11 de fevereiro de 2017

"O dominó de Temer" por Érico Firmo

Uma das mais emblemáticas peças de marketing político da época do mensalão foi a propaganda do PSDB que trazia personagens do escândalo como peças de dominó. Uma a uma, elas caiam e derrubavam a peça subsequente. Apareciam ministros de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT e de outros partidos, como Anderson Adauto (PR). Também eram mostrados assessores, amigos, aliados e até o publicitário Duda Mendonça. No fim, a última peça — Paulo Okamoto, então presidente do Sebrae, acusado do mensalão, presidente do Instituto Lula e hoje réu na Lava Jato - caia e resvalava e Lula, que balançava sem cair.


A propaganda mostrava dez personagens do entorno mais ou menos próximo a Lula. A esta altura, as peças do jogo de Michel Temer (PMDB) já são mais numerosas que as de Lula, de acordo com o que apresentava a publicidade do PSDB.

Do grupo de colaboradores mais próximos do presidente, caíram por estarem enrolados com a Lava Jato Henrique Eduardo Alves (PMDB) e Romero Jucá (PMDB-RR). O último deixou o Ministério do Planejamento depois que gravação realizada por Sergio Machado revelou um dos mais indecentes diálogos da história recente da República. Mesmo fora do cargo, continuou influente no ministério e assumiu a liderança do governo Temer no Congresso. Nesta semana, virou alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF).

Alves também é alvo de inquéritos, foi citado por Machado como tendo recebido R$ 1,5 milhão em propina. Diante das denúncias, pediu demissão do Ministério do Turismo. O assessor especial José Yunes deixou o cargo após ser acusado por Claudio Melo Filho, ex-diretor da Odebrecht, de ter recebido dinheiro da empreiteira.

Geddel Vieira Lima também caiu, mas não pela Lava Jato. Ministro da Secretaria de Governo, ele foi acusado de tráfico de influência, por supostamente interferir para a liberação de obra de prédio em Salvador. Depois disso, virou alvo de ação da Polícia Federal que investiga corrupção na Caixa Econômica.

Ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha aparece como “Primo” nas planilhas da Odebrecht e foi citado 45 vezes por Melo Filho.

A bola da vez no núcleo de Temer é Moreira Franco. Secretário-executivo do Programa de Parceria de Investimentos, foi promovido a ministro, à frente da Secretaria-Geral da Presidência. É outro com presença marcante em delações da Odebrecht. Como ficou a desconfiança de estratégia para dar a ele foro privilegiado, disputa judicial tem transcorrido desde então.

Sem cargo no governo, o senador Valdir Raupp (PMDB-RO) foi denunciado na Lava Jato, acusado de receber propina de R$ 500 mil. Raupp foi vice-presidente de Temer no PMDB.

Esses são apenas os mais próximos ao presidente. Mas há outras peças no dominó de denúncias. Eleitos para o comando do Congresso Nacional com respaldo de Palácio do Planalto, Rodrigo Maia (DEM) e Eunício Oliveira (PMDB) também são citados.

O peemedebista aparece como “Índio” nas planilhas da Odebrecht e teria cobrado R$ 2,1 milhões para articular aprovação de medida provisória de interesse da empreiteira. Nesta semana, foi revelado que a Polícia Federal concluiu que Maia recebeu R$ 1 milhão da empreiteira OAS, em troca de “favores políticos”.

Esse é o novo comando do Congresso. O antigo está ainda mais enrolado na Lava Jato. E também tinha sido eleito com respaldo de Temer. Na Câmara estava Eduardo Cunha (PMDB-RJ), hoje cassado e preso. No Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), réu no Supremo e que terminou sua gestão à frente do Senado impedido de exercer uma de suas prerrogativas - substituir o presidente da República.

Há outras personagens importantes, em diversos partidos, citados em investigações. José Serra (PSDB), ministro das Relações Exteriores, teria recebido R$ 23 milhões da Odebrecht, inclusive por conta na Suíça, na forma de caixa dois. A informação foi obtida em delação de diretores da empreiteira. Gilberto Kassab (PSD), da Ciência, Tecnologia e Comunicações, teria recebido R$ 14 milhões via caixa dois, ainda segundo os delatores da Odebrecht. Documentos apreendidos apontam ainda indícios de pagamentos aos ministros da Educação, Mendonça Filho (DEM), da Saúde, Ricardo Barros (PP), e da Defesa, Raul Jungmann (PPS).

Ninguém até agora está condenado. Porém, a situação de deterioração ética no governo Temer já é pelo menos tão grave quanto no momento mais crítico das gestões petistas. A crise institucional que derrubou Dilma Rousseff (PT) não saiu do Palácio do Planalto.

Publicado originalmente O Povo Online