29 de outubro de 2016

"As lições de Ana Júlia" por Silvia Ferraro

Com a voz embargada, o coração acelerado e nervosa diante de uma plateia hostil, a jovem Ana Júlia, secundarista de apenas 16 anos, não arrancou aplausos da maioria dos deputados e do presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, que queria lhe cortar a palavra, mas emocionou a todos que assistiram o vídeo com o seu discurso e nos deixou mais esperançosos na semana em que a PEC 241 foi aprovada pela Câmara Federal.

Ana Júlia disse que em uma semana de ocupação ela e seus companheiros aprenderam mais do que todos os anos que ela passou nos bancos escolares. Ao mesmo tempo, podemos dizer que os dez minutos em que Ana Júlia gastou na tribuna ensinaram mais do que todos os discursos que os deputados fazem por anos naquela casa legislativa.

As ocupações de escolas têm servido de verdadeiro aprendizado para toda uma geração. Não é o aprendizado dos livros didáticos enfadonhos, é o conhecimento mais difícil de se conseguir, pois depende da participação direta nos processos históricos. Somente algumas gerações têm o privilégio de participarem de processos como estes. Na década de 80, uma geração inteira de secundaristas viveu o ascenso das grandes manifestações pelas Diretas Já! Dentro das escolas, o clima contra a ditadura se manifestava na luta pela constituição dos grêmios livres em oposição aos centros cívicos tutelados pelas direções de escola. As grandes mobilizações operárias e estudantis se contagiavam mutuamente e resultaram na derrubada da ditadura e nas conquistas da Constituição de 1988.

Hoje, podemos dizer que vivemos um processo oposto. Um golpe parlamentar a serviço de rasgar a constituição de 1988 congelando os gastos em saúde, educação e proteção social. Projetos conservadores como a Lei da Mordaça que pretendem, como disse Ana Júlia, criar um “exército de não pensantes” e a Reforma do Ensino Médio que vai na contramão da universalização da educação básica com o objetivo de abrir um novo mercado para as empresas explorarem.

Duas gerações divididas pelo tempo de duas décadas, a que conquistou a constituição de 1988 e a que vê a carta sendo rasgada. Dois signos opostos na situação brasileira, mas uma mesma lição: a luta coletiva é o maior aprendizado que os explorados e oprimidos podem adquirir. Ele não se perde, ele é histórico e passa através das gerações pelo tempo. Ele semeia a terra da luta de classes e floresce depois, quando menos esperamos.

As lições de Ana Júlia são as dessa geração, que ocupou escolas em São Paulo no ano passado e derrotou o governo Geraldo Alckmin no projeto da reorganização escolar. Também dos jovens que saíram às ruas em junho de 2013 e que derrotaram o aumento das passagens. Uma geração que nada contra a corrente, contra um avassalador projeto de recolonização do nosso país e da imposição de inúmeros retrocessos sociais e políticos.

Mas cada geração ensina de forma diferente. As ocupações de hoje estão ensinando coisas que haviam se perdido. As decisões coletivas, as divisões de tarefas, a não reprodução das opressões no movimento, a coragem para enfrentar a repressão e tantas outras.  Ana Júlia é só um pequeno exemplo do exército que se forma nas ocupações do Paraná e nas demais escolas e universidades no país. Não é o “exército de não pensantes”, são sujeitos críticos fazendo história.

Publicado originalmente no portal Carta Capital