23 de novembro de 2018

Ministério militarizado por Érico Firmo


A coluna comentou ontem a ascensão do DEM como força dominante no governo Jair Bolsonaro (PSL). Maior que ela só tem uma: os militares. De 13 ministros escolhidos até agora, nada menos que cinco têm relação com as Forças Armadas. Há dois generais: Augusto Heleno (Segurança Institucional) e Fernando Azevedo e Silva (Defesa). 

O astronauta Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) é tenente-coronel da reserva da Força Aérea. Mantido no Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner de Campos Rosário é graduado em Ciências Militares pela Academia das Agulhas Negras.

Ontem, para o Ministério da Educação, foi anunciado o filósofo colombiano naturalizado brasileiro Ricardo Vélez Rodríguez, professor da Escola de Comando e Estado Maior do Exército.

Estas são, até agora, as principais características da equipe de Bolsonaro: militares e gente do DEM. Parece o Brasil dos anos 1980.

No Facebook, o futuro ministro disse essa semana o que considera a primeira coisa a ser feita na educação: "Em primeiro lugar que se limpe todo o entulho marxista que tomou conta das propostas educacionais de não poucos funcionários alojados no Ministério da Educação. Isso para início de conversa".

Discurso que parece saído da Guerra Fria. Vamos deixar uma coisa clara: escola é lugar de ideias. O marxismo é uma das correntes filosóficas mais importantes dos últimos séculos. Não pode ser varrido de sistema educacional algum. Nem ele nem o positivismo, a fenomenologia, o liberalismo, niilismo, estruturalismo, existencialismo, pós-modernismo, física quântica. Tudo isso precisa estar nas nossas escolas e universidades.

Questão ideológica e o veto ao ministro

As notícias - que não se confirmaram - da escolha de Mozart Neves Ramos para ministro da Educação causou muito incômodo na bancada evangélica, conforme mostrou a Folha de S.Paulo.

Não se trata de perfil polêmico, em tese. Foi secretário da Educação de Pernambuco no governo Jarbas Vasconcelos (MDB). Foi reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidiu a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Não se trata de entidade propriamente radical. Seria sugestão de Viviane Senna, com quem trabalha no Instituto Ayrton Senna.

Mozart é visto como moderado e alguém com trânsito entre a esquerda e a direita. Isso aparentemente minou suas chances. O Brasil está de um jeito que pessoas com trânsito, aceitas em diferentes espectros, são implodidas.

O problema central com ele seria a falta de vínculos com o projeto Escola sem Partido. Para muitos dos partidários de Bolsonaro, a única questão relevante na educação é esta. Se as pessoas sabem ler, escrever, se fazem contas ou se a universidade produz ciência, isso tudo é menor. Enxergam uma miragem e se assombram com ela.

A Folha publicou declaração reveladora do deputado federal Sóstenes Cavalcanti (DEM-RJ), integrante da bancada evangélica. Queixoso da eventual escolha de Mozart, ele disse: "Para nós, o novo governo pode errar em qualquer ministério, menos no da Educação, que é uma questão ideológica para nós".

Muito transparente e verdadeira a declaração de Sóstenes. O Escola sem Partido não é um processo de desideologização. Não é ausência de ideologia. É ideológico, sim senhor. Importante isso ficar claro.

E não significa que seja ruim. Pelo contrário. Ideologia significa a defesa de ideias, princípios. De um conjunto de concepções. É da essência da política. Ruim é um monte de gente por aí que não acredita em coisa nenhuma e pode defender qualquer coisa se for bem recompensado. O que tem de deputado que apoiou o governo Lula, apoiou o governo Temer, apoiará o governo Bolsonaro e qualquer outro que venha a seguir? Essa é a falta de ideologia. É bom? É não.

Talvez pior que falta de ideologia só mesmo quem tem, mas quer fingir que não.

Publicado originalmente no portal O Povo Online