitir o domínio de Mansell – em 1986, a briga foi equilibrada nas qualificações (9 x 8), mas a vitória final foi do britânico. Há inclusive um caso que contou contra a defesa de que o brasileiro tenha sido injustiçado no time.

No GP da Hungria de 86 (confira o compacto da prova abaixo), Piquet venceu o páreo, mas pouco depois Mansell alegou que ele teria se beneficiado de um novo diferencial no FW11. O dispositivo teria melhorado o equilíbrio do carro nas curvas de baixa velocidade de Hungaroring. Como de praxe, rapidamente o tricampeão foi acusado de não trabalhar para o time.

Em sua defesa, Piquet e seu engenheiro Frank Dernie alegaram que Mansell testara o novo componente, mas não teria se adaptado. De qualquer forma, o brasileiro pôs uma volta no companheiro naquele GP, o que mostra a disparidade no equipamento dos dois. Pode ter sido golpe de sorte? Pode. Mas a questão pegou muito mal para Nelson e a fama de trapaceiro ecoou durante toda a temporada seguinte. Por isso, quando Piquet conquistou seu terceiro título, ninguém festejou muito na imprensa do Velho Mundo. E talvez nem aqui no Brasil, onde o fenômeno Senna já começava a dar seus primeiros passos.

Piquet com o famigerado Williams-Honda FW11 (Divulgação)
Impaciência com a F1 e rápido declínio

Aqui no Hemisfério Sul, Piquet é reverenciado como um gênio da mecânica, um prodígio de alta sensibilidade com os movimentos do carro. Nos anos 80, porém, sua fama era muito mais de um playboy sem grandes aspirações filosóficas no esporte – apesar dos predicados citados acima. De fato, essa indiferença com o esporte reluz nas declarações de Piquet até hoje: em todas as entrevistas, ele demonstra não estar muito disposto a ir às provas ou acompanhar o calendário. A verdade é que às vezes parece que ele mal sabe os nomes dos pilotos.

De qualquer forma, há relatos de que, pouco após seu segundo título na categoria em 83, Nelson quase abandonou o esporte. Aos 30 anos, ele já se mostrava irritado com as viagens e a constante pressão por resultados. Além disso, nunca esteve plenamente satisfeito com o que ganhava na Brabham e muitos dizem que o principal motivo da mudança para a Williams se deu por causa disso.

O ponto em que quero chegar é que, talvez entre 1983 e 1985, Piquet tenha perdido o arrebatamento da coisa, o que afetou no seu desempenho. Seja pela profissionalização cada vez maior, seja pelo alto número de GPs ou mesmo pelo famigerado acidente de Ímola em 87, o brasileiro acabou engolido por Prost e Senna no fim da década.

Piquet com o FW11 no GP da Itália de 87
Agora vamos voltar ao ponto de abertura na nossa conversa. Lembram da compulsão do fã de F1 por uma carreira plena, sem erros, como o Ideal – com letra maiúscula mesmo, à moda dos filósofos alemães – na categoria? É justamente a partir daí que o conceito de Piquet despenca.

Na Lotus, a tendência era de um retorno aos anos de Brabham, de novo com uma equipe inteira trabalhando unicamente para ele. Mas no primeiro ano o chassi era ruim, o motor era OK, e no segundo, o inverso. Além do mais, ser derrotado por Satoru Nakajima em Spa-88 definitivamente não condiz com o status de um tricampeão, o que levou a outro motto frequentemente proferido pelos detratores de Piquet: quando o carro era abaixo da média, ele não conseguia desenvolver.

O renascimento na Benetton em 1990-91 provou que o talento do brasileiro não havia desaparecido. Mas à esta altura já era tarde demais para reclamar um novo título: o carro de Enstone era bom, mas não o suficiente para brigar de frente a frente com McLarens e Williams.

Então a F1 desistiu de Piquet. Como tudo na vida, não importa o passado, não importa o currículo: em um determinado momento, você só precisa escolher quando precisa se aposentar.

Nelson com o Benetton B191 em Silverstone-1991 (Divulgação)
Conclusão

No rol dos tricampeões, há cinco além de Piquet: Jack Brabham, Jackie Stewart, Niki Lauda, Ayrton Senna e Lewis Hamilton. O britânico da Mercedes ainda está na ativa, então vamos deixá-lo de fora da discussão.

Agora por que Brabham, Stewart, Lauda e Senna são mais incensados e endeusados que o brasileiro? E mais: por que pilotos sem o mesmo currículo, como Gilles Villeneuve e James Hunt, rotineiramente aparecem na memória do fã com mais louros do que o nosso antiherói?

Ao menos na opinião deste autor, são dois pontos. Em relação aos tricampeões,  lembrem que todos, fora Piquet, saíram no auge. Senna obviamente foi acometido por uma fatalidade, mas Stewart e Lauda, por exemplo, deixaram a F1 em seu auge. O escocês abandonou a carreira no ano em que obteve seu último título, enquanto o austríaco, por sua vez, havia conquistado seu caneco derradeiro no ano anterior.

Poderíamos relacionar Piquet a Brabham? Talvez, os dois tinham até um estilo parecido. Mas o australiano logrou este feito sui generis que é ter vencido um Mundial de F1 com seu próprio carro, em 1966. Esta façanha, por sua vez, já o distancia mesmo de pilotos com mais títulos.

Piquet com o amigo Lauda, durante apresentação no último GP da Áustria
Piquet então acaba ficando para trás. Mas não é apenas uma mera questão de quem terminou no auge ou não: todos os tópicos listados acima contribuíram para esta certa indiferença em relação ao seu nome. A indisposição com a imprensa, a rivalidade com Mansell, suas entrevistas alheias e dispersas, seu eterno ar blasé.

Piquet nunca pareceu estar confortável com a F1. E, numa cultura ácida e em-si-mesmada que é a cultura do Grand Prix, a resposta a um estímulo negativo sempre é o esquecimento – que o digam nomes como Tony Brooks e Jody Scheckter, ases excelentes que se desligaram do esporte e são ignorados pelo status quo da categoria em premiações e cerimônias.

Apesar disso, a história não é linear, como muitos pensam. E há espaço para revisão. Talvez seja a hora do mundo compreender o caso de Nelson Piquet.

Publicado originalmente no portal Projeto Motor