1 de fevereiro de 2018

O incerto cenário sem Lula por Érico Firmo

A principal notícia da pesquisa Datafolha divulgada ontem provavelmente seja a pouca mudança após a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A última consulta de intenções de voto havia sido em novembro. Muita coisa aconteceu desde então. A principal delas, a condenação de Lula. Mesmo assim, o cenário se mantém quase inalterado.

E ele hoje é o seguinte: no caso de Lula ser candidato, se a eleição fosse hoje, dificilmente alguém o derrotaria.

Porém, o mais provável, quase certo, é que o petista seja impedido de se candidatar. Neste caso, de um quarto a até um terço do eleitorado fica sem rumo.

Uma constatação clara: denúncias, condenações, mesmo novas denúncias não têm sido, até aqui, capazes de afetar as intenções de voto em Lula. Ele tem sido bombardeado há bastante tempo e sua popularidade é muito menor do que já foi. Mas, ainda não tem páreo. Depois de tantos anos de exposição contínuas a acusações, parece não haver mais fato novo capaz de afetá-lo, nem para o bem nem para o mal.

Porque muita gente imaginou que, com a condenação, Lula poderia até subir. Isso não ocorreu e, então, passou-se a apontar que ele atingiu o teto. Talvez, embora no passado ele já tenha tido muito mais. Por outro lado, é possível que esse seja também seu piso, pois tampouco caiu, embora no passado tenha estado mais abaixo.

O fato novo que talvez altere a situação de Lula é a provável prisão. Se irá interferir para o bem ou para o mal, aí já é outra questão.

Na comparação entre cenários com Lula e sem Lula, o que mais cresce, disparado, é o percentual de eleitores que dizem votar em branco ou nulo. Nas simulações com o petista, o percentual varia entre 12% e 19%. Sem ele, varia de 24% a 32%.

O cenário sem Lula que tem menos votos brancos e nulos é o que tem participação simultânea de Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Luciano Huck (sem partido). Na simulação com os três e mais Lula, o índice de brancos e nulos cai pela metade: 12%.

É improvável que um quarto e até um terço dos eleitores votem em branco ou nulo. Isso até acontece nas eleições somadas as abstenções - quem não vai votar. Isso muito em decorrência das defasagens de cadastros, nas quais ainda constam gente que já morreu, além de muita gente que mora em outras cidades, estados ou países e nunca transferiu título.

Então, a pesquisa não indica necessariamente uma tendência de voto de protesto em massa se Lula for mesmo impedido de concorrer. Os números mostram, sim, um eleitor que não se sente contemplado entre as opções e ainda busca caminho. Pode ser que algum dos postulantes atraia a maioria desses votos, pode ser que ele se pulverize entre as opções, ou talvez se cristalize como não voto mesmo. Ou, quem sabe aparece alguém capaz de canalizar esse sentimento.

Até agora, nenhuma das pretensas novidades teve muito sucesso nisso.

Na pouca mudança no cenário pré-eleitoral dos últimos dois meses, chama atenção o desempenho pífio de personagens importantes.

Um é Geraldo Alckmin (PSDB). O tucano é a principal aposta do bloco que se articulou pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Governa o maior estado do País há mais de sete anos, depois de dois mandatos anteriores. E se sai de forma pouco melhor que ridícula. Com Lula candidato, fica entre 6% e 7%. Sem Lula, curiosamente até o pré-candidato do PSDB se favorece de intenções de votos que seriam de Lula. Com o petista fora do páreo, Alckmin tem de 8% a um pico de 11%.

Principal nome do governo Michel Temer (PMDB), Henrique Meirelles (PSD) beira a irrelevância na disputa pré-eleitoral. Tem 1% quando Lula é candidato. Sem o petista, ele chega a dobrar e atinge 2%.

Mais provável substituto de Lula, caso o PT se decida por lançar outro nome, Jaques Wagner (PT) é outro que não passa de 2%. Nas simulações, tem mais eleitor de Lula migrando para Alckmin que para Wagner. Ajuda a entender por que o PT não quer ouvir falar em plano B.

Publicado originalmente no portal O Povo Online