15 de dezembro de 2014

Contra a corrupção, três horas de bicicleta por Carlos Mazza

O Repórter Carlos Mazza do jornal O POVO acompanhou o trajeto na 4ª pedalada anual contra a corrupção refletindo sobre o tema e percebendo uma nova relação entre a cidade e as bicicletas (Foto Evilázio Bezerra)
Com quantas pedaladas se constrói uma sociedade mais honesta? Feita assim de repente, a pergunta leva a uma série de divagações, todas muito pouco conclusivas. Tentando encontrar esta e outras respostas, me escalei para acompanhar a 4ª Pedalada anual Contra a Corrupção – que teve início às 7h de ontem e percorreu mais de 23km em protesto contra o “descalabro”. 

Como não podia deixar de ser, a missão começou cedo. Pelas 6h30min, diversos ciclistas já se aglomeravam na sede da Coelce, ponto de partida do percurso, no José Bonifácio. A preparação foi organizada, rápida e fácil: com cinco minutos, já tinha em mãos a camiseta oficial do evento e a bicicleta que guiaria pelo trajeto. Tudo grátis e aberto ao público.

Após me alongar e deixar meu “não” contra a corrupção no mural do evento, iniciei peregrinação ao Lago Jacarey – sim, foi um percurso longo. Em todo o caminho, o locutor do carro de som nos lembrava que a corrupção tem mil faces. “Se você suborna um agente de trânsito para não receber multa, isso é corrupção”. “É isso aí!”, endossava mentalmente.

“Se você fura a fila ou deixar alguém furar, isso é corrupção também”. “Vixe”, pensei envergonhado, lembrando dos amigos e paqueras que “cortei caminho” em longas filas. “A pequena corrupção é base que sustenta a grande corrupção”, me punia, altivo, o locutor. Constrangido, fitei o chão e pensei no perrengue que teriam passado pessoas cujos espaços rifei indiretamente.

A ação acabou focada na conscientização de cada um – sem gritos de “fora Dilma” ou disparates raivosos contra partido A ou partido B. Bacana. Mesmo não sendo dos mais ativos fisicamente – meus domingos tem mais a ver com galeto de padaria e cerveja gelada –, fiquei um pouco incomodado apenas com a marcha lenta no início do evento. Mas é isso, a corrupção não será eliminada de uma vez só.

No longo percurso, onde cada ladeira era quimera comparável a uma maleta de propina, fui percebendo uma tendência. Mais do que preocupados com deputados ou novo escândalo na Petrobras, ciclistas se reconheciam de pedaladas pregressas, conversavam e riam entre si. Novos laços de amizade e com a cidade sobre duas rodas deixam claro que, ao menos nisso, Fortaleza tem mudado bastante. Para melhor.
Publicado originalmente O Povo Online