17 de fevereiro de 2018

O título é da Beija-Flor, mas a glória é da Tuiuti por Pai Rodney

Há muito tempo a cidade do Rio de Janeiro não se via em tal situação. A prefeitura cortou metade da verba das escolas de samba, não permitiu a utilização do sambódromo para os ensaios técnicos, forneceu uma organização pífia e os dirigentes e carnavalescos tiveram que se virar.

Também queriam confinar os blocos de rua, restringir acessos e acabar com a farra. Os inimigos do povo, do carnaval e da alegria estavam à solta.

Um clima de insegurança instalou-se desde o primeiro dia de festa. Não havia planejamento, policiamento, limpeza, iluminação, estrutura. Tudo era precário e os sambistas e foliões, entregues à própria sorte, brincaram do jeito que deu, mesmo com medo, apesar dos riscos.

Assim que o corte da verba foi anunciado, as agremiações tiveram que rever seus orçamentos.

Esse episódio inspirou o enredo da Mangueira: “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”. A crítica direta ao prefeito Marcelo Crivella rendeu à escola um quinto lugar e o direito de retornar no desfile das campeãs. Crivella foi representado numa alegoria como um “judas” enforcado e acusou a Mangueira de intolerância religiosa. Logo ele, bispo da Igreja Universal, que já incitou e cometeu inúmeras atrocidades contra as religiões de matrizes africanas em nome de Jesus.

Outras duas escolas protestaram através de seus enredos: Beija-flor de Nilópolis e Paraíso do Tuiuti, respectivamente campeã e vice-campeã do Carnaval 2018.

A Beija-flor veio com uma estética diferenciada, mais original do que luxuosa, e arrebatou os jurados com o enredo “Monstro é aquele que não sabe amar – os filhos abandonados da pátria que os pariu”. Corrupção, ódio, intolerância foram criticadas a partir de uma correlação com a história de Frankenstein.

Um campeonato incontestável e um desfile competente, mas que reproduziu uma série de estigmas ao reafirmar, por exemplo, o lugar social do negro sem nenhuma contestação contundente. Foi um protesto aceitável, produzido, ao que parece, para não desagradar a emissora que transmitia o carnaval.

Foi leve, apesar de reproduzir cenas fortes, pois não colocou o dedo na ferida e não foi além do lugar-comum, daquilo que vocifera a classe média raivosa quando diz que quer combater a corrupção mas nem se abala com a seletividade da justiça brasileira.

Apesar da intensa crítica do samba-enredo, o desfile não correspondeu, tornando-se quase um retrato “coxinha”, cheio de estereótipos, feito pra agradar à Zona Sul.

Quando despontou na Marquês de Sapucaí “o quilombo da favela”, perguntando: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” já se via o prenúncio de um desfile memorável. Enredos afro sempre geram grande expectativa, mas a Paraíso do Tuiuti pegou o gancho da escravidão pra fazer uma crítica feroz, ácida e indigesta pra muitos setores da sociedade brasileira.

Bateu forte, sem dó, deixou na lona.

A mesma pergunta que a Tuiuti nos fez 130 anos depois do fim da escravatura, a Mangueira já havia feito no Carnaval de 1988, nos 100 anos da abolição.

Triste é que essa pergunta continua atual e a resposta nós bem sabemos.

A situação do País, com ameaças reais aos direitos trabalhistas, impingia nuances mais densas às constatações que o povo mais pobre já anunciava, mas que a Tuiuti mostrou para o mundo através da tela da Globo, que sempre fez questão de escamotear a crise, constrangendo e calando seus comentaristas. Aliás, um silêncio ensurdecedor diante de mais uma denúncia do golpe, exposta com a clareza e a criatividade que só os grandes carnavalescos possuem.

O desfile da Paraíso do Tuiuti tornou-se o segundo assunto mais comentado no Twiter em todo o mundo. As redes sociais ferveram. Milhares de memes. O silêncio e as bobagens ditas pelos comentaristas viraram piadas. E o povo elegeu a grande campeã do Carnaval 2018.

Foi tamanha repercussão que a própria Globo teve que se redimir e fazer uma reportagem falando sobre o desfile, mas agora dando nome aos bois, ou seja, a todos os criticados.

O último carro da escola retratava as passeatas pelo impeachment da presidenta Dilma. Os manifestantes, com suas camisetas da CBF, ganharam nariz de palhaço e cordas de marionete, vinham montados no pato da Fiesp, batendo panelas e sendo manipulados por mãos gigantes. Eram os “manifantoches”. No alto da alegoria, o destaque central com a fantasia de “Vampiro Neoliberalista”, representava o presidente ilegítimo Michel Temer.

Carteiras de trabalho e a CLT rasgadas numa alusão à revogação da Lei Áurea.

A “bondade cruel” dos senhores, que se livraram do fardo da escravidão ao criar a ilusão da liberdade, sendo reinventada na redução de direitos e nas reformas trabalhistas e da previdência. Não, não foi extinta a escravidão.

Os movimentos de direita, revoltados com a crítica, tentaram derrubar as páginas da Tuiuti nas redes sociais. A esquerda também quis surfar nessa onda e tentou se apropriar do bem sucedido enredo, rasgando elogios à escola e replicando os trechos favoráveis do desfile. Prevaleceu a soberania do samba, do quilombo, da resistência.

“Não sou escravo de nenhum senhor”, já dizia o lindo samba da Tuiuti.

Portanto, a escola fez questão de demarcar seu território, seu lugar de fala, sua autonomia. Ali, era o povo sofrido da favela, era o morro descendo, fazendo do asfalto seu templo de revolução e vitória.

Era a ancestralidade, do candomblé, da umbanda, das macumbas cariocas, naquela comissão de frente que trazia o sangue, o suor e as lágrimas do povo negro.

Os grilhões e o açoite, a redenção e a liberdade na força dos pretos-velhos. Era a morte nos canaviais, nas fábricas, na construção civil. Era o genocídio e a dor das mães que perderam seus filhos com um tiro da polícia.

“O quilombo da favela”, “sentinela da libertação”, mostrou ao mundo a força do povo. O chão da Sapucaí tremeu, e os poderosos, mais ainda. Naquele templo do samba, projetado pelo arquiteto comunista Oscar Niemeyer, ficou provado que é na rua, protestando, que se muda um país. Foi memorável, foi lindo, foi histórico.

O título é da Beija-flor, e não cabe contestação. Mas a glória é da Tuiuti.

Publicado originalmente no portal Carta Capital